Quando o Bradesco anunciou a joint venture na área de gestão de ativos com o Banco BV, em agosto de 2022, o mercado viu o movimento como uma tentativa de o banco da Cidade de Deus criar uma "Kinea" para chamar de sua. Era um claro movimento para tentar replicar o modelo de sucesso da gestora de ativos alternativos do Itaú, hoje com R$ 150 bilhões sob gestão. Mas a Tivio Capital, a gestora criada entre Bradesco e BV, não teve o êxito que se esperava e a sociedade acaba de ser encerrada.

O Bradesco comprou a participação de 49% que o Banco BV ainda detinha e passou a controlar integralmente a gestora. O movimento, anunciado na manhã da segunda-feira, 20 de abril, formaliza um desfecho que já vinha sendo desenhado nos bastidores. Em reportagem publicada em dezembro de 2025, o NeoFeed antecipou que o BV deveria exercer o direito de saída, enquanto a gestora atravessava uma troca de comando após Christian Egan ir para o Santander.

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o comando compartilhado não estava funcionando, com atrito de visões entre as partes. Uma das questões é que a base de clientes do Bradesco, que trazia o poder de distribuição do bancão, ainda está muito voltada para a renda fixa tradicional. Sendo necessário ainda uma curva de aprendizado para distribuição de alternativos, que sempre foi o foco da nova gestora. E a necessidade de velocidade disso para os bancos era diferente.

Além disso, no meio do caminho, a gestora do Bradesco conseguiu navegar bem o ciclo de crédito privado e atraiu muito capital para si, enquanto a Tivio nem tanto. Mostrando que as gestoras estavam competindo no mesmo mercado e na visão do BV não com as mesmas condições.

Em meio a isso, a Joint Venture foi perdendo tamanho. Quando surgiu, a gestora contava com R$ 42 bilhões em ativos sob gestão e R$ 22 bilhões sob custódia no private banking. Depois disso, porém, a casa foi perdendo tamanho, chegou a cair para R$ 24,4 bilhões e, segundo os dados mais recentes da Anbima, de fevereiro de 2026, hoje conta com R$ 32 bilhões sob gestão.

Segundo fontes de mercado ouvidas pelo NeoFeed, a Tivio tomou a decisão de estrategicamente encolher, saindo de algumas áreas de gestão mais tradicionais como multimercado, renda fixa e ações para focar em gestão alternativa, de alto valor agregado. A empresa de investimentos, atualmente, é forte na área de crédito e atua também em equity, real estate, infraestrutura, energia e agro.

Aparentemente a estratégia tem começado a dar resultados. Nos últimos 12 meses, a Tivio conseguiu uma captação líquida de R$ 4,1 bilhões. No entanto, metade do seu patrimônio segue alocado em renda fixa, o que mostra que, apesar do discurso em torno de alternativos e investimentos estruturados, a casa ainda tem uma parte relevante de sua base concentrada em uma classe mais tradicional.

Para além do problema de distribuição, a competição pelo investimento em alternativos está cada vez mais acirrada, em especial com o crescimento de Patria e Vinci, que tem conseguido fazer aquisições e se fortalecer com a captação de investidores no mercado local e global.

Segundo a nota divulgada pelo Bradesco, a Tivio continuará operando de forma independente, com governança própria e autonomia decisória, enquanto Rodrigo Freire assume de forma efetiva o cargo de CEO, após exercer a função interinamente. O banco ainda afirmou que enquadra a aquisição total da gestora como parte de sua estratégia de ampliar a atuação em ativos alternativos e investimentos estruturados no Brasil.

"A Tivio ocupa um papel estratégico em sua prateleira de produtos por complementar o portfólio com soluções voltadas a mercados privados e investimentos estruturados" "A gestora seguirá focada em investidores institucionais e de alta renda, com produtos distribuídos tanto pela rede do Bradesco como por outras instituições", diz a nota.

Procurada, a Tivio Capital não comentou. E até o momento o Bradesco não se pronunciou.