Boston e Cambridge (EUA) - Não foram apenas as temperaturas negativas que marcaram presença neste fim de semana em Boston e Cambridge, nos EUA, durante a 12ª Brazil Conference. Mais de mil inscritos acompanharam in loco o evento, realizado nas dependências do MIT e da Harvard University.
Organizada por estudantes brasilieros das duas instituições e de outras 65 universidades americanas, a conferência reuniu mais de 60 painelistas – de Mansueto Almeida, Cristovam Buarque e Bernard Appy ao lutador de MMA Charles do Bronx, a cantora Vanessa da Mata e o pentacampeão Cafu.
A partir dessa programação, tradicionalmente diversa, assim como a série de conselhos aos presentes, dois temas dominaram as discussões: as eleições de 2026 e a inteligência artificial. E, como de costume, os debates traçaram paralelos entre o que acontece no Brasil e, principalmente, nos Estados Unidos.
Confira abaixo alguns dos destaques da Brazil Conference 2026:
Calcificação e “swing voters”
PhD em Ciência Política e sócio-fundador do instituto de pesquias Quaest, Felipe Nunes ressaltou que as eleições brasileiras estão cada vez mais parecidas com os pleitos americanos, onde “todo mundo sabe como a Califórnia e o Texas vão voltar”.
Segundo ele, na versão tupiniquim, levando-se em conta os últimos ciclos eleitorais, 70% dos eleitores da região Nordeste votaram em candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), enquanto cerca de 65% dos votos das regiões Sul e Centro-Oeste tiveram como destino o candidato antipetista mais forte.
“Isso está construindo o que eu chamo de uma calcificação no eleitorado brasileiro, o que faz com que a geografia eleitoral importante fique naqueles espaços que os americanos chamam de swing voters”, afirmou.
Nunes “elegeu”, então, quais serão os CEPs que podem ser o fiel da balança nas eleições desse ano: São Paulo, região metropolitana de Belo Horizonte, Baixada Fluminense e, no Nordeste, a região de Camaçari. “No fundo, olhando para essas regiões, vamos entender para onde as coisas vão caminhar.”
Da polarização aos invisíveis
Quem também endereçou esse cenário foi Iracema Rezende, diretora da I.R. Pesquisas, para quem a caminho a ser seguido para vencer o pleito desse ano será justamente ir além da polarização extrema e crescente que tem marcado as discussões no País nos últimos anos.
“Vai ser uma guerra de rejeição”, afirmou Rezende. “E acho que quem irá ganhar é quem conseguir envolver, chamar e pegar o pulso daquele eleitor indeciso, o desengajado. E os invisíveis que querem mudança”.
A IA no centro da eleição. Para o bem e para o mal
Marketeiro por trás das campanhas de Jair Bolsonaro, em 2022, e do prefeito Ricardo Nunes, de São Paulo, em 2024, Duda Lima, por sua vez, destacou que a inteligência artificial (IA) terá um papel fundamental no Brasil em 2026, especialmente na aproximação com esse eleitor.
“Na minha avaliação, o que vai acontecer, é um grande salto como ocorreu nos EUA, com a rede social, nas eleições do (Barack) Obama”, afirmou. “É o que eu vejo agora no mundo, no marketing eleitoral, começando pelo Brasil.”
Em contrapartida, ele destacou que o rápido avanço e a relevância da IA no processo eleitoral deverão ser acompanhados, necessariamente, por ferramentas que minimizem os riscos embutidos, na outra ponta, a partir do uso dessa tecnologia – em particular, na produção e disseminação de fake News.
“Vai ser preciso ter um software de IA justamente para identificar se aquilo é ou não IA. E numa velocidade rápida”, disse. “Então, se conseguirmos um mecanismo para barrar isso, vamos tirar o incentivo de quem vai jogar uma ficção para as pessoas começarem a votar numa ficção.”
Cambridge Analytica versão 2026?
Ex-vice-presidente de produto e desenvolvimento de IA e Machine Learning da Meta e do Google Deepmind, Mat Velloso foi mais um nome a apontar o mau uso da IA como um risco para o processo eleitoral de 2026 no Brasil. E para reforçar esse ponto, ele fez referência um caso recente nos EUA.
“Eu estou com medo de manipulação nas eleições. Tem empresário que vai ficar rico vendendo a democracia brasileira”, disse Velloso. “O que vocês viram com o caso da Cambridge Analytica não é nada.”
De volta a 1.500?
Velloso também ressaltou que essa facilidade de manipular a população é uma questão de soberania, e não a criação de modelos nacionais de linguagem nesse espaço. E que o Brasil, seja nas eleições ou em um espectro mais amplo, corre grandes riscos sob os efeitos dessa onda da inteligência artificial.
“Sempre fui muito entusiasta da IA. Agora, isso está começando a ser substituído por medo”, disse. “Porque o Brasil não está nem de longe preparado e não tem uma estratégia. E isso começa na camada política. Não acho que os políticos brasileiros sejam qualificados para o que vamos enfrentar.”
Ele citou que a China, por exemplo, tem planos de 10, 15, 50, 100 anos em preparação para esse futuro cada vez mais guiado pela IA, que envolvem, entre outras frentes, o aumento da sua capacidade energética. Enquanto no Brasil, a polarização ofusca os temas que, de fato, deveriam ser discutidos.
“O que me dá desespero é que vamos ver esses países decolando 100 anos em cinco. Vai piscar e, de repente, estamos de volta a 1.500, onde você tem os colonizadores e nós somos a selva”, disse. “Então, procurem políticos qualificados. Essa vai ser a última chance desse país virar primeiro mundo.”
Convocações
Em uma conexão com a fala de Velloso, Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer, ressaltou o que falta para que o Brasil produza mais exemplos de empresas como a fabricante de aeronaves, capazes de fazer frente às suas rivais em todo mundo.
“O que falta é continuidade. É talvez uma ambição tecnológica dos líderes do setor público e privado que pensem em décadas e não em ciclos curtos”, afirmou. Ele aproveitou para fazer uma convocação aos estudantes presentes ao evento.
“Vocês, que estão tendo oportunidades de estudar nessas ilhas de excelência, podem ser esses líderes do futuro que vão ajudar a construir essa visão de longo prazo para promover o desenvolvimento tecnológico do Brasil em setores estratégicos, assim como foi na aviação”, complementou.
Na mesma linha, mas em seu “quadrado”, o marketeiro Duda Lima fez um apelo à plateia: “Sei que aqui tem muita porta, muita janela pra vocês”, disse. “Mas olhem a política com carinho. O Brasil precisa de mentes, de cérebros e de pessoas como vocês. Por favor, entrem para a política.”