Com a inauguração na sexta-feira, 29 de agosto, do Centro de Tecnologia e Inovação Agroindustrial, o Agripark, na cidade mineira de Montes Claros, a Acelen Renováveis reforça sua aposta no chamado combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) – a opção do biocombustível ao querosene que será incorporada paulatinamente pela aviação comercial.

Com presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na inauguração, o Agripark marca o início das iniciativas estratégicas da empresa para o desenvolvimento da cadeia de valor da macaúba, planta adaptada ao clima semiárido e cujo óleo extraído será utilizado para a fabricação do biocombustível de SAF.

O local vai concentrar estudo genético, cultivo e processamento da macaúba, capaz de gerar 1 bilhão de litros de SAF/ano a partir de 2028, e também para o desenvolvimento de diesel verde (HVO), a partir de óleo vegetal e gordura animal não comestível.

Com capacidade de germinar 1,7 milhão de sementes por mês e produzir 10,5 milhões de mudas por ano, o Agripark – que tem R$ 258 milhões financiados pelo BNDES e cujo projeto foi incluído no Novo PAC do governo federal é parte dos US$ 3 bilhões previstos pela Acelen para sua primeira unidade integrada de produção de biocombustíveis.

Além do cultivo de 180 mil hectares em Minas Gerais e na Bahia, o projeto inclui a primeira biorrefinaria da Acelen em São Francisco do Conde (BA). Cerca de 20% das plantações do projeto serão compostas por parcerias com a agricultura familiar e pequenos produtores.

“A Macaúba é considerada a matéria-prima mais eficiente em termos de custo, e a tecnologia industrial utilizada pela Acelen para produzir SAF será a mais competitiva do mundo”, afirma ao NeoFeed Luiz de Mendonça, CEO da Acelen Renováveis, empresa de energia do fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos.

“A empresa possui tecnologia própria e patenteada que aumenta a taxa de germinação da macaúba de 3%, na natureza, para cerca de 80%, não temos dúvida de que a planta será uma grande commodity no setor de biocombustíveis”, complementa.

A aposta da Acelen na macaúba se justifica pelo potencial da planta. Enquanto o óleo de soja usado para produzir SAF tem uma produtividade de 500 litros por hectare plantado, com a macaúba essa relação é de cinco mil litros por hectare.

Essa vantagem se estende em relação às outras opções de matérias-primas renováveis para a produção de SAF que estão sendo desenvolvidas no País. A lista é extensa e inclui bagaço de cana-de açúcar, óleo de cozinha usado, gordura animal, palmeira de dendê, eucalipto, soja, milho, agave (planta usada na produção de tequila) e até lodo de esgoto.

Mercado potencial

A expectativa é que o mercado de SAF movimente globalmente US$ 400 bilhões por ano, sendo US$ 30 bilhões no Brasil, quando estiver consolidado.

Ele começa a ganhar forma a partir de 2027, quando tem início o aumento gradual da mistura obrigatória de SAF ao querosene em todos os voos internacionais, até a possível substituição completa do combustível fóssil na aviação, em 2050.

Além da grande demanda no médio prazo - apenas 0,3% do combustível de aviação consumido globalmente por ano tem características sustentáveis -, outros fatores levaram num primeiro momento várias empresas a tentarem colocar de pé projetos de SAF no País.

Um deles foi uma norma a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI, na sigla em inglês), agência da ONU responsável pelo desenvolvimento do setor, que proíbe a produção dos biocombustíveis feitos a partir de insumos ligados ao desmatamento.

Como o Brasil tem aproximadamente 40 milhões de hectares de terras degradadas, leva uma nítida vantagem em relação a muitos países, incluindo a expertise nacional em toda a cadeia de produção de biocombustíveis, como do etanol e do biodiesel.

Além da Acelen, outro grande projeto já começou a ganhar forma. Na semana passada, Petrobras deu início ao processo de contratação para construir a primeira planta dedicada à produção de BioQAV (ou SBC, sigla em inglês de Componente Sintético da Mistura para produção de SAF) e de diesel renovável (HVO), a ser instalada na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP).

O projeto prevê capacidade de processamento de cerca 950 mil toneladas por ano de matérias-primas de origem vegetal e gordura animal, gerando uma capacidade de produção de até 16 mil barris diários de combustíveis renováveis (BioQAV e HVO).

Na ponta do lápis, porém, está evidente que o mercado de SAF ainda está patinando na largada. Muitos projetos ainda estão no papel, ou com previsão de se consolidarem num prazo maior do que o inicialmente estipulado.

Filipe Bonaldo, head da consultoria A&M Infra no Brasil, alinha vários argumentos para justificar o cuidado das empresas em investir pesado no biocombustível de aviação.

A questão do custo de produção – ainda em torno de quatro vezes o do querosene, com exceção da macaúba, em cerca de 60% – e a baixa demanda inicial estão levando empresas a revisar grandes projetos de SAF no País, após uma euforia inicial.

“Antes, a expectativa do mercado era de que a SAF seria um substituto do querosene, ou seja, todos os avisões seriam movidos a SAF, só que pelo menos nos próximos dez anos é pouco provável ocorrer uma inversão tão radical no consumo de aviação”, afirma.

Essa reversão da expectativa de adoção em larga escala foi um duro golpe nos projetos iniciais, que previam plantas com grande produção, na casa dos bilhões de reais. Segundo Bonaldo, com a SAF adicionando aos poucos o querosene nos tanques dos aviões, o mercado ficou menor, o que exige projetos menores e mais localizados, perto de companhias aéreas para atender esse pequeno percentual da mistura da SAF ao querosene.

“Para fazer SAF em escala ficou mais difícil, o empreendedor precisa vender de forma antecipada a produção de vários anos para bancar o financiamento”, acrescenta, confirmando que, na prática, os projetos dentro e fora do País têm essa premissa.

A Acelen, por exemplo, já fechou contratos de longo prazo, entre cinco e sete anos, para mais de 80% da produção de SAF. Se a primeira refinaria for bem-sucedida, a empresa planeja construir outras cinco plantas.

Outros fatores ligados à dinâmica de mercado acabaram impactando nessa reversão de expectativa dos projetos de SAF. A decisão do presidente americano Donald Trump de reverter a política de incentivos de transição energética do antecessor, Joe Biden, foi um deles – a SAF ainda tem os EUA como maior produtor mundial, 10% do total de 1,3 bilhão de litros.

Plantação de macaúba na Bahia

Acelen Agripark, em Montes Claros (MG)

Refinaria da Petobras em Cubatão: produção de SAF

As opções do agronegócio no País também acabaram jogando contra a SAF, pelo menos no curto prazo.

“Os mercados de biodiesel e de etanol de milho estão explodindo no Brasil porque é uma demanda dada –o percentual obrigatório de biodiesel no diesel subiu, então a procura vai dobrar a produção do biodiesel nos próximos dez anos”, acrescenta Bonaldo, lembrando que o etanol de milho segue mesma tendência.

Esse salto de outros biocombustíveis levou várias empresas a colocarem projetos de SAF em compasso de espera. A Be8 é uma delas. A empresa gaúcha desenvolve no Paraguai o projeto Omega Green, com investimento previsto de US$ 1 bilhão. O objetivo é iniciar a produção de SAF, diesel verde (HVO), GLP verde e green nafta – insumo utilizado na indústria química para a produção de plástico verde, a partir de 2028.

Cautelosa, a empresa está negociando contratos de longo prazo para fornecimento do SAF em função da característica global desse mercado. Como o projeto prevê uma grande biorrefinaria, que leva mais tempo para ficar pronta do que uma planta de etanol ou biodiesel (de 3 a 5 anos), além de exigir investimento muito maior, a segurança futura e previsibilidade são fundamentais para começar o projeto.

Camilo Adas, diretor de Transição Energética e Relações Institucionais da Be8, afirma que a transição energética enfrenta o desafio clássico da introdução de tecnologias substitutivas em mercados dominados por soluções consolidadas, como o de querosene fóssil.

“No caso do SAF, os projetos ainda operam em um cenário onde os investimentos não foram amortizados e a escala produtiva é incipiente, dependendo do estabelecido em regulação setorial”, afirma. “Quando essa demanda se confirmar, os investimentos se viabilizarão dentro de prazos adequados.”

Enquanto isso, a Be8 anunciou no mês passado o direcionamento de R$ 150 milhões para melhorias operacionais e de produtividade de biodiesel para atender a demanda com aumento da mistura ao diesel, de 14% para 15%, em vigor desde 1º de agosto – a empresa é líder no mercado de biodiesel no País.

A Be8 também avançou na construção de uma fábrica de etanol a partir do uso de cereais, em Passo Fundo (RS), que deve ficar pronta no fim de 2026. Os investimentos da planta, que está em construção desde 2023, devem chegar a R$ 1,5 bilhão.

O recado da Be8, e de outras empresas, é que o mercado de SAF no País terá de esperar para decolar de vez.