Aposta da farmacêutica Cimed para reduzir a dependência da área de medicamentos no faturamento da empresa, a recém-lançada marca de suplementos Urso, que tem o animal como garoto-propaganda, está proibida de ser divulgada e comercializada, sob alegação de uso de imagem já consolidada no mercado, segundo decisão limitar do Tribunal de Justiça de São Paulo.
A ação foi movida pela empresa J.A. Hard Nutrition, dona da marca de produtos alimentares de alta performance e fisiculturismo Under Labz, criada em 2021 e que sempre utilizou o urso como identidade visual da empresa.
A decisão liminar foi publicada no Diário Oficial na terça-feira, 3 de fevereiro, e proferida pelo juiz Bruno Paes Straforini, da 1ª Vara Cível da comarca de Barueri (SP). Na quinta-feira, 5 de fevereiro, a Cimed entrou com agravo de instrumento, contestando a decisão. O NeoFeed teve acesso à íntegra do processo.
A marca foi lançada no fim de dezembro e amplamente divulgada em janeiro nas redes sociais da Cimed e do próprio CEO da companhia, João Adibe Marques. As imagens apresentadas dos itens ligados ao segmento fitness trazem o urso, como se fosse um fisiculturista, com uma forte presença da cor amarela, que caracteriza a Cimed. O empresário não chegou a divulgar a data em que os produtos estariam disponíveis no mercado.
No pedido à Justiça, a J.A. Hard Nutrition alegou que “foi surpreendida com a divulgação massiva, sobretudo nas redes sociais do segundo réu (Adibe), do lançamento de uma nova linha de suplementos sob a marca “URSO”, igualmente acompanhada da representação figurativa do animal, o que caracterizaria imitação ideológica, concorrência desleal e parasitismo, aptos a gerar confusão no público consumidor e diluição do valor distintivo de sua marca”.
No processo, a Cimed argumentou que o termo e a figura do urso “seriam de uso comum, desprovidos de distintividade, inexistindo confusão ou associação indevida”.
Alegou também que comentários de consumidores nas redes sociais falando da semelhança do estilo da marca, anexados no processo pela dona da Under Labz, teriam sido “artificialmente estimulados”.
Na sentença, o juiz disse que “o lançamento, pelos réus, de produtos no mesmo segmento de suplementos alimentares, com a adoção da marca “Urso” e de identidade ideológica semelhante àquela desenvolvida pela autora, revela, por ora, indícios de conduta apta a caracterizar concorrência desleal”.
Straforini ainda afirmou que uma possível manutenção do uso da marca causaria dano à Under Labz, “na medida em que se verifica que os réus detêm significativa superioridade econômica em relação à autora, circunstância que pode comprometer sua atuação no mercado”.
Escreveu ainda, em sua decisão, que a continuidade das ações de marketing poderia gerar “desvio de clientela”, ocasionando, segundo o magistrado, “prejuízos financeiros de difícil reparação, bem como a indução de consumidores a erro”.
No deferimento da tutela de urgência, o juiz determinou que a Cimed interrompesse imediatamente a divulgação da marca Urso e fizesse qualquer referência ao animal, além de excluir as publicações já feitas nas redes sociais da empresa e do CEO, sob pena de multa diária de R$ 10 mil, até o limite de R$ 300 mil.
O juiz proibiu ainda a farmacêutica de lançar qualquer produto da linha desta marca ou com a mesma representação visual, sob pena de multa de R$ 2,5 milhões. O mérito do processo ainda deve ser julgado.
Fato é que não há mais nenhuma menção à nova marca de suplementos para fisiculturistas nas plataformas digitais da Cimed e de Adibe. A própria página da Urso nas redes sociais saiu do ar.
Até mesmo o influenciador digital Toguro, que ficou famoso por causa do meme “sabor energético” e que foi anunciado recentemente como novo head de comunicação da Cimed, deixou de falar sobre os produtos da Urso.
A briga na Justiça entre Cimed e J.A. Hard Nutrition envolve a busca pela fatia de um mercado que deve movimentar perto de R$ 10 bilhões até 2028, segundo dados da Euromonitor International.
Com um crescimento anual superior a 20%, o mercado brasileiro de suplementos alimentares, hoje o terceiro maior do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Austrália, tem como principais itens a creatina e o whey protein.
No plano de ampliação de leque de segmentos, a Cimed anunciou, na segunda-feira, 2 de fevereiro, a aquisição da marca de higiene bucal IceFresh, empresa que tem faturamento anual de R$ 200 milhões.
O plano, revelado por Adibe, é de capturar 10% de market share do segmento de oral care no Brasil, um setor que movimenta R$ 20 bilhões. A ação segue a estratégia de fazer com que a área de higiene, beleza e cuidados pessoas represente mais da metade da receita da Cimed.
“A Cimed sai do DNA de uma indústria farmacêutica para se tornar uma empresa também de consumo. Nos últimos quatro anos, aceleramos este processo”, disse Adibe ao NeoFeed, na ocasião da compra da IceFresh.
Para 2026, a previsão é que a farmacêutica fature R$ 5 bilhões, incluindo planos de novas aquisições e de entrada no setor de canetas emagrecedoras. Em cinco anos, a previsão é de chegar a R$ 10 bilhões.
Em nota ao NeoFeed, a Cimed informou que "recebeu a decisão com surpresa, contudo reafirma sua plena confiança no Poder Judiciário e na correta aplicação do direito. Por essa razão, a companhia adotará as medidas cabíveis para buscar a reversão do entendimento, acreditando que a questão será devidamente reavaliada pelas instâncias competentes".
E acrescentou que a "empresa reforça ainda sua confiança na ética com que conduz toda a sua operação e agradece as manifestações de apoio de consumidores que têm se posicionado nesse mesmo sentido".
A dona da Under Labz, também em nota ao NeoFeed, diz que “é titular de registros de marca regularmente concedidos pelo INPI, por meio dos quais adquiriu legalmente o direito de utilizar, explorar economicamente e proteger de forma exclusiva e distintiva o seu nome e o seu símbolo, representado pela figura do animal urso. Esses registros asseguram à Under Labz o direito de explorar seu signo distintivo como elemento de identificação da origem empresarial de seus produtos”.
“A Under Labz faz questão de registrar seu respeito à Cimed, reconhecendo sua relevância histórica no setor farmacêutico nacional e seu papel fundamental na ampliação do acesso da população brasileira a medicamentos com preços mais acessíveis, contribuindo de forma legítima para a saúde pública no país”, diz a nota, assinada pelo CEO Fernando Malmegrin, sócio de Jaime Andolfato na empresa.
“A concorrência saudável se constrói a partir da criação de identidades próprias, originais e autênticas. A Under Labz reforça que não possui qualquer intenção de questionar a reputação, a idoneidade ou a trajetória da Cimed ou de seu CEO. Sua atuação se limita, de forma responsável e legítima, à proteção de seu ativo mais valioso: sua marca, seu signo distintivo e o significado construído ao longo de anos de trabalho”, completa a empresa.