O ano de 2025 terminou com um roteiro que poucos imaginavam no início: real mais forte, bolsa em máximas e um apetite por risco reaparecendo. Entretanto, os juros reais nas alturas e a esperada volatilidade do cenário eleitoral e de tensões geopolíticas globais, como na Venezuela e na Ucrânia, ainda deixam os portfólios majoritariamente conservadores em 2026.

O NeoFeed conversou com os sete maiores private bankings brasileiros - Banco do Brasil, Bradesco, BTG Pactual, Itaú Unibanco, Santander, UBS e XP - para saber como estão alocando os recursos das grandes fortunas neste início de 2026.

Se, no ano passado, o que ditou o ritmo dos mercados foi o cenário internacional, com o tarifaço de Trump, a desvalorização do dólar e a diversificação dos investimentos em diversas bolsas globais, inclusive na B3, este ano, os movimentos locais devem predominar na precificação dos ativos.

“O dólar já sofreu uma grande correção e deve ficar mais estável este ano. Não vemos motivos para a valorização de outras moedas, como o euro. O câmbio aqui dependerá mais das expectativas quanto à política fiscal em 2027”, afirma João Scandiuzzi, sócio e estrategista-chefe do BTG Pactual Portfolio Solutions.

A principal expectativa deste ano é para o início do corte da taxa de juros no Brasil, que está em 15% ao ano. Os bancos variam as suas previsões para o juro terminal de 2026 entre 12,75% ao ano e 12% ao ano. E, com a inflação controlada em torno de 4%, isso significa juros reais de 8% ao ano ou mais – ainda extremamente atrativos, um dos maiores do mundo.

Outro fato que deve gerar preço é a corrida eleitoral para a presidência, que trará, ao longo do ano, volatilidade aos mercados com pesquisas de intenção de voto mostrando a liderança de candidatos mais ou menos alinhados com o ajuste fiscal, que ficará para 2027.

“A eleição presidencial deve ser um dos principais vetores de volatilidade em 2026. Por isso, especialmente no segundo semestre, vale calibrar a exposição ao risco e manter carteiras diversificadas e líquidas para atravessar oscilações”, afirma Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) do UBS Wealth Management no Brasil.

A consequência dessa fotografia é que renda fixa segue com muito espaço nas recomendações, compondo de 50% a 70% do portfólio de um cliente com perfil de risco moderado.

Os bancos, por conta disso, têm preferência pelos papéis atrelados ao IPCA por serem uma proteção em caso de repique de inflação e de volatilidade da curva de juros, além de estarem em níveis historicamente muito altos. Títulos do Tesouro IPCA, por exemplo, estão pagando taxas de quase 8% ao ano.

Para a alocação em crédito, a indústria ainda enxerga espaço para ativos isentos e para crédito privado, mas com um nível maior de seletividade e de prudência do que o investidor se acostumou a empregar nos últimos anos. Em outras palavras: ainda existe prêmio, mas ele não é homogêneo e a compressão de spreads em alguns segmentos obriga o investidor a separar o que é complexo do que é, de fato, arriscado.

“Crédito estruturado pode ganhar espaço, desde que com uma seleção rigorosa de risco e fundos capazes de equilibrar crédito com outros fatores para atravessar volatilidade e uma reprecificação de spreads”, afirma Julia Lenzi Baulé, estrategista-chefe de investimentos do BB Private. “À medida que os juros caem, também ganham relevância os fundos posicionados para capturar a tendência.”

Da esq. para a dir, de cima para baixo: Artur Wichmann, da XP; Julia Lenzi Baulé, do BB Private; Luciano Telo, do UBS; Nicholas McCarthy, do Itaú; João Scandiuzzi, do BTG; Juliana Laham, do Bradesco; e Christiano Clemente, do Santander
Da esq. para a dir, de cima para baixo: Artur Wichmann, da XP; Julia Lenzi Baulé, do BB Private; Luciano Telo, do UBS; Nicholas McCarthy, do Itaú; João Scandiuzzi, do BTG; Juliana Laham, do Bradesco; e Christiano Clemente, do Santander

E o risco?

A renda fixa segue como a grande base do portfólio, mas os esperados juros menores em 2026 sugerem já ir colocando o “pé no risco”." Mas a forma de fazer isso não é um consenso entre os maiores private bankings do Brasil.

A bolsa saiu de 2025 como o melhor ativo do ano, com o Ibovespa subindo 34%. Depois dessa valorização, a expectativa do repeteco é mais cautelosa para alguns bancos, mas a alocação média sugerida é de 10% para um perfil de risco moderado.

Santander, Bradesco, BTG e XP têm recomendação neutra para a bolsa no ano, mesmo com a avaliação de que as ações ainda têm bastante desconto.

“Vemos espaço para valorização no médio prazo, mas com maior cautela dada a alta recente. Em nossos cálculos, o Ibovespa hoje tem o indicador Preço/Lucro em 9, baixo frente à sua média histórica próxima de 12, por exemplo”, afirma Christiano Clemente, CIO do Santander Private Banking.

Já BB, Itaú e UBS estão sobrealocados na classe, sustentando uma posição mais construtiva em bolsa, com a ressalva de que 2026 não deve ser um filme linear — especialmente à medida que o calendário eleitoral se aproximar e o mercado começar a precificar cenários.

“Em 2025 foi o melhor ativo e em 2026 será de novo. Não dá para ficar de fora da bolsa, ainda mais com o processo de queda na taxa de juros”, afirma Nicholas McCarthy, diretor de estratégia de investimentos do Itaú Unibanco.

Mas, para todos eles, a alocação em bolsa precisa ser ativa e não no índice Ibovespa. É preciso selecionar empresas boas e que se beneficiam de queda de juros e que de fato estejam descontadas. A alocação deve ser ou por bons gestores que farão esse trabalho ou via uma curadoria mais criteriosa de posições diretas junto ao research dos bancos.

Uma seleção mais atenta também é necessária na alocação de fundos multimercados. Enquanto a classe de ativos ficou menos de 1 ponto percentual acima do CDI no ano, não compensado a volatilidade ao longo do tempo, alguns fundos conseguiram se destacar. Nos últimos 24 meses, o Índice de Hedge Funds ANBIMA ainda segue abaixo do CDI.

“Seguimos reticentes com a classe como um todo, pois é difícil que o conjunto gere alfa suficiente para compensar as altas taxas de gestão. Ainda assim, há um subgrupo de gestores de qualidade inquestionável, capaz de entregar retornos consistentes e compor o portfólio ao longo do tempo”, afirma Artur Wichmann, CIO da XP.

Os bancos recomendam uma parcela de 15% a 20% na classe, com uma composição entre fundos macro, para capturar a volatilidade do ano eleitoral, e também multiestratégia e long biased, para melhorar a relação risco-retorno.

Já em relação a ativos alternativos, a alocação média sugerida é em torno de 5%. E a classe preferida para o ano são fundos imobiliários, que tendem a se beneficiar da queda da taxa de juros. Em 2025, o IFIX, índice dos fundos imobiliários, superou os 20% de alta.

Oportunidades ao redor do mundo

A alocação internacional tem ganho cada vez mais representatividade no patrimônio dos clientes private. Atualmente, a recomendação geral é ter pelo menos 20% no exterior de forma estrutural.

E esse pedaço do portfólio será muito importante para amortizar volatilidades no cenário local em 2026 e de tensões geopolíticas próximas ao Brasil geograficamente ou economicamente (como tensões de Venezuela e China com os EUA), sendo um hedge natural a movimentos que afetem a economia brasileira.

A tese de contínua desvalorização do dólar, como em 2025, e necessidade de diversificar entre outras moedas e diminuir a alocação nos Estados Unidos para compor um portfólio mais global não é um consenso.

O Itaú, por exemplo, tem uma posição mais clara de rotação geográfica e sugere menos Estados Unidos, mais Europa, Japão e emergentes, com aumento de renda variável e redução de renda fixa em dólar.

Já o BB Private e o UBS acreditam em um mundo ainda construtivo para ativos de risco globais, com os Estados Unidos mantendo um papel central. Especialmente pelo setor de tecnologia e IA e por um crescimento que segue sólido no cenário-base.

“Os investidores devem revisar suas alocações em ações internacionais, buscando garantir que estejam alinhadas, ou até um pouco acima, dos objetivos de longo prazo. Para quem está com baixa exposição a ações internacionais, vale considerar aumentar”, afirma Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) do UBS Wealth Management no Brasil.

Do outro lado, há quem enxergue o mesmo mapa, mas com um alerta sobre preço. O Bradesco reconhece que quase tudo foi bem nos EUA e é justamente por isso que a principal preocupação passa a ser valuation.

“Na bolsa americana estamos levemente subalocados em relação aos países desenvolvidos. Para o restante nossa alocação está neutra. Na renda fixa, nossa preferência são os títulos de menor risco, onde temos uma alocação acima do neutro”, afirma Juliana Laham, CIO Global do Bradesco.

O BTG vai na mesma linha de prudência no crédito americano: mantém a moeda de referência em dólar, mas não vê muito “ganho fácil” pela via de fechamento de spreads e fica mais leve em high yield. Ao mesmo tempo, a casa procura qualidade e proteção sem alongar demais. Uma das principais recomendações são os TIPS americanos de cinco anos.

A Europa aparece como ponto de convergência mais por diversificação do que por euforia. A região ganha espaço como alternativa para reduzir a concentração nos EUA, mas com a leitura de que parte do desempenho recente veio do câmbio, não de uma reprecificação estrutural dos ativos.

Ainda assim, a combinação de cortes moderados de juros, algum impulso fiscal nas economias desenvolvidas e um dólar mais fraco tende a sustentar o apetite por risco no velho continente — mesmo com a geopolítica mantendo um sinal de alerta.

Os mercados emergentes ganham espaço nos portfólios, depois de um longo tempo muito subalocados. A China aparece como uma peça importante para exposição em tecnologia, mas que requer cuidados em crédito e deve ter um crescimento econômico pior.

A mensagem que atravessa todos, no entanto, é a mesma: se 2025 mostrou como o vento global pode mudar uma carteira inteira, 2026 não parece um ano para estar concentrado, nem geograficamente, nem em uma única tese.