Quando Tallis Gomes, Alfredo Soares e Bruno Nardon criaram a G4 Educação, em 2019, a tese era clara. Com nomes como VTEX, Easy Taxi e Rappi no currículo, o trio se propunha a ensinar o caminho das pedras para pequenos e médios empresários. Ou, em suas palavras, o “forgotten money” do País.
A ideia ganhou tração. Seis anos depois, a companhia tem uma carteira de 55 mil empresas, que faturam entre R$ 10 milhões e R$ 500 milhões e cuja receita somada é de R$ 3,7 trilhões. E, a partir dessa carteira, fechou 2024 com um faturamento de R$ 330 milhões.
Após alcançar esse patamar, a G4 está virando a chave para ir muito além do motor de educação e abocanhar uma fatia maior desse bolo. E a grande aposta é o G4 Tools, um marketplace de soluções empresariais para esse público, que promete ser o carro-chefe da operação nesse novo percurso.
“O marketplace é a nossa chance de ter escala. Até então, nosso negócio não era escalável”, diz Tallis Gomes, sócio e presidente executivo da G4 Educação, ao NeoFeed. “E essa é a grande tese que vai nos levar a faturar R$ 4 bilhões em 2034.”
Um dos dados que sustentam essa ambição e o peso que o G4 Tools terá nesse caminho é a projeção de que a plataforma, lançada em janeiro, gere uma receita de R$ 170 milhões em 2025 – um terço do faturamento total de R$ 500 milhões estimado pela empresa para este ano.
Outros fatores fundamentam essa confiança e a nova tese. Entre eles, o fato de a G4, na prática, não ter um custo de aquisição para atrair esses clientes para a plataforma, dada a base expressiva que já tem dentro de casa. Mas cujo potencial não era totalmente explorado.
“Até então, eu entendia as dores desse cara, orientava, mas ele saia daqui dizendo: a G4 me fez muitas provocações boas, só que eu não implementei nada”, diz Gomes. “Agora, eu consigo entregar, com desconto, o que antes ele saía buscando, sem curadoria, no mercado.”
Na prática, o marketplace é a aposta da G4 para ampliar seu LTV (lifetime value) com esses clientes – com a projeção de responder por 60% da receita em 2034. E, nesse novo arranjo, o braço de educação passa ser a porta de entrada para fisgar novos CNPJs e ampliar o aquário à disposição da companhia.
O marketplace começou a ser testado, ainda sem uma marca oficial, em 2024. Mas teve origem em um movimento feito dois anos antes, com o lançamento da G4 Skills, plataforma de softwares de treinamento personalizado para empresas, turbinada por inteligência artificial (IA).
A ferramenta foi validada em 2023, com o entendimento de que era possível incorporar outras ofertas no portfólio. A partir dessa percepção, a companhia, por meio da G4 Capital, braço de investimentos do trio fundador, passou a comprar participações em empresas.
Uma dessas investidas foi a Nalk, que usa IA para automatizar vendas. E que, plugada no ecossistema da G4, saltou, em um ano, de uma receita anual recorrente de R$ 900 mil para R$ 15 milhões, abrindo caminho para o plano de incorporar outras soluções de terceiros em um marketplace.
Em paralelo, Gomes entendeu que as barreiras de entrada para o modelo de software como serviço, até então, a orientação da G4, estavam caindo, justamente na esteira das possibilidades abertas pela IA, que ajuda a pular etapas – e a economizar recursos – no desenvolvimento de sistemas.
“Não quero ficar buscando ouro nessa corrida, quero vender a pá”, diz Gomes. “Não sei quem vai ganhar esse jogo de produto, só sei que vão ter que usar o meu canal se quiserem vender para PMEs. A G4 se tornou o trusted advisor desse público. Esse é o nosso lugar de potência é o que queremos ser.”
De olho em um universo de 1,8 milhão de CNPJs, o G4 Tools usa o acesso que já tem junto a esse público como uma moeda de troca na negociação de descontos com os “sellers” plugados na plataforma. Assim, as ofertas mais acessíveis são outro gancho para atrair clientes para o marketplace.
Para tocar esse braço, a G4 trouxe, em junho, Higor Torchia, que, entre outras passagens, liderou a expansão do Groupon na América Latina. O que casa justamente com essa proposta. “No fim do dia, com esses descontos, o marketplace acaba sendo um Groupon de soluções empresariais”, afirma.
Nesse modelo, a receita da G4 vem da cobrança de um take rate, entre 20% e 30%. Já sob o ponto de vista da oferta, a plataforma inclui desde softwares como CRM e ERP até consultorias estratégicas, tributárias, contábeis e de marketing.
Hoje, a lista de sellers plugados no marketplace envolve investidas da G4 Capital, como a própria Nalk, até nomes como iFood Benefícios, Conta Azul, V4 e Bitrix. Até o fim do ano, o plano é ter 50 sellers na plataforma.
Para escalar o volume de clientes no G4 Tools em sua própria base, a G4 aposta em uma IA interna. Ela será usada para monitorar o que cada cliente está demandando e oferecer aquela respectiva solução. E também para identificar a necessidade de buscar eventuais novas ofertas para o marketplace.
Polêmicas e repercussões
Em paralelo a essa movimentação nos bastidores, há um ano, Gomes se envolveu em uma série de controvérsias que colocou seu nome – e o da G4 – sob os holofotes. A principal delas foi um comentário feito por ele no Instagram, em resposta a um seguidor, no qual afirmou: “Deus me livre de mulher CEO”.
A reação, também via redes sociais, não tardou. E, na esteira da forte repercussão negativa, Gomes renunciou ao posto de CEO da G4 – sendo substituído por Maria Isabel Antonini, sócia e CFO da empresa. Ele também foi afastado do conselho consultivo da marca de lingeries Hope.
“Fui infeliz na forma que me coloquei. Se eu usasse o pronome pessoal, a ‘minha mulher CEO’, não teria esse problema. E essa foi a pergunta”, diz ele.
“E aí, a vida é minha. Posso escolher a forma que quero viver e encontrei uma mulher que concorda com isso. O problema é meu. Ninguém tem nada a ver com isso”, complementa.
Ele prossegue: “Eu não me arrependi do que eu falei, continuo vivendo a vida assim. O que me arrependo é de ter dado a chance de ser atacado. Ter feito daquela forma abriu espaço para pessoas e alguns veículos de mídia transformarem isso numa narrativa que não era verdade”.
Gomes ressalta, porém, que, à parte da repercussão negativa, houve ganhos com o episódio. “Toda polêmica tem uma parte negativa reputacional, mas você chama atenção. Nós batemos 10% acima da nossa meta em 2024, muito por causa dos leads que vieram dessa confusão.”
Quando perguntado se essa é uma tática que ele faz uso de caso pensado, Gomes responde que o caso em questão foi, de fato, um deslize. Mas reconhece que já recorreu a essa prática em outras oportunidades.
“A empresa teve fases e fases. Hoje, eu sou uma companhia que fatura R$ 500 milhões. Tenho um compromisso e uma maturidade diferente. E tenho caixa para comprar anúncio na Globo”, diz. “Agora, enquanto você é uma companhia na guerrilha, polêmica é um bom negócio. Se já fiz isso? Claro.”
Nesse histórico de declarações, via redes sociais ou podcasts, Gomes já defendeu a jornada de trabalho semanal de 80 horas, afirmou que não contratava “esquerdistas” e criticou temas como igualdade de gênero e saúde mental no trabalho. Para ele, coisas de “bullshiteiro”.
Questionado pelo NeoFeed se esses posicionamentos não estariam na contramão de parte das tendências que dita a chamada gestão moderna – dado que, esse é o campo de atuação da G4 -, ele rebate:
“Compare as empresas geridas como estou falando, focadas em geração de caixa, em resultado, onde os funcionários podem crescer e ganhar dinheiro e não focar em ‘bullshitagem’ ESG, como igualdade de gênero e todos esses delírios ideológicos que não trazem valor nenhum para o negócio.”
Gomes acrescenta: “O que estamos vendo agora? O dinheiro encareceu e todo mundo voltou a trabalhar”, diz. “Todas as outras companhias que surfaram essa onda de ESG, que viraram um DCE de faculdade, se ferraram em resultados. Sem exceção.” E complementa:
“O cliente não está nem aí se você tem igualdade de gênero ou não na companhia. Ele quer um bom serviço”, afirma. “Então, essas ‘bullshitagens’ são o velho modelo de tocar a companhia. O novo modelo é o ‘back to the basics’. Quem é bom, cresce, ganha dinheiro e entrega valor para o cliente.”