A Volpe Capital, gestora de venture capital cujos sócios são André Maciel, Milena Oliveira, Gregory Reider e Gabriel Marcassa, fez o “first closing” de seu segundo fundo de venture capital, captando US$ 50 milhões, em um momento desafiante para a indústria de capital de risco no Brasil.

O alvo do segundo fundo é alcançar US$ 100 milhões, mesmo montante do primeiro fundo da gestora, que fez investimentos em 13 startups – e ainda tem capital para mais dois aportes.

“Lançamos o fundo basicamente com a base atual dos investidores. Esse endosso foi decisivo para a captação”, afirma André Maciel, sócio da Volpe Capital, com exclusividade ao NeoFeed.

O BTG Pactual, que já havia sido âncora do primeiro fundo da Volpe Capital, ancora o novo fundo. A novidade é a chegada da Desenvolve SP, a agência de fomento do governo do estado de São Paulo, que está investindo R$ 35 milhões, após uma chamada pública na qual a gestora foi a escolhida.

O primeiro fundo, que já investiu 70% do capital em startups como Caju, UOL Tech, Zippi e VTEX, está com um retorno entre 15% e 20% líquido em dólar, de acordo com Maciel. O impairment ratio (indicador que mede quanto do capital investido foi perdido ou desvalorizado) é de aproximadamente 16%, bem abaixo da média do mercado, que fica na casa dos 40%.

A gestora já saiu da CRMBonus na rodada que trouxe a Bond, firma de venture capital de Mary Meeker, para o captable da startup fundada por Alexandre Zolko. Maciel diz que foi um bom retorno, sem revelar os dados. A Sequoia, empresa de logística e transporte, faz parte do único write-off dessa safra.

O novo fundo deve seguir a mesma tese do primeiro, lançado em 2021, mas com foco mais intensivo em inteligência artificial. “Hoje, toda empresa que passa aqui precisa ter alguma estratégia de inteligência artificial. Não acreditamos mais em tecnologia competitiva sem uma aceleração clara via IA”, afirma Gregory Reider.

Os cheques devem ser um pouco maiores – antes ficavam na casa de US$ 5 milhões a US$ 10 milhões – e os investimentos focados em série A e B, empresas que são chamadas pela Volpe Capital de “early growth”, isto é, que já contam com um product market fit e estão começando a tracionar.

Por conta dos cheques maiores, a expectativa é que a Volpe Capital invista em menos startups em seu segundo fundo – algo em torno de 10 a 12 empresas.

“Vamos ser ainda mais concentrados para poder estar mais próximos dos fundadores e ter um foco ainda mais claro em early growth, onde a gente consegue reduzir risco e agregar mais valor”, diz Milena Oliveira.

O foco serão as startups no Brasil, que devem receber 50% dos recursos do novo fundo. O restante vai para países da América Latina, onde a Volpe Capital já estava investindo. No fundo 1, a gestora investiu na fintech Aplazo e na healthtech Welbe, ambas no México.

“O Brasil seguirá como o eixo central, mas vamos ampliar o radar para a América Latina, especialmente México e Colômbia, onde há empresas em estágio mais maduro de crescimento e valuations mais racionais”, afirma Gabriel Marcassa.

Modelos de negócios baseados em fintechs e SaaS devem receber mais atenção da gestora. Todos eles, no entanto, precisam ter uma camada de inteligência artificial.

Os sócios da Volpe Capital (da esq. à dir.): Gabriel Marcassa, Gregory Reider, Milena Oliveira e André Maciel,
Os sócios da Volpe Capital (da esq. à dir.): Gabriel Marcassa, Gregory Reider, Milena Oliveira e André Maciel,

A tese da gestora não é que o “software morreu”, como alguns analistas de Wall Street têm dito por conta da inteligência artificial. Para a Volpe Capital, esse discurso é um exagero típico de momentos de ruptura tecnológica.

“O que vai acontecer é que só vai sobreviver quem conseguir incorporar inteligência artificial no core do modelo de negócio”, afirma Reider.

Bom de investir, ruim de captar

A captação da Volpe Capital acontece em um momento que muitos gestores de venture capital dizem que é bom para investir – porque o mercado ficou mais racional com os valuations –, mas ruim de captar, por conta dos juros altos e de uma certa decepção de alguns investidores com os resultados da safra de 2020 e 2021.

Nesses dois anos, o mercado de venture capital viveu um período de euforia. Com juros baixos e muita liquidez, o Brasil virou um celeiro de unicórnios, como são chamadas as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

Mas os exageros da época cobraram um preço mais adiante. A mudança da maré levou ao que ficou conhecido como o inverno do venture capital. Os investimentos em startups diminuíram e ficou mais difícil captar para quem ficou sem recursos no fundo.

A Volpe Capital, cujo primeiro fundo foi levantado em 2021, no auge dessa euforia, diz que investiu 35% do fundo nos dois primeiros anos, quando a média das gestoras de venture capital é gastar ao menos o dobro nesse período.

“Isso protegeu muito o fundo. Não gastamos tudo de uma vez e conseguimos investir de forma mais agressiva em 2023, 2024 e 2025, quando os preços ficaram mais racionais”, afirma Maciel.

As “sequelas” desse período de euforia são claras: ficou muito mais difícil captar para novos fundos. Há mais de 40 gestoras de venture capital no mercado brasileiro captando recursos, segundo apurou o NeoFeed. Mas a maioria delas não tem conseguido levantar recursos ou tem fechado seus fundos abaixo da meta de captação.

Mesmo assim, gestoras com track record e tradição no mercado têm conseguido atrair investidores para seus novos fundos. São exemplos Astella, Canary, Valor Capital, OneVC e Big Bets. E, agora, a Volpe Capital.