Há pouco mais de um ano, o management da Viveo sentou à mesa com os credores da companhia para pedir um waiver. A alavancagem havia chegado a 4,28x no fechamento de 2024, e sem o acordo, a empresa tecnicamente teria quebrado os limites das debêntures. O combinado não foi simples: limite de 5 vezes (x) no primeiro trimestre de 2025, caindo progressivamente até 4,5x no fim do ano.
Passados 12 meses, a distribuidora de insumos hospitalares fechou 2025 com alavancagem de 3,97x (abaixo do piso acordado com os credores) e com uma geração de caixa livre de R$ 519 milhões, mais que o dobro dos R$ 206 milhões de 2024.
"Entregamos igual ou melhor do que o prometido. Isso nos dá o goodwill necessário para a próxima conversa", diz Frederico Oldani, CFO da Viveo, ao NeoFeed.
A próxima conversa com os credores está marcada para acontecer até o meio de 2026. A Viveo precisa renegociar e alongar o perfil de sua dívida. A partir deste ano, a companhia tem pouco mais de R$ 4 bilhões de endividamento. E o cronograma de amortização mostra que pouco mais de R$ 1 bilhão têm vencimento nos próximos meses.
Para cumprir, até aqui, o turnaround, a decisão da equipe liderada pelo CEO Leonardo Byrro foi parar de crescer e buscar qualidade da operação. Essa mudança de estratégia fez com que a receita líquida de 2025 ficasse praticamente estável em relação a 2024 - R$ 11,57 bilhões ante R$ 11,58 bilhões.
A Viveo saiu de contratos que considerava mal precificados, especialmente no segmento de hospitais e clínicas, que historicamente é o maior da companhia.
Essa limpeza de carteira custou alguma contração de volume no primeiro semestre, mas no quarto trimestre o segmento já voltou a crescer. "Não era um ano de foco em crescimento de receita. Era um ano de melhorar a qualidade dos contratos", diz o CFO.
O resultado dessa decisão está na melhoria das margens. O lucro bruto cresceu 6,3% no ano, com expansão de quase 1 ponto percentual de margem. O Ebitda ajustado chegou a R$ 706 milhões, uma alta de 8,3% sobre os R$ 652 milhões de 2024, com expansão de meio ponto de margem, para 6,1% (ao se isolar o quarto trimestre, o Ebitda cresceu 19,4% em relação ao mesmo período do ano anterior).
Mas o que sustenta esse resultado é a redução do ciclo de caixa da companhia (aqui, quanto menor melhor), que demonstra a saúde financeira e eficiência do negócio. A Viveo conseguiu reduzir do pico de 63 dias no quarto trimestre de 2023 para 44 dias no quarto trimestre de 2025.
De acordo com Oldani, isso foi possível ao reduzir prazos de recebimento com clientes, enxugar estoques e renegociar condições com fornecedores. Ele afirma que ainda há espaço para melhora no ciclo de caixa neste ano.
O lucro líquido de R$ 18,2 milhões em 2025 - pequeno em termos absolutos, mas simbólico como reversão do prejuízo de 2024 - fecha a narrativa do turnaround. O desafio para 2026 é converter esses números em condições melhores para alongar o endividamento.
Transição no comando
Os resultados de 2025 marcam também a troca no comando da Viveo. Byrro, que comandou a companhia por oito anos e liderou o processo de consolidação que levou a empresa de R$ 1 bilhão para mais de R$ 12 bilhões em receita, encerra seu ciclo nas próximas semanas.
O sucessor é André Clark, que assumiu no início de 2026 com um mandato de olhar para dentro e preparar o próximo ciclo de crescimento. "O André vem com o tipo de skill que a companhia precisa para esse próximo ciclo. É um cara muito focado em operação, em processo, em simplificação", diz o CFO.
A transição foi planejada com o conselho de administração e tem sido gradual. Byrro tem acompanhado Clark em visitas às operações e nas apresentações aos principais clientes e fornecedores, e deve permanecer até o final de março para concluir o processo de handover.
A agenda do novo CEO é de austeridade e melhoria contínua e com a tarefa de consolidar o que vem sendo construído.
Na bolsa de valores, a ação VVEO3 está praticamente estável, com queda de 0,74% no ano. Em 12 meses, o papel está em alta de 4,7%. O valor de mercado da Viveo é de R$ 435,2 milhões na B3.