Parte relevante do Produto Interno Nacional (PIB), o agronegócio tem atraído cada vez mais capital para o interior do País. É esse o caminho escolhido pela Apex Partners para mostrar um segmento que o mercado financeiro ainda não conseguiu enxergar direito - e que está muito além do Ibovespa.
No estudo “O Renascimento do Brasil”, que o NeoFeed teve acesso em primeira mão, o grupo financeiro capixaba, que detém R$ 18,2 bilhões sob gestão, aconselhamento e custódia, constrói a tese de que o País estaria entrando em um novo ciclo estrutural de crescimento, impulsionado menos pelas grandes empresas listadas e mais por economias regionais que avançam longe dos holofotes de Brasília e da Faria Lima.
“Existem dois Brasis do ponto de vista econômico. Um Brasil da média e um Brasil das onças”, diz Ricardo Frizera, sócio e diretor de research da Apex Partners.
O que a Apex chama de “onças brasileiras” são os estados sustentados por agronegócio, infraestrutura, indústria e expansão do mercado de capitais regional.
Fazem parte desta lista Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Juntos, esses estados passaram de 31% para 36% do PIB brasileiro nas últimas duas décadas.
Na leitura da plataforma de investimentos e serviços financeiros, é justamente aí que está a principal distorção do mercado brasileiro. Hoje, boa parte do crescimento econômico do País estaria acontecendo fora da B3: ativos privados, infraestrutura, crédito estruturado, mercado imobiliário e empresas médias pouco conhecidas do investidor tradicional.
O Ibovespa concentra setores maduros e poucas companhias, enquanto uma parcela crescente da economia opera fora dos principais indicadores de mercado.
“As pessoas do mercado financeiro não olham muito para fora do índice. Quando pensamos nessas onças, entendemos o tamanho da oportunidade do Brasil inteiro”, afirma Betina Roxo, estrategista-chefe da Apex Partners.
O estudo argumenta que o País atravessa uma transformação silenciosa, marcada pela interiorização do crédito e pela expansão do mercado de capitais como financiador da economia real.
A mudança aparece em diferentes setores. A participação do mercado de capitais no funding imobiliário, por exemplo, saltou de 16% em 2020 para 41% em 2024, enquanto a poupança caiu de 53% para 32% no período. Na infraestrutura, o capital privado respondeu por 84% dos investimentos em 2025, contra 56% em 2010.
Para a Apex, esses são exemplos de que uma parcela crescente do crescimento brasileiro deixou de depender exclusivamente do Estado ou das grandes companhias abertas. E é algo que ganha força especialmente nas regiões ligadas ao agronegócio.
O estudo mostra que os estados das “onças” cresceram acima da média nacional nas últimas duas décadas e, em alguns anos, chegaram a avançar em ritmo próximo ou superior ao de grandes economias globais.
“O agro é o único setor econômico do Brasil onde a produtividade aumenta consistentemente”, diz Frizera, que cita o café conilon como exemplo.
Espécie de café rústica, ideal para regiões quentes e baixas altitudes, que tem o Espírito Santo como líder nacional, aumentou sua produtividade em mais de 130% em menos de uma década.
Esse crescimento acaba irrigando outros setores regionais, como mercado imobiliário, logística, serviços e consumo.
O Brasil na geopolítica
Ao mesmo tempo, o estudo tenta inserir o Brasil em uma discussão geopolítica mais ampla. Em um mundo mais fragmentado e pressionado por disputas comerciais, segurança energética e reorganização das cadeias globais, o País aparece como fornecedor estratégico de alimentos, petróleo, minerais críticos e energia renovável.
O relatório destaca que o Brasil representa cerca de 2% do PIB global, mas possui capacidade para alimentar aproximadamente 11% da população mundial.
Apesar desse cenário, a Apex argumenta que os ativos brasileiros continuam baratos. O Ibovespa negocia a cerca de 9,3 vezes lucro projetado, com desconto relevante frente a mercados emergentes e bolsas globais.
Mas esse fluxo estrangeiro recente ainda está longe de representar uma “redescoberta estrutural” do Brasil. “Hoje, o estrangeiro não está preocupado com isso. É puramente uma rotação técnica”, diz Roxo.
Segundo ela, os investidores internacionais estão sendo atraídos principalmente pelos juros reais elevados do País e pelo valuation descontado da bolsa.
Embora a Apex veja um potencial de rerating estrutural para o Brasil, o fluxo atual ainda parece muito mais tático do que uma aposta definitiva no País.