Maior processadora de pagamentos do mundo, a americana Fiserv inaugura no Brasil, nesta quarta-feira, 6 de maio, sua primeira fábrica fora da Ásia. Instalada em Betim, em Minas Gerais, a unidade terá capacidade anual para produzir 100 mil maquininhas da plataforma Clover.

Os equipamentos serão destinados ao mercado nacional para atender principalmente pequenas e médias empresas do varejo. Hoje, a companhia fornece o dispositivo de pagamento que é produzido na China.

Os modelos importados das maquininhas estão no Brasil desde dezembro de 2024 e hoje a empresa já conta com 100 mil dispositivos em operação, que já realizaram 50 milhões de transações. Na prática, a companhia quer deixar de ser apenas fornecedora de software para também produzir hardware.

O modelo que será produzido no país será o Clover Flex, que também oferece no aparelho recursos de gestão do negócio. Somando os demais modelos dos aparelhos de pagamento, a companhia hoje opera em cerca de 500 mil estabelecimentos comerciais no país.

O investimento para a construção da unidade de produção e fabricação dos equipamentos de pagamento integra um pacote de US$ 100 milhões investidos pela Fiserv no Brasil, o que inclui também ações em desenvolvimento de tecnologia, até o fim de 2027.

“A fábrica chega em um momento em que o produto já está amadurecido no Brasil e apresenta alguma escala. Começa a fazer sentido fazer um investimento maior para produzir localmente e ampliar o atendimento no país”, diz Ricardo Daguani, CEO da Fiserv no Brasil, em entrevista ao NeoFeed.

Com isso, a Fiserv busca avançar terreno em uma área em franca expansão no país. Dados da Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que as transações com cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões em 2025, alta de 5,4% sobre 2024.

Estimativas do mercado enxergam o volume de pelo menos 23 milhões de maquininhas de pagamento em operação no Brasil, o que coloca o país entre os maiores em volumes transacionados, atrás apenas de Estados Unidos e China.

Segundo o executivo, a produção local faz com que a companhia reduza os custos logísticos, tempo de entrega e a possibilidade de ter mais disponibilidade do equipamento no país.

Da receita da Fiserv no Brasil, mais da metade vem justamente do mercado de adquirência. E, nesse segmento, a companhia também oferece diretamente os equipamentos e habilita parceiros para atuar a partir da tecnologia da empresa.

Um dos exemplos desta modalidade é com a Caixa, que vende seus serviços de adquirência para as empresas de varejo, com a maquinha Clover. “Nosso crescimento vem justamente dessas duas frentes.” Além do banco estatal, a empresa também tem parceria semelhante com o Sicredi.

Ricardo Daguani, CEO da Fiserv no Brasil
Ricardo Daguani, CEO da Fiserv no Brasil

Como plano de expansão no varejo nacional, a Fiserv decidiu implementar lojas físicas, que serão uma espécie de “show-room” de todos os modelos de maquininhas Clover oferecidos pela companhia, e não apenas a que será produzida em Minas Gerais.

A primeira unidade foi aberta no ano passado em Guarapari, no Espírito Santo. A proposta é ampliar para regiões com maior volume de concentração de negócios, como São Paulo.

A outra divisão da receita da Fiserv está no processamento de emissão, que neste caso tem como clientes instituições financeiras, como bancos tradicionais e fintechs.

O CEO da Fiserv enxerga que, no caso das maquininhas, uma avenida que ainda aparece para ser cruzada está no aumento de pagamentos na modalidade Pix, por meio de QR-Code. Segundo ele, uma parte relevante faz o pagamento direto entre aplicativos de banco, o que faz com que a transação seja mais lenta.

“A gente tem a tecnologia para capturar essa transação. Ainda há muita transferência no Brasil com a chave Pix direto pelo celular, em vez de usar a tecnologia da maquininha, que é muito segura. E, para o estabelecimento, é muito melhor estar no dispositivo, para facilitar seu controle financeiro”, afirma o executivo.

Segundo o Banco Central, em março foram realizadas 7,4 bilhões de transações via Pix, que movimentaram R$ 3,5 bilhões. Deste total, somente 8% foram feitas com QR-Code estático e 11% fizeram a inserção manual da chave.

Para Daguani, o ponto de atenção na perspectiva de crescimento da companhia no Brasil está no caminho que será adotado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em relação à taxa de juros, hoje a 14,75% ao ano.

“Taxa de juros alta não ajuda o crescimento, porque reduz crédito. Mas há a explicação pelo controle da inflação. Se a economia cresce mais, é bom para todo mundo, tanto a instituição quanto o consumidor. A gente espera que os juros caiam, mas temos que nos adequar ao cenário”, avalia o CEO.

Em 2025, a Fiserv alcançou receita de US$ 21,2 bilhões, alta de 3,6% sobre o ano anterior (US$ 20,5 bilhões). O lucro líquido foi de R$ 3,5 bilhões, 11% acima do resultado de 2024, de US$ 3,1 bilhões. No mercado global, o Brasil está no top 10. A empresa não abre receita por país.

No acumulado de 2026, as ações da Fiserv na Nasdaq registram desvalorização de 14,7%. A companhia tem valor de mercado de US$ 30,5 bilhões.