Os sinais de que a operação da NeuralMed inspirava sérios cuidados vieram em junho de 2025. Na época, a startup chegou ao pior momento da sua história, iniciada em 2018, ao computar uma receita recorrente mensal abaixo de R$ 100 mil e uma carteira de apenas oito clientes.

Esses indicadores não condiziam com a tese da healthtech, cujo pitch, baseado no uso da inteligência artificial para trazer eficiência à cadeia de saúde, havia atraído US$ 7,7 milhões de nomes como Grupo Notre Dame Intermédica, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Kortex Ventures e GK Ventures.

“Estávamos criando tecnologias muito valiosas, mas eram só tecnologias. E não produtos focados no que uma companhia precisa fazer, que é resultado”, diz Anthony Eigier, cofundador e CEO da NeuralMed, ao NeoFeed. “Então, nós sentamos, fizemos um reset completo e recriamos a empresa.”

Após nove meses de gestação, o fruto desse projeto está nascendo oficialmente agora. A NeuralMed está sendo rebatizada como level. E, além de Eigier e de André Castilla, os fundadores da antiga operação, a nova companhia tem ainda Mariana Gaspers como sócia-fundadora.

Com passagens como CFO e CRO de empresas como Twilio, Hilab e Ascential, Gaspers ingressou na NeuralMed em setembro de 2024. E sua chegada foi um dos motores para essa mudança de logo e posicionamento.

“Eu vim muito com a pegada de go to market e de ajudar a entender a potência do que nós tínhamos na mão”, diz ela. “Mas era preciso transformar isso numa linguagem menos tech e mais pró negócio.”

Eigier diz que, até então, a startup discorria muito sobre visão computacional. Mas entendeu que era preciso vencer os tabus do mercado de saúde e falar do que realmente importava: no fim do dia, qualquer cliente, de um hospital a uma clínica, quer aumentar a receita ou reduzir custo.

“Nós tínhamos a cabeça muito geek, de querer fazer tudo”, afirma Eigier. “Conseguimos entender que 2% de todos os pacientes são quem geram ganhos de faturamento para os nossos clientes. E direcionamos todo o discurso para isso.”

Além da estruturação de times de venda, a companhia acrescentou outros elementos a essa conversa. Entre eles, a promessa de não receber um único centavo caso não entregasse as metas prometidas no prazo combinado entre as duas partes.

“Isso mudou totalmente a velocidade de venda”, afirma Gaspers. “Porque os clientes deixaram de nos ver somente como mais uma solução hypada de inteligência artificial no mercado.”

Traduzindo em números, a healthtech passou de uma média anterior de mais de 180 dias para efetivar uma venda para o índice atual de 30 a 60 dias. Já na ponta da implementação das suas ferramentas, o prazo agora está entre 45 e 60 dias, contra 6 meses a um ano antes dessa virada.

Essa implantação mais acelerada também passou pelo reempacotamento das ofertas, entregues no modelo de software como serviço. De uma série de soluções antes dispersas, para a consolidação em dois combos, batizados de Light, com acesso a menos recursos, e Full.

A proposta por trás das aplicações, porém, não mudou. Em resumo, a plataforma atua como uma camada de inteligência que conecta os mais diferentes sistemas e dados dos clientes – de prontuários eletrônicos até laudos e prescrições.

Entre outros recursos, a partir do cruzamento desses dados e de um batalhão de algoritmos de IA, é possível antecipar diagnósticos e apontar eventuais riscos para os pacientes que não foram identificados pelas equipes médicas, por exemplo, em um determinado exame realizado com outra finalidade.

neuralmed sócios
André Castilla (à esq.), Mariana Gaspers e Anthony Eigier, os sócio-fundadores da level

“Nossos algoritmos já fazem essas análises 350 vezes mais rápido que um ser humano e estamos chegando a 500 vezes”, diz Eigier. “Esse é o grande poder da IA. Para isso, seria preciso ter 400 enfermeiras, ultra treinadas, que não cansam, não se distraem e só trabalham o tempo todo.”

A plataforma cobre áreas como oncologia e doenças como asma, diabetes e hipertensão. E foi reforçada com recursos como agentes conversacionais no WhatsApp, que fazem a conexão com os pacientes, seja para marcar uma consulta ou alertar sobre a necessidade de realizar um determinado exame.

"O sonho de 100% das healthtechs"

Nessa transição, a startup também alcançou outro perfil de cliente: as farmacêuticas. O argumento? Um diagnóstico precoce, por exemplo, de um câncer, permite que essas empresas participem do tratamento desde o início, ampliando a chance de sobrevida dos pacientes e, ao mesmo tempo, suas vendas.

“As farmas sempre foram a ponta mais rica dessa história e o sonho de 100% das healthtechs”, diz Eigier. “Estávamos negociando há anos e conseguimos destravar isso nesses últimos meses.” Os primeiros contratos envolveram a Adium, do Uruguai, e uma companhia europeia, de nome não revelado.

Outros nomes embarcaram nessa repaginação. Dos 8 clientes, há pouco mais de 9 meses, a level nasce com uma carteira de 36 empresas. A relação inclui instituições como os hospitais Moinhos de Vento e Mãe de Deus, em Porto Alegre (RS), além da Santa Casa, também na capital gaúcha.

Nessa trilha, de uma receita anual recorrente (ARR, na sigla em inglês) de menos de R$ 1,2 milhão, a companhia saltou para uma base atual de R$ 5 milhões. E já tem contratado um volume adicional de R$ 10 milhões, com a projeção de turbinar esse número até o fim de 2026.

“Nós precisávamos ser honestos e abandonar o carrego do passado para realmente começar uma outra história”, diz Eigier. “E esses últimos meses provaram que essa tese faz sentido, tanto em termos de clientes como de faturamento. E que já somos, de verdade, uma nova empresa.”