A Saks Global, grupo controlador das principais lojas de departamento de luxo dos EUA, entrou com pedido de recuperação judicial (Chapter 11) nesta quarta-feira, 14 de janeiro, pouco mais de um ano depois de consolidar as marcas Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman em uma única estrutura.

A crise é fruto da desaceleração do mercado de luxo desde 2023 e que se tornou um problema de liquidez quando o grupo comprou a Neiman Marcus por cerca de US$ 2,7 bilhões em 2024, secando o caixa e travando a relação com fornecedores.

Na petição ao tribunal, a Saks Global estimou ativos e passivos em uma faixa ampla, entre US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões, e disse ter de 10.001 a 25.000 credores. Entre os credores sem garantia aparecem algumas das maiores casas de luxo do mundo, como Chanel (US$136 milhões), Kering (US$ 60 milhões) e LVMH (US$ 26 milhões).

A empresa tenta evitar que o processo vire um desmonte imediato. Para seguir operando durante a reestruturação, anunciou um pacote de financiamento de US$ 1,75 bilhão, com um empréstimo “debtor-in-possession” (DIP) de US$ 1 bilhão, além de linhas e compromissos adicionais ligados a credores e estruturas garantidas. A ideia é seguir operando enquanto tenta reorganizar a estrutura financeira.

A promessa ao mercado é usar essa liquidez para estabilizar capital de giro — e, principalmente, reabrir o canal de abastecimento com fornecedores, depois de um período em que atrasos de pagamento passaram a virar um problema operacional, não apenas contábil.

Com o pedido de Chapter 11 também veio uma troca de comando. Geoffroy van Raemdonck, executivo associado à Neiman Marcus e chamado para conduzir o processo, assume como CEO num momento em que a companhia precisa convencer três públicos ao mesmo tempo: o juiz e os credores (de que a estrutura é viável), as marcas de luxo (de que vale voltar a entregar mercadoria) e o consumidor (de que a experiência na loja ainda tem relevância num mundo em que o luxo acelera vendas direto ao consumidor).

O caso mostra bem o novo momento do mercado de luxo, em que aposta em escala não compensa com a desaceleração das vendas. O problema começou com a ambição de criar escala no topo do varejo, reunindo duas redes historicamente rivais (Saks e Neiman) sob o mesmo guarda-chuva, trazendo uma carga relevante de endividamento. Segundo a Reuters, o acordo foi apoiado por investidores como Amazon e Salesforce.

No entanto, o ciclo do luxo virou, e a demanda não veio. Desde 2023, o setor vem em desaceleração, com consumidores mais seletivos e menos impulso para compras aspiracionais. A consequência é que os números do grupo perderam sustentação antes que as sinergias prometidas pudessem aparecer.

Do lado do balanço, o curto-circuito ficou explícito no fim de 2025. A Saks Global perdeu um pagamento em torno de US$ 100 milhões em dezembro. A partir daí, o que poderia ter sido uma negociação de refinanciamento virou uma corrida para manter o básico: estoque, prazos e caixa.

Em varejo, o capital de giro costuma ser o primeiro termômetro da doença — e também o primeiro amplificador. Quando o fornecedor reduz remessas ou encurta prazo, a loja sente na ponta: menos variedade, menos lançamentos, menos giro. Foi o que aconteceu com a Saks Global.

A empresa atrasou pagamentos a fornecedores e passou a receber produtos quase um mês depois dos rivais, o que reduz a chance de vender no preço cheio. Ao longo do último ano, fornecedores foram reduzindo pedidos e, em janeiro, mais de 100 marcas já tinham parado de embarcar produtos para a companhia.

Segundo a Reuters, no texto do pedido de Chapter 11, a Saks Global diz que “lutou para pagar fornecedores”, que passaram a reter estoque, e associa as prateleiras mais vazias à perda de vendas para concorrentes.

A recuperação judicial abre espaço para renegociar essa arquitetura: dívida, contratos, estrutura de lojas e custos. O mercado espera que a empresa, com um portfólio que inclui dezenas de unidades das bandeiras principais e outlets, encolha e tente ficar mais rentável. O case deverá ser acompanhado pelo mercado de luxo como o futuro do segmento.