O dia 1º de maio de 1994 é lembrado por muita gente no Brasil como a data do acidente fatal do ídolo Ayrton Senna, que bateu com sua Williams a mais de 300 km/h no circuito de Ímola, na Itália, e parou o País.

Mas, para Thomas Law, que tinha 12 anos naquela época, a lembrança é mais pessoal. Naquela tarde de domingo, ele entrou no campo do Morumbi de mãos dadas com Muller e Zetti, craques do São Paulo da época. Naquele dia, o tricolor foi derrotado por 3 a 2 pelo Palmeiras.

Hoje, aos 44 anos, Law está à frente do Ibrachina Futebol Clube, clube-empresa fundado por ele e pelo seu irmão, Henrique Law, e que virou a sensação da atual Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal torneio brasileiro para jovens atletas do Brasil.

"Sou um apaixonado por futebol desde criança. Tenho essa lembrança muito marcante do dia em que entrei em campo com os meus ídolos do São Paulo. Mas hoje estou muito concentrado no desenvolvimento do Ibrachina. Muito feliz com que nossos meninos estão fazendo", diz Law, em entrevista ao NeoFeed.

O time fez história ao chegar à semifinal da Copinha, sua melhor posição desde que começou a participar do torneio, há cinco anos. Na competição, a equipe eliminou Atlético-MG, Santo André, Internacional e Palmeiras. Só parou justamente diante do time do coração de Law.

Na noite de quinta-feira, 22 de janeiro, no Estádio do Morumbi, o São Paulo venceu o Ibrachina por 4 a 1. Agora, o tricolor paulista enfrenta o Cruzeiro na final, no domingo, 25 de janeiro, aniversário da cidade, às 11h, na Arena Mercado Livre Pacaembu.

O clube surgiu em 2020, como um braço esportivo do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), criado dois anos antes para promover justamente a conexão entre empresários dos dois países e realizar intercâmbios em vários seguimentos.

“O instituto foi criado a partir de conversas com professores da USP, durante meu mestrado em direito internacional. E muita gente dizia que eu deveria ter uma associação que pudesse debater e congregar o Brasil e a China”, conta.

E, nesse sentido, o futebol surgiu como uma oportunidade de desenvolver projetos sociais voltados para jovens da comunidade de Heliópolis, na Zona Sul, e de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo. Hoje são 120 adolescentes que participam das atividades esportivas organizadas pelo instituto e que atuam do sub-15 ao sub-20, também pensando em alto rendimento.

Mas, no caso do clube, não está em jogo apenas uma questão de paixão futebolística ou de ação social. O clube é um negócio. E como toda empresa, precisa dar lucro. O objetivo é formar cidadãos e atletas, mas, acima de tudo, gerar receita.

O modelo de negócios do time consiste na receita com aluguel de eventos, patrocínios na camisa e ao projeto social, além, claro, do formato principal, que é de garantir ao clube uma participação em dinheiro na venda de alguma jovem promessa.

E já há uma grande perspectiva de início de retorno. Riquelme Fillipi, que hoje tem 19 anos, é uma dos principais apostas do momento. Ele começou com 15 anos no Ibrachina e, de cara, já chamou a atenção do Palmeiras, para onde se transferiu, em 2021.

O atleta subiu recentemente para o time principal e é visto como uma joia do clube paulista. Já há propostas do exterior. E é aí que o Ibrachina entra. O clube comandado por Leila Pereira rejeitou, nos últimos dias, uma proposta do Zenit, da Rússia, de € 15 milhões. O fato é que, assim que for vendido, seja qual for o valor, o Ibrachina receberá 20%.

Outro que já deu certo foi o meio-campista Kauã Oliveira, de 22 anos, que jogou a Copinha em 2024 pelo Ibrachina e foi, por empréstimo, para o Sporting de Lisboa. Em 2025, o clube europeu ativou uma cláusula de opção de compra. Os portugueses pagaram € 500 mil.

“A Copinha tem um impacto muito positivo para os atletas em formação. É uma grande janela para transferência aos principais clubes do Brasil e do exterior”, diz. O Ibrachina tem o selo de “clube formador”, concedido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O clube já tem a sua própria casa, diferentemente de muitos outros grandes times de expressão nacional. Em 2020, Law conseguiu comprar uma área de 12 mil metros quadrados (m²) no bairro da Mooca, na Zona Leste, onde ele construiu a Arena Ibrachina, com toda infraestrutura para também servir de centro de treinamento.

"Comprei de uma empresa que estava em recuperação judicial. Foi uma grande oportunidade que surgiu. E consegui montar um campo com as dimensões oficiais da Fifa. Hoje o patrimônio é nosso", conta Law. Ele não revelou de qual empresa comprou o terreno.

Ibrachina Arena, que ocupa área de 12 mil m² na Mooca, na Zona Leste de São Paulo

Vista aérea da arena do clube, que tem infraestrutura completa e campo com dimensões da Fifa

Na Copinha deste ano, Ibrachina FC venceu o Palmeiras e chegou à semifinal da competição

Sem relação com passado do pai

O presidente do Ibrachina é filho de Law Kin Chong, que nasceu em Hong Kong e se naturalizou brasileiro, e que construiu um império imobiliário e comercial na região da Rua 25 de Março, em São Paulo.

No início dos anos 2000, Chong foi apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público como suspeito de prática de contrabando e lavagem de dinheiro. Chegou a ser alvo da CPI da Pirataria, da Câmara dos Deputados, em 2004, e preso.

Sem qualquer associação com aquele episódio, o presidente do Ibrachina até se incomoda quando surge alguma dúvida sobre esse período e garante que não há relação de sua iniciativa atual ao episódio do passado que marcou sua família.

O empresário, que é advogado e atua no ramo de locações de imóveis, nasceu em São Paulo, em 1981. Segundo Law, o Ibrachina é uma responsabilidade apenas dele e de seu irmão. Seu pai não tem qualquer participação nem no instituto nem no clube.

"Não dá para penalizar as outras gerações pelo que aconteceu no passado. Isso não é justo. Fazer essa associação é um desserviço às pessoas que querem fazer o bem para o Brasil. Um desserviço a um clube formador que atende aos requisitos da CBF", afirma.

Law não revela o faturamento do clube, mas diz que a empresa Ibrachina FC já começa a dar retorno. Ele garante, no entanto, não ter pressa em alcançar uma posição mais confortável em termos financeiros ao clube. "É um projeto de longo prazo. A gente vê os ativos, que são os meninos, saindo e entrando. A filosofia chinesa mostra que é importante ter planejamento, organização e pensamento no longo prazo", afirma.

Agora, ele acredita que o Ibrachina poderá lucrar com a venda, nos próximos meses, dos meninos que atuaram na Copinha deste ano. Mas não tem receio de que o time perca qualidade com o possível desmonte. "Vamos seguir formandos atletas. Virão novos craques. Esses meninos valem ouro." Literalmente.