Bruno Garfinkel não aceita o rótulo clássico de herdeiro. Filho de Jayme Garfinkel, fundador da Porto, ele cresceu dentro de um dos maiores grupos do setor, mas diz que transformou esse ponto de partida em combustível para buscar algo próprio.
Hoje, como presidente do conselho da Porto, divide o tempo entre decisões estratégicas de uma companhia com dezenas de milhares de funcionários e uma rotina que inclui pistas de corrida e ondas pelo mundo. Piloto da Porsche Cup e surfista desde a adolescência, ele usa o esporte como um laboratório de teste, erro e evolução.
Foi nesse contexto que ele recebeu o surfista Carlos Burle para uma experiência fora do mar. Em entrevista ao Bravamente, programa em parceria com o NeoFeed, Garfinkel levou Burle para a pista em uma etapa da Porsche Cup, invertendo os papéis e mostrando como o universo da velocidade também exige leitura de risco, controle emocional e tomada de decisão sob pressão.
Essa lógica do desafio atravessa sua trajetória. No automobilismo, fala em “acelerar e frear” como uma metáfora direta da gestão: saber quando avançar e, principalmente, quando segurar.
No surfe, encontra um ambiente ainda mais imprevisível — onde não há controle, apenas adaptação. “É nesse tipo de cenário, onde você não controla tudo, que acontece a evolução de verdade”, afirma Garfinkel.
A mesma mentalidade aparece nas decisões corporativas. Garfinkel evita atalhos que possam comprometer a cultura da empresa, mesmo quando envolvem oportunidades financeiras relevantes. Em um episódio recente, optou por não avançar em um projeto no mercado de investimentos ao perceber que a estratégia passava por promessas sem fundamento, caminho que, para ele, não combina com a relação de confiança construída pela Porto.
Mais do que números, o empresário tem direcionado sua atenção para comportamento e cultura. Ele defende que empresas são, antes de tudo, plataformas de valores em escala. No caso da Porto, isso significa impactar não apenas funcionários, mas uma rede que envolve corretores, prestadores de serviço e milhões de clientes.
Mas é fora do escritório que ele identifica seu maior desafio. Pai de dois adolescentes, Garfinkel admite que a paternidade expõe fragilidades que não aparecem no mundo corporativo. Depois de anos adotando uma postura mais rígida, hoje tenta recalibrar o papel, com menos cobrança e mais presença.
No centro de tudo está uma inquietação que não tem a ver com performance ou legado: o medo de não merecer. Garfinkel repete que não quer ser visto como alguém que chegou lá sem esforço. Quer sentir que cada conquista carrega intenção, trabalho e consistência.