Alegando problemas técnicos, a Petrobras atrasou em uma hora sua call sobre os resultados do quarto trimestre e do ano consolidado de 2024 na quinta-feira, 27 de fevereiro. Mas, à parte essa justificativa, a companhia teve muito mais a explicar quando a teleconferência, enfim, teve início.
Dois fatores, em particular, colocaram a CEO Magda Chambriard e seus pares na berlinda. O que se refletiu no desempenho da ações ordinárias e preferenciais da companhia registrando quedas, respectivamente, superiores a 4% e 3% no decorrer da manhã de hoje na B3. E no recuo de mais de 6% dos recibos de ações em Nova York.
O principal elemento nesse caldeirão foi um aumento inesperado no capex de 2024, que somou US$ 16,6 bilhões, alta anual de 31%. A cifra ficou 15% acima dos US$ 14,5 bilhões previstos na revisão do guidance feita em agosto de 2024, dois meses depois de Chambriard assumir o comando da estatal.
Essa surpresa negativa foi turbinada ainda com o anúncio de que o board da empresa aprovou um pagamento de R$ 9,1 bilhões em dividendos. A proposta, que será submetida em assembleia geral extraordinária em 16 de abril, veio abaixo das estimativas do mercado.
“Nós entendemos a frustração do mercado com os dividendos no curto prazo”, afirmou Chambriard, durante a call em que falou por exatos 40 minutos. “Mas, em última análise, o que estamos oferecendo aos acionistas é ‘óleo no bolso’ mais rapidamente.”
O “óleo no bolso” citado foi uma referência direta a projetos no campo de Búzios, que responderam por uma boa parcela do aumento registrado no capex no trimestre e no ano. Isso incluiu a antecipação do início das operações das FPSOs Almirante Tamandaré e Maria Quitéria, previstas inicialmente para 2025.
“Búzios é um ativo fundamental para nós”, afirmou a CEO. “Graças ao início da FPSO de Tamandaré, por exemplo, já chegamos à marca de produção de 800 mil barris de petróleo por dia. Hoje, para se ter uma ideia, nosso campo mais produtivo é o de Tupi, que produz atualmente cerca de 850 mil barris por dia.”
Chambriard acrescentou outros números a essa conta. Segundo a executiva, a projeção para o campo de Búzios é chegar a uma capacidade de 1 milhão de barris por dia no segundo semestre de 2025. E, até 2030, superar a marca de 2 milhões de barris por dia.
“Uma antecipação dessas significa um aumento no valor presente líquido da plataforma de US$ 2,2 bilhões num triênio”, disse. “Essa antecipação foi viabilizada, está resolvida e nós não veremos o mesmo nível de investimento do quarto trimestre de 2024 no primeiro trimestre de 2025.”
A CEO ressaltou, porém, que se fosse possível, a Petrobras anteciparia todo o capex de Búzios para “hoje”. “Quando antecipamos a entrada de um sistema de produção, estamos antecipando geração de caixa com óleo novo, ou seja, estamos viabilizando o sonho de consumo de uma petrolífera.”
No curto prazo, porém, o discurso não acalmou os ânimos do mercado. Por volta das 16h20, as ações ordinárias da Petrobras registravam queda de 5,25%, enquanto as preferenciais recuavam 3,71%, dando à empresa um valor de mercado de R$ 496,7 bilhões. Já as ADRs negociadas em Nova York recuavam mais de 6%.
Prejuízo trimestral e queda no lucro anual
Outros indicadores também desapontaram os investidores. No quarto trimestre de 2024, a Petrobras apurou um prejuízo líquido de R$ 17 bilhões, o que reverteu o lucro líquido de R$ 31 bilhões reportado em igual período de 2023. No ano, o lucro líquido foi de R$ 36,6 bilhões, uma retração de 70,6%.
Chambriard destacou que a última linha do balanço no trimestre foi impactado, principalmente, pelo impacto – sem nenhum efeito no caixa da companhia - da variação cambial de dívidas da empresa com suas subsidiárias no exterior. Sem isso, o lucro no período teria sido de R$ 17,7 bilhões.
Entre outubro e dezembro, a receita da Petrobras foi de R$ 121,2 bilhões, um recuo de 9,7% sobre o mesmo intervalo de 2023. Levando-se em conta o resultado anual, a queda foi de 4,1%, para R$ 490,8 bilhões.
Já o Ebitda ajustado trimestral da operação foi de R$ 40,9 bilhões, uma retração de 38,7%. No acumulado do ano, o indicador caiu 18,2%, para 214,4 bilhões. As despesas operacionais cresceram 31,9% no trimestre, para R$ 43 bilhões, e 33,7% em 2024, para R$ 105,7 bilhões.
A empresa encerrou o ano com R$ 49,9 bilhões em caixa, o que significou um recuo de 38,4% sobre 2023. Já a dívida líquida ficou em R$ 52,2 bilhões, alta de 18,1% sobre o terceiro trimestre de 2024, enquanto a alavancagem, na mesma base de comparação, saiu de 0,95 vez para 1,29 vez.
A estatal informou ainda que, caso a proposta de dividendos de R$ 9,1 bilhões seja aprovada, considerando os proventos antecipados ao longo do ano, devidamente corrigidos pela Selic, a remuneração dos acionistas relativa a 2024 irá totalizar R$ 75,8 bilhões.
Em relatório, o Itaú BBA observou que a proposta veio 38% abaixo de suas projeções. Em contrapartida, o banco destacou que investir no desenvolvimento da produção do campo de Búzios é a melhor alocação possível de capital. E que, a princípio, não vê a antecipação do capex com negativa.
“No entanto, acreditamos que a revisão do guidance feito em agosto do ano passado pareceu apressada e levou os investidores a esperarem um pagamento potencial de dividendos maior, o que não se materializou”, escreveu o banco, com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 49 para a ação.
Já o BTG Pactual, que tem recomendação de compra e preço-alvo de US$ 20 para a ADR da Petrobras, escreveu que “uma bandeira amarela foi levantada” e que a expectativa é de que os investidores fiquem cada vez mais céticos sobre os dividendos no curto prazo. Mas acrescentou:
“Nos últimos anos, episódios de pânico excessivo sobre mudanças de CEO, políticas de preços de combustível e riscos de fusões e aquisições frequentemente criaram pontos de entrada atraentes para as ações”, afirmaram os analistas do BTG.