Brasileiro é louco por refrigerante. A bebida responde por 79% dos produtos sem álcool produzidos no país, o que inclui toda sorte de sucos industrializados, água de coco e até kombucha, segundo levantamento do Ministério da Agricultura.
Assim como houve uma onda de produção de cerveja artesanal, que ainda não acabou, o refrigerante sem garrafa, rótulo ou tampinha, tem conquistado espaço nas mesas de restaurantes, lanchonetes e bares dos grandes centros brasileiros, especialmente do Rio de Janeiro e São Paulo.
Borbulhantes como seus primos mais famosos, são produzidos de forma artesanal, a partir da mistura de xarope e água com gás, e aparecem com os sabores mais inusitados.
A onda é global. No relatório de tendências Pinterest Predicts 2025, divulgado no começo do ano, a rede social Pinterest prevê que os millennials e a geração Z farão os refrigerantes sair das latinhas — um movimento nostálgico, escorado em receitas caseiras. O termo “refrigerante de frutas”, atesta o estudo, registrou um aumento de 185% nas buscas, enquanto “refrigerante caseiro” cresceu 40%.
Há quem ofereça este tipo de bebida como refrigerante artesanal mesmo. É o caso do chef Rodrigo Libbos, do restaurante de cozinha turca Kebab Salonu, em São Paulo. Ele elabora cinco sabores — cereja, banana, limão, maracujá e tangerina —, com preços entre R$ 14 e R$ 15. Todos são feitos com água gaseificada e xaropes criados pelo próprio Libbos, e chegam à mesa em jarras de 400 mililitros.
Em muitos estabelecimentos, porém, a categoria é classificada como soda italiana. Muda o nome, mas o princípio é o mesmo. Só que ninguém é capaz de cravar, com 100% de certeza, o que a Itália tem a ver com os refrigerantes artesanais.
Na internet, a invenção é creditada aos imigrantes italianos que se estabeleceram nos Estados Unidos, mas a tese carece de comprovação
“Não encontrei registros dessa versão. Soda, na Itália, é sinônimo de bebida efervescente em geral”, diz Gerardo Landulfo, delegado da Accademia Italiana della Cucina em São Paulo, ao NeoFeed.
Há ainda quem classifique os refrigerantes artesanais como coquetéis não alcoólicos, como faz o restaurante de cozinha japonesa Oguru. Sabores como limão com hibiscos ou lichia com frutas vermelhas também levam água gasosa e custam R$ 18.
A menção a coquetéis não é por acaso — os xaropes que dão origem às bebidas gaseificadas são os mesmos usados em drinks, tanto que já tem bartender transitando nos dois mundos. Marcelo Serrano, um dos mais premiados do país, assina os três refrigerantes do restaurante Adega Santiago Asador, em São Paulo.
Um deles, o chazin de santiago, leva capim-santo, gengibre e limão, enquanto o de frutas vermelhas mistura morango, amora, framboesa, limão e espuma de gengibre — a mesma que Serrano popularizou no topo de seu coquetel mais famoso, o moscow mule.
Os xaropes, ele mesmo produz. O processo pode ser feito a quente, no fogão, como se fosse uma geleia, ou a frio, processando xarope neutro, só de açúcar, com a fruta ou outro vegetal. “Quando uso capim-limão e gengibre, por exemplo, prefiro a extração a frio para manter o frescor dos ingredientes”, entrega, ao NeoFeed.
Na maioria das vezes, os refrigerantes artesanais são servidos em copos longos. Segundo Serrano, eles comportam a quantidade ideal de pedras de gelo, que deve ser generosa: “Muita gente pensa o contrário, mas quanto mais gelo coloco, menos aguada fica a bebida. Se ponho poucas pedras, o gelo derrete mais rápido”.
Receitas próprias
Xaropes prontos como os das marcas Monin e Fabbri, muito usados pelos bartenders, oferecem uma vasta gama de sabores. Mas os chefs de restaurantes gastronômicos, aqueles que se destacam pela cozinha criativa, não desperdiçam a chance de produzir a própria receita. E não importa de que país vem a inspiração.
Na Los Dos Cantina, de cozinha mexicana, os chefs Caio Alciati e João Gertel fazem refri de wasabi (R$ 17). No Shuk Falafel & Kebabs, pratos inspirados na comida de rua do Oriente Médio casam bem com as sodas de romã (R$ 23) e de rosas (R$ 22). Dedicada à pesquisa de ingredientes brasileiros pouco conhecidos, a chef Bel Coelho, do Clandestina, prepara soda com xarope de gengibre, maracujá e frutos secos do pacová, considerado a versão local do cardamomo (R$ 26).
No menu asiático do Mestiço, pode ser de capim-santo com gengibre (R$ 15), enquanto o sushiman Adriano Kanashiro, do Kureiji, elabora suas bebidas gaseificadas (R$ 26) usando até shissô e pepino. Nem as padocas ficam de fora – na Galpão Padaria Natural, em Osasco, Grande São Paulo, o ginger ale e a pink lemonade (R$ 16,99) concorrem com cocas e guaranás.
Das visitas à Coreia do Sul, onde vive sua família, o chef Daniel Paek trouxe as ideias para elaborar a carta de bebidas da Komah Bakery. Ele criou uma linha gaseificada leve, na medida para escoltar pães e sanduíches bem condimentados.
A coleção foi batizada de “ades”, uma referência ao sufixo que significa “feito de” e aparece em palavras como lemonade, orangeade e grapeade. “Na Coreia, os ades representam um leque de soft drinks com ou sem gás. Na Komah Bakery, todas têm gás porque prefiro assim”, diz ao NeoFeed.
Uma de suas criações é o citrus ade (R$ 19), que leva sucos de toranja e de limão-siciliano e compota de yuja, fruta cítrica asiática. O doce vai no fundo do copo — por cima, entram os sucos e, por fim, a água com gás. Quando o cliente recebe o pedido, os ingredientes ainda não foram misturados e podem ser identificados separadamente. “A proposta é mexer na mesa, para perder o mínimo de gás”, explica.
Paek prepara outro refrigerante artesanal exótico, o meshil ade (R$ 19). A base é o xarope de meshil, ameixa coreana verde e miúda, usada até mesmo na cozinha salgada.
Transformada em compota, a fruta rende uma calda espessa que o chef mistura com suco de limão taiti e água com gás.
Bizarrices
No Brasil, pelo menos por enquanto, a onda dos refrigerantes artesanais se limitou às receitas mais frescas, que chegam a ser elegantes diante das invencionices que estão agitando as redes sociais nos Estados Unidos.
Por lá, a moda é a dirty soda (“soda suja”), uma mistura de refrigerantes industrializados mesmo, como Coca-Cola e Dr.Pepper, com xarope pronto e algum creme saborizado, que pode ser de coco ou de café.
O resultado está mais para um milk-shake gasoso — os mais velhos certamente vão lembrar da vaca preta, hit das lanchonetes nos anos 1980, mistura batida de Coca-Cola e sorvete de creme.
Redes como a americana Swig Drinks, que reivindica o título de The home of the original dirty soda, se especializaram na bebida e arrebanham milhares de seguidores nas redes sociais, enquanto tiktokers disputam quem inventa a dirty soda mais bizarra. Para que a moda desembarque por aqui, é questão de (pouco) tempo.