As ações da Ambev sobem mais de 16% na tarde desta terça-feira, 5 de maio, com investidores repercutindo positivamente o resultado do primeiro trimestre da companhia. A valorização caminha para ser a maior da história da empresa em um único pregão, superando a alta de 15,5%, em março de 2004.

A Ambev apresentou lucro líquido de R$ 3,8 bilhões, 7% acima do consenso, enquanto a receita foi de R$ 22,46 bilhões, 8,1% acima do registrado no mesmo período do ano passado. Já o Ebitda ajustado teve um salto de 10,1%, para R$ 7,55 bilhões.

Mas o maior destaque veio dos volumes entregues, que ficaram praticamente estáveis, com alta de 0,1%, depois de sucessivas quedas. Na divisão Cervejaria Brasil, em que a Ambev vinha sofrendo com o aumento da competição nos últimos anos, o volume teve alta de 1,2%.

“Isso, mais o controle de custos, fez o Ebitda crescer mais de 10% — e isso brilhou o olho do investidor”, diz Mathias Wagner, sócio e head de análise da gestora LIS Capital. “Com a Copa do Mundo, que geralmente gera um pico de demanda, o cenário para 2026 é muito positivo para a Ambev.”

O otimismo com a companhia também é explicado pelo controle de preços em relação à concorrência. Neste ano, destacou Wagner, a Heineken repassou aumento de preços pela primeira vez antes da Ambev, dando gordura para o grupo brasileiro fazer o reajuste e ganhar margem para os próximos trimestres.

“É uma leitura de que o posicionamento competitivo dela já está mais azeitado. Essa mudança na dinâmica de preços é algo que, realmente, pode levar a uma virada de chave”, afirma Wagner.

Mesmo com volumes praticamente estáveis e pressões inflacionárias atreladas à alta do petróleo, a Ambev conseguiu uma ligeira queda nos custos dos produtos vendidos no trimestre, de R$ 10,95 bilhões para R$ 10,88 bilhões.

“O mercado esperava alta de custo bem mais forte, com tudo o que está acontecendo, choque inflacionário. Então, realmente, foi uma surpresa bem fora da expectativa”, comenta Daniel Utsch, gestor de ações da Nero Capital.

Para Utsch, o resultado do primeiro trimestre é suficiente para provocar uma onda de revisões, no mercado, para os próximos balanços da empresa. “Isso tende a provocar um fluxo positivo para a ação nos próximos 6 a 12 meses.”

Embora os números recentes tenham gerado uma maré de otimismo para a companhia, as expectativas eram bem diferentes até antes do resultado, com a ação andando praticamente de lado nos últimos 10 anos e sofrendo com apostas contrárias do mercado.

Antes do pregão, as posições de aluguel em aberto correspondiam a cerca de 7% do free float da Ambev. “Então, a valorização de hoje tem um pouco de short squeeze, além da empolgação dos investidores”, diz Wagner.

Ruy Hungria, analista da Empiricus, explica que, além do cenário competitivo, fatores estruturais vinham pesando negativamente na percepção sobre o setor, como mudanças de costumes e até impactos de remédios de emagrecimento. “Nesse contexto, nos últimos anos, o mercado acabou ficando um pouco mais cético com o potencial de crescimento de resultados da Ambev.”

Hungria, porém, manteve recomendação neutra para os papéis, considerando que a empresa é negociada com múltiplos que considera elevados, de cerca de 15 vezes lucro. Quem também manteve recomendação neutra para os papéis foi o BofA, por entender que o cenário de custos segue preocupante até 2027.

Já os analistas do BTG Pactual, que tem recomendação neutra, admitiram que deverão revisitar a tese após a publicação do novo balanço, abrindo espaço para uma potencial recomendação de compra. O banco avalia que, neste trimestre, a Ambev entregou o “pacote completo”: preço forte, volumes melhores e expansão de margem, mesmo no período que deveria ser o mais difícil do ano em termos de custos.

“A competição vinha sendo um obstáculo importante até agora. Mas, se este trimestre servir de indicação, a Ambev pode estar navegando essa dinâmica de forma mais eficiente. O jogo de portfólio parece finalmente estar funcionando”, diz o BTG, em relatório.