A SpaceX começou a detalhar aos investidores o IPO que pode entrar para a história pelo tamanho e pela forma como foi desenhado: ao buscar dezenas de bilhões de dólares em Wall Street, os principais acionistas da companhia querem que ela estreie na bolsa, mas sem abrir mão do comando.
Documentos do prospecto confidencial do IPO protocolado neste mês e obtido pela agência de notícias Reuters mostram que Elon Musk e um grupo restrito de executivos e sócios devem manter o controle de voto da companhia após a oferta.
Isso ocorreria por meio de uma estrutura dual class que dará às ações Classe B dez votos por papel, enquanto os investidores do mercado ficarão com ações Classe A, de um voto cada. A estreia na bolsa está sendo trabalhada para o fim de junho.
Na prática, a SpaceX tenta repetir uma fórmula já conhecida entre empresas que abrem capital nos EUA e são comandadas por fundadores: captar recursos no mercado sem dividir efetivamente o poder. A diferença, neste caso, é a escala. A SpaceX mira uma avaliação de aproximadamente US$ 1,75 trilhão e uma captação de US$ 75 bilhões — o que faria dessa a maior oferta pública inicial da história.
Musk seguirá como CEO, CTO e chairman de um conselho de nove membros. Embora tenha recebido remuneração de US$ 54.080 no ano passado, o prospecto indica que ele pode destravar ganhos bilionários em ações após a abertura de capital. A presidente e COO Gwynne Shotwell recebeu US$ 85,8 milhões em remuneração total em 2025, enquanto o CFO Bret Johnsen recebeu US$ 9,8 milhões.
Ao mesmo tempo, o prospecto deixa explícito que a companhia quer limitar a margem de influência de quem entrar no capital depois do IPO. Além da estrutura de ações com supervoto, os documentos apontam dispositivos que podem restringir a capacidade dos acionistas de interferir em eleições do conselho e até de levar certas disputas à Justiça, ao empurrar conflitos para arbitragem e limitar o foro dessas discussões.
Do lado comercial, a empresa também quer usar o apelo da marca Musk para atrair investidores pessoa física. O plano é reservar cerca de 30% das ações para investidores de varejo e ainda abrir as vendas iniciais para pessoas físicas de mercados como Reino Unido, União Europeia, Austrália, Canadá, Japão e Coreia do Sul.
A estrutura da operação e o volume exato da fatia destinada ao varejo devem ser definidos mais perto do lançamento do IPO. Morgan Stanley, Bank of America, Citigroup, JPMorgan e Goldman Sachs lideram a operação como coordenadores ativos do livro de ofertas, enquanto outros 16 bancos, incluindo o BTG Pactual, atuam cobrindo os canais institucional, de varejo e internacional.
Convencendo os investidores
Nesta semana, a SpaceX promove uma maratona de três dias de reuniões fechadas com analistas em suas instalações no Texas e no Tennessee, em uma tentativa de convencer o mercado a embarcar em uma listagem.
O roteiro montado pela empresa é incomum até para os padrões de uma operação desse porte. As apresentações começam com visitas e briefings em Starbase, a base de lançamentos em Boca Chica, no Texas. Depois, outro grupo de analistas ligados a investidores institucionais, como gestoras e fundos de pensão, teria uma sessão separada.
No terceiro dia, os convidados foram chamados a conhecer o projeto “Macrohard”, no data center Colossus, em Memphis, no Tennessee. Para participar, os presentes precisariam entregar seus aparelhos eletrônicos.
A agenda faz parte do esforço da companhia para vender uma tese de investimento que extrapola o negócio espacial. Isso porque o prospecto da oferta também oferece ao mercado o primeiro retrato mais detalhado da saúde financeira do grupo depois da combinação entre a SpaceX e a xAI, operação que reuniu sob o mesmo guarda-chuva os foguetes, a Starlink, a plataforma X e o chatbot Grok.
Os números ajudam a explicar por que a empresa precisa de uma narrativa robusta para justificar uma avaliação tão ambiciosa. A companhia encerrou 2025 com cerca de US$ 24,8 bilhões em caixa, ativos totais de US$ 92 bilhões e passivos de US$ 50,8 bilhões.
No ano, registrou prejuízo consolidado de US$ 4,94 bilhões sobre uma receita de US$ 18,67 bilhões, revertendo o lucro de US$ 791 milhões apurado em 2024, quando havia faturado US$ 14,02 bilhões.
O principal peso veio dos investimentos em inteligência artificial. O capex da empresa saltou para US$ 20,74 bilhões em 2025, mais de duas vezes acima do nível do ano anterior e quase cinco vezes o montante de dois anos antes. Mais da metade desse total foi destinada à frente de IA. Só esse segmento consumiu US$ 12,7 bilhões, ante US$ 5,6 bilhões no exercício anterior.
Foi a Starlink, braço de internet via satélite, que segurou boa parte dessa conta. Segundo os trechos do prospecto, o negócio gerou US$ 4,42 bilhões de lucro operacional em 2025, ajudando a compensar as perdas ampliadas com a incorporação da xAI.