O setor eólico brasileiro começa 2026 com uma barreira que pode impedir o avanço das principais empresas que atuam no segmento. São dois ventos contrários nessa direção: o longo período da taxa de juros estabelecida em 15% ao ano e a falta de solução do governo federal para acabar com o curtailment (a interrupção forçada da geração de energia renovável).

A avaliação das dificuldades impostas às companhias do setor de energia é de Eduardo Ricotta, CEO na América Latina da gigante dinamarquesa Vestas. Para ele, a falta de mobilização para resolver esses problemas tem feito o Brasil perder projetos importantes de construção de data centers para outros países, como México e Argentina.

“Vivemos ainda uma dificuldade estrutural muito grande. Há muitos incentivos para a geração distribuída que desequilibram as fontes de energia e criam ineficiência no setor elétrico. Isso tem causado muitos problemas no mercado”, diz Ricotta, em entrevista ao NeoFeed.

Segundo o executivo, falta no Brasil uma maior concepção das diferenças das fontes de energia renováveis para explicar esse desequilíbrio. A solar, beneficiada pelos incentivos federais para instalação de placas solares que formam o sistema de geração distribuída, registra um pico durante o dia e vai a zero durante a noite.

No caso da eólica, o modelo é mais constante durante o dia e, à noite, quando há pico na demanda de energia elétrica, a produção aumenta 22%. “E com investimentos só na energia solar, a partir de subsídios federais, a conta não fecha”, afirma.

No caso dos juros, o impacto tem gerado atrasos nos projetos, pelo alto custo do capital a partir da necessidade de financiamentos. Nesse sentido, a Vestas conseguiu equalizar o problema com a realização de projetos na Argentina e no Chile.

“Isso equilibrou a receita da Vestas na América Latina em 2025. Enquanto o Brasil estava parado, a gente avançou na região”, explica. A constatação da dificuldade de expansão no Brasil é que, no fim de 2025, um projeto destravou o setor, mas foi o único grande contrato celebrado em três anos.

A Vestas anunciou um contrato de R$ 5 bilhões com a Casa dos Ventos para a construção do parque eólico Dom Inocêncio, de 828 megawatts (MW), no Piauí. Além de colocar de pé o empreendimento, a companhia também será responsável pela manutenção por 25 anos.

Ricotta reconhece, no entanto, que esse foi apenas um ‘sopro’ para a companhia no país e que ainda há um longo caminho para mudar a trajetória de retração do segmento eólico dos últimos anos.

“Esse foi o maior anúncio feito pelo setor desde 2023. O lado positivo é que tínhamos um backlog muito bom. Como nosso ciclo é a cada dois anos, a gente continuou a produção. Mas se esse cenário se mantivesse por mais tempo, ia ser difícil manter a cadeia produtiva atual”, afirma o CEO da Vestas.

“Depois de tanto tempo, um contrato deste tamanho ajudou muito para manter a receita no Brasil. Quero acreditar que isso vai dar um novo sinal para o mercado, já que o país tem hoje um dos maiores fatores de capacidade do mundo”, completa.

O projeto começa a ser construído ainda em janeiro deste ano e vai até o segundo trimestre de 2028. A perspectiva é de gerar 8,5 mil empregos neste período. A perspectiva é que o parque eólico no Piauí garanta o equivalente ao volume de energia para dois milhões de residências.

“A Casa dos Ventos tem estudos para saber justamente onde vai ter menos curtailment, e isso entra na avaliação do local para a construção do projeto.” Os equipamentos serão construídos na fábrica da Vestas, no Ceará.

Plano Nacional de Data Centers em risco

Mas o fato é que há risco real de o Brasil seguir perdendo espaço, na América Latina, para futuros projetos de data centers de inteligência artificial (IA). Recentemente, a OpenAI anunciou investimentos de até US$ 25 bilhões para construir megaequipamentos na Argentina.

“Não podemos perder a oportunidade de, em vez de exportar energia, passar a exportar dados, bits. O Brasil poderia processar todas essas informações e mandar para o mundo. Mas temos visto atração de investidores para outros países da América Latina”, afirma Ricotta.

O tamanho do problema fica mais evidente quando se observa que o Plano Nacional de Data Centers pretende atrair R$ 2 trilhões de investimentos no Brasil em uma década. O Brasil hoje tem 195 data centers, sendo 57 em São Paulo, segundo o Data Center Map. E a energia é justamente o maior insumo desses equipamentos.

Medida provisória publicada em setembro pelo governo federal garante isenção de impostos de importação para produtos não fabricados no Brasil, além de outros tributos. Só que, sem mudanças para garantir um custo mais justo da fonte energética, parte do plano pode ficar só no papel.

E é justamente esse fator que pode representar um olhar maior dos grandes investidores para outros países da região. Chile, por exemplo, tem 66 data centers; México, 62; Argentina, 43, Colômbia, 41; Bolívia, 5.

“Para a Vestas, na América Latina, o cenário é positivo. No Brasil, é preciso fazer essas mudanças no setor. E eu espero que o governo não deixe de fazer as mudanças necessárias pelo fato de estarmos em um ano eleitoral”, aponta o CEO. No cenário latino-americano, ele enxerga projetos na Argentina, Peru e México.

Mas, segundo o executivo da Vestas, enquanto permanecer o percentual de 75% de subsídios para a geração distribuída, em prejuízo às empresas que atuam no setor eólico, a geração de energia por fontes sustentáveis no Brasil seguirá desregulada.

“O Brasil pode atrair investidores, mas é importante que haja esse arcabouço regulatório que reduza o curtailment. Houve algumas mudanças, mas a gente não resolveu o problema-chave.”

Enquanto novos projetos não surgem no Brasil, a Vestas tem ampliado a participação na divisão de prestação de serviços dos parques eólicos existentes. Hoje a companhia é responsável pela administração do equivalente a 12 gigawatts (GW) de energia.

Há cinco anos, esse número era de 1,6 GW. A área da companhia foi a que mais cresceu, em termos de faturamento. A companhia não revela a receita por país nem por continente. O Brasil, no entanto, está entre os cinco maiores mercados da Vestas no mundo.

“Crescemos quase dez vezes ao longo desses anos em contratos de operação e manutenção. Além da construção, a gente fecha o contrato para cuidar do parque eólico por 25 anos. E não só necessariamente dos que a gente ergueu”, afirma Ricotta.

Entre janeiro e setembro de 2025, a Vestas reportou receita líquida de € 12,5 bilhões, alta de 12,53% sobre a mesma base do ano anterior, quando alcançou € 11,15 bilhões.

No acumulado de 12 meses, as ações da Vestas na bolsa de Copenhague registram valorização de 83%. A companhia está avaliada em US$ 28,7 bilhões.