A Itaú Asset tem apostado em novas estratégias para crescer. E o mercado privado está no centro dessa decisão. Nos últimos quatro anos, a área passou de R$ 2 bilhões sob gestão para R$ 62 bilhões - um tamanho que levou a uma reestruturação e a um redesenho da gestora.
"É um mercado com enorme potencial, com crescimento acelerado no mundo todo e queremos estar na vanguarda desse segmento no Brasil”, diz Carlos Augusto Salamonde, CEO da Itaú Asset, ao NeoFeed.
Desde o fim do ano passado, a Itaú Asset, com R$ 1,2 trilhão sob gestão, foi dividida em quatro verticais. A asset core (indexados e líquidos), com cerca de R$ 800 bilhões; a multimesas (estratégias de retorno absoluto), com cerca de R$ 75 bilhõe; a solutions; e fund of funds, que desenha mandatos exclusivos com produtos da casa e de terceiros; além da recém-criada private markets.
A criação dessa área coincide com o fim de grande parte das restrições que a Itaú Asset tinha com a Kinea, gestora de investimentos alternativos criada em sociedade com Márcio Verri há quase 20 anos. Agora, a pista está livre para que a asset do Itaú possa atuar em segmentos que antes não entrava.
Para liderar essa vertical, a Itaú Asset trouxe, em outubro passado, Felipe Gottlieb, ex-sócio do BTG Pactual, onde passou quase 12 anos na área de capital privado. Sua missão é consolidar e expandir a plataforma de mercados privados.
“Esse mercado de alternativos cresce mais de 20% ao ano em vários mercados do mundo, inclusive no Brasil. É um negócio estratégico para nós para diversificar nossos produtos e não depender do cenário macroeconômico”, afirma Gottlieb, head de private markets da Itaú Asset.
Os investidores têm buscado cada vez mais estruturas descorrelacionadas do cenário macro e que agreguem uma boa relação de risco e retorno aos portfólios como investimento de mais longo prazo. Sendo um segmento de alta demanda.
Há alguns anos, no entanto, o Itaú não queria estar nessa ponta de investimentos alternativos diretamente e criou a Kinea em 2007 para ser o seu braço independente e de ativos alternativos no mercado - hoje a gestora detém R$ 160 bilhões. De modo que havia um pacto de não competitividade entre as casas no segmento.
Mas, com a evolução do mercado, tanto a Kinea entrou mais em ativos líquidos, que era a especialidade do Itaú, como o Itaú foi entrando em novos alternativos que foram sendo criados. Até que recentemente esse acordo foi revisto e as gestoras concordaram em competir.
“Antes havia uma restrição. Agora, a gente pode fazer e estamos fazendo. A Itaú Asset tem uma governança independente e pode desenvolver essas estratégias”, diz Gottlieb.
Isso dá agora liberdade para o Itaú aumentar a sua prateleira em alternativos e ser conhecida como uma casa dessa gestão mais sofisticada.
A principal frente da área, no nomento, é o crédito estruturado, que já tem cerca de R$ 50 bilhões sob gestão. Em seguida vem a estratégia de capital solutions, com aproximadamente R$ 11 bilhões. Já a frente de ativos reais — que inclui imobiliário e infraestrutura — foi criada no semestre passado e soma cerca de R$ 1 bilhão.
A operação conta hoje com uma equipe de cerca de 40 profissionais dedicados exclusivamente a private markets, com especialistas em setores como agro, infraestrutura, imobiliário e legal claims.
Segundo Gottlieb, a estrutura de governança e análise robusta é fundamental em um mercado em que as operações são mais complexas e personalizadas.
Crescimento e parcerias
O crescimento da área ocorreu majoritariamente de forma orgânica, com o Itaú trazendo especialistas e lançando fundos. Mas em algumas estratégias foram firmadas parcerias com assets especializadas.
Entre os parceiros estão a Algarve, especializada em legal claims, e a AMG (Almagestum Capital), focada em estratégias de special situations.
“Eu diria que dos R$ 62 bilhões, mais de 90% são de gestão própria e isso é suficiente para crescer. Mas continuamos de olho em parcerias estratégicas de forma seletiva”, diz Gottlieb.
Para este ano estão previstos o lançamento de dois fundos. Um de capital solutions, com estratégia para estruturar soluções de financiamento para empresas com retornos potencialmente mais elevados. E outro em ativos reais, em imobiliário ou infraestrutura, e até potencialmente nos dois.
No crédito estruturado, por sua vez, o crescimento deve ocorrer principalmente por meio da expansão dos fundos já existentes.
E há um grande apetite do mercado para essas estratégias para dar suporte ao crescimento. Segundo a gestora, hoje, a base de investidores da área é formada principalmente por clientes de wealth management e investidores institucionais, incluindo fundos de pensão, que têm buscado alternativas descorrelacionadas.
“É um mercado privado, com riscos diferentes, não é para qualquer investidor. Por isso existe uma preocupação muito grande em casar o produto com o perfil adequado. Mas o mercado é enorme e com grande potencial”, afirma Gottlieb.
A estratégia também tem atraído o interesse de investidores internacionais de olho em oportunidades no país. Ou seja, é estratégico para a gestora no seu projeto de internacionalização e alcançar o bolso estrangeiro.
“A gente tem falado com muitos investidores estrangeiros, que têm bastante interesse em private markets e no Brasil. É uma classe que lá fora está muito em alta, e investir aqui está fora do risco Brasil pelo perfil do produto”, diz Gottlieb.
Mercado de R$ 2 tri no Brasil
Segundo estimativas da própria Itaú Asset, o mercado brasileiro de ativos alternativos — incluindo crédito, private equity, venture capital, infraestrutura e imobiliário — soma cerca de R$ 2 trilhões, dos quais R$ 1,3 trilhão estão em crédito. E cresce bem acima dos demais, em cerca de 20% ao ano.
Apesar da expansão acelerada da área, a Itaú Asset diz não trabalhar com metas formais de captação ou tamanho. “A nossa meta é que todos os produtos estejam sempre no primeiro quartil dos comparáveis”, diz o executivo. “Se você fizer um produto vencedor, o crescimento acontece naturalmente.”
Além do crescimento do mercado, os private markets têm ganhado importância dentro das gestoras globais por outro motivo: a necessidade de diversificar receitas e reduzir a dependência de estratégias tradicionais.
Enquanto no mundo líquido extrair alfa está cada vez mais difícil e a competição com ETFs é real, com esses fundos competindo cada vez mais por preço; nos mercados privados, o valor agregado da gestão é maior e o investidor paga bem ao ter um retorno maior.
A maior gestora do mundo, a BlackRock, é um exemplo, acelerando de forma explícita sua aposta em mercados privados por meio de aquisições. Em outubro de 2024, concluiu a compra da Global Infrastructure Partners (GIP), reforçando sua plataforma em infraestrutura.
Em julho de 2025, a companhia americana completou a compra da HPS Investment Partners, casa especializada em crédito privado, num reposicionamento que acompanha a busca global por estratégias menos dependentes dos mercados líquidos tradicionais.
No Brasil, gestoras independentes também têm aberto essas frentes como diversificação. Caso da SPX, que antes era uma gestora multimercado e hoje também está em crédito estruturado, real estate e private equity.