Um imóvel tem uma disputa de posse, uma pendência ambiental ou uma dívida trabalhista. Em condições normais, problemas como esses podem afastar investidores. Em special situations, porém, são justamente essas situações fora do padrão que podem abrir espaço para operações com retornos mais elevados, desde que o preço compense os riscos envolvidos.

Não há uma definição única para o que cabe nesse universo. As estratégias podem passar por crédito estruturado, direitos creditórios em disputa judicial, empresas em estresse financeiro e financiamento de litígios. Em comum, estão operações que fogem do padrão e exigem do investidor conhecimento para avaliar riscos que vão além das projeções financeiras tradicionais.

“São situações que estão fora das condições normais de temperatura e pressão”, diz Alexandre Cruz, sócio e cofundador da JiveMauá, ao Wealth Point, programa do NeoFeed.

Para Guilherme Setoguchi, presidente da Associação Brasileira de Special Situations, essas operações costumam combinar ativos ilíquidos ou alternativos, algum tipo de risco jurídico e risco financeiro elevado. Em contrapartida, a expectativa é de um prêmio maior.

“Essa conjunção de fatores de risco elevado com risco jurídico faz com que esses ativos também tenham um retorno financeiro esperado bastante elevado”, afirma Setoguchi.

Na prática, uma das oportunidades aparece quando há um problema que impede que uma operação aconteça pelas vias tradicionais. Cruz usa como exemplo um imóvel que tenha uma questão ambiental, uma disputa jurídica ou de posse, ou cujo vendedor esteja em situação financeira estressada.

O investidor precisa avaliar se é possível adquirir aquele ativo mesmo diante dessas pendências e se o preço cobrado compensa os riscos que terá de assumir.

A mesma lógica aparece no crédito. Em um exemplo citado por Cruz de uma dívida contra uma companhia que conta com o aval de um empresário que possui uma fazenda, se a empresa não se recuperar e o pagamento não vier de sua própria atividade, o investidor pode, em tese, buscar a garantia.

Isso cria o que Cruz chama de uma diversificação dentro do próprio investimento: a dívida pode estar ligada, por exemplo, a uma empresa de varejo, enquanto a garantia está exposta a um ativo do agronegócio.

A complexidade dessas operações ajuda a explicar por que capital não é o único ingrediente. Setoguchi afirma que special situations exigem conhecimentos jurídico, financeiro e técnico. As casas especializadas podem, segundo ele, ajudar a “estruturar as operações, a gerir o ativo, a encontrar uma saída de liquidez para o ativo”.

A assimetria de informação também pode entrar nessa equação. Setoguchi cita situações em que o titular de um direito não consegue enxergar ou extrair sozinho seu valor, enquanto um gestor especializado consegue analisar aquele ativo e estruturar uma operação a partir dele. “É um mercado que exige muito conhecimento na gestão do ativo”, diz Setoguchi.

Esse conhecimento é especialmente importante porque o grau de proteção varia bastante de uma operação para outra. De um lado, estão investimentos que contam com garantias capazes de oferecer alguma proteção ao capital.

Do outro, o financiamento de litígios, em que o investidor pode perder 100% do valor aplicado caso a disputa não tenha o desfecho esperado. “Se der certo, você precisa ganhar várias vezes para justificar o risco que você está correndo”, afirma Cruz.

A conta também precisa considerar uma característica comum a esses ativos: a falta de liquidez. Setoguchi diz que o investidor deve ter capacidade de esperar a maturação da operação e estima que, dependendo da estratégia, o prazo possa ficar entre cinco e dez anos. Cruz complementa que, em portfólios que combinam diferentes categorias de special situations, a média está mais próxima a oito anos.

Quanto maior o prazo e o risco assumidos, maior precisa ser o prêmio para justificar o investimento. Em special situations, portanto, encontrar um problema é apenas o começo. O desafio é descobrir se o preço, as proteções e o retorno potencial compensam o risco de tentar resolvê-lo.