Em menos de dois meses de negociações, o GPA conseguiu a adesão da maioria dos credores para seu plano de recuperação extrajudicial, que resultará num corte de pouco mais de 50% no tamanho da dívida não operacional, na casa dos R$ 4,5 bilhões.

O grupo, dono das redes Pão de Açúcar e Extra, anunciou nesta terça-feira, 5 de maio, que tem o apoio de 57% dos credores não operacionais para seu plano, trazendo alívio no curto e médio prazo, dando espaço para o CEO Alexandre Santoro conseguir colocar em prática seu plano de reestruturação operacional.

“Estou aqui há quatro meses e a questão da liquidez era o tema do GPA”, diz o executivo ao NeoFeed. “Agora, estamos virando a página dessa questão da dívida financeira.”

O plano do GPA – protocolado hoje perante o Juízo da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo, com prazo inicial de 30 dias para ser homologado – prevê que a dívida seja convertida em duas operações de debêntures que os credores poderão escolher.

A primeira emissão totaliza R$ 2,5 bilhões e será feita em duas séries. Uma delas é de cerca de R$ 1,5 bilhão, com custo de CDI mais 2,5%, dois anos de carência e vencimento concentrado em 2031. A outra série, de R$ 1 bilhão, será conversível em equity em quatro janelas entre 2027 e 2031, com base no preço de mercado da época.

Segundo Pedro Albuquerque, CFO e diretor de relações com investidores do GPA, essa opção prevê também uma contribuição de capital para a companhia, na forma de risco sacado, capital de giro ou via debênture. A expectativa é conseguir levantar cerca de R$ 200 milhões.

A segunda opção é uma emissão de R$ 2 bilhões, com um deságio de 70%, transformando-se em uma dívida final de aproximadamente R$ 600 milhões, com vencimento em 2036.

Albuquerque destaca que essas opções valem para todos os credores, sem distinção entre as diferentes classes. “O plano é único para todos os credores e dependendo da forma que se quiser aderir vai ter diferentes condições. Se quiser disponibilizar capital para a companhia, vai ter uma classe de dívida. Senão, vai ter outra classe de dívida, com deságio”, diz.

Como resultado da proposta, além da redução de mais de 50% da dívida não operacional, para R$ 2,1 bilhões, o plano alongará o prazo médio de 2,1 anos para 6,4 anos, com o custo caindo de CDI mais 1,8% para CDI mais 0,5%.

O desembolso que o GPA teria de fazer nos próximos três anos cai de R$ 5,2 bilhões para R$ 800 milhões. “Tudo isso acaba possibilitando à companhia ter as condições de fluxo de caixa operacional que cabe no passivo”, diz Albuquerque.

Questionado sobre como fica a alavancagem, o executivo não quis comentar. Mas o NeoFeed apurou que deve ficar em torno de 2,3 vezes. Em termos ajustados, a relação entre dívida líquida e Ebitda fechou 2025 em 2,4 vezes.

O GPA entrou com um pedido de recuperação extrajudicial em março pressionado financeiramente e com “dúvidas significativas” sobre a continuidade de seus negócios.

A varejista tinha um total de R$ 2,3 bilhões em dívidas vencendo ao longo de 2026, sendo que R$ 1,7 bilhão era entre maio e julho. Já o fluxo de caixa operacional, após as variações de capital de giro, atingiu R$ 1,3 bilhão no fim de 2025, avançando 37,8%.

A companhia deu início ao processo com o apoio de credores que respondem por 46% da dívida, boa parte deles bancos. O NeoFeed apurou à época que Itaú, HSBC, Rabobank e BTG Pactual apoiavam a medida.

Com essa situação para trás, o GPA passa a focar nas operações. A companhia reformulou a diretoria, trazendo executivos experientes em varejo, para endereçar três pontos que Santoro começou a trabalhar há quatro meses, quando assumiu o comando – entrega de experiência aos clientes, aumento da eficiência operacional e disciplina financeira.

Outro ponto que precisa ser resolvido são os R$ 17 bilhões em contingências fiscais e trabalhistas nos próximos anos. “Claramente, ainda tem uma agenda relevante pela frente, ainda tem muita coisa para a gente fazer aqui, especialmente no operacional, na elevação da experiência dos nossos clientes. Mas estamos muito confiantes na direção e na estratégia adotada”, diz Santoro.

As ações do GPA fecharam o pregão de segunda-feira, 4 de maio, com alta de 2,17%, a R$ 2,50. No ano, os papéis acumulam queda de 36,8%, levando o valor de mercado a R$ 1,2 bilhão.