Fruto da fusão turbulenta entre as varejistas de móveis e decoração Tok&Stok e Mobly, o Grupo Toky informou protocolou um pedido de recuperação judicial na Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Justiça de São Paulo nesta terça-feira, 12 de maio, que, com dívidas de R$ 1,11 bilhões.
Em comunicado, a companhia citou o ambiente macroeconômico desafiador, caracterizado por taxas de juros ainda elevadas, o alto endividamento das famílias e as condições de crédito mais restritivas que afetam o bolso dos consumidores e, por consequência, suas vendas e operações.
O grupo ressaltou ainda que as restrições temporárias nos níveis de estoque vêm impactando sua liquidez de curto prazo, o que exige a adoção urgente de medidas para preservar suas atividades e permitir a implementação de uma reestruturação ordenada de seu endividamento e estrutura de capital.
As ações do Grupo Toky registravam queda de 41,3% por volta das 16h15 na B3, cotadas a R$ 0,17. No ano, os papéis recuam 79%. A companhia está avaliada em R$ 36,8 milhões.
No pedido de recuperação judicial, a companhia destaca que, antes da fusão, os resultados das duas empresas já vinham sendo bastante impactados, muito em função das restrições impostas pela pandemia, especialmente aos varejos que dependiam fortemente das lojas físicas.
Nesse contexto, em 2023, a Tok&Stok costurou acordos para reestruturar suas dívidas bancárias, na época, da ordem de R$ 339 milhões. Essas medidas mostraram-se, porém, insuficientes, e, um ano depois, a companhia homologou um plano de recuperação extrajudicial.
A fusão com a Mobly aconteceu em meio a esse cenário, em agosto de 2024. E o fato é que, à parte dos fatores externos destacados pelo grupo, o conturbado processo que deu origem ao grupo e diversos movimentos que sucederam o anúncio da operação só aqueceram ainda mais esse caldeirão.
Já na largada, a expectativa é que o acordo colocasse um ponto final em uma disputa societária que já se arrastava há anos e envolvia, de um lado, a família Dubrule, fundadora da Tok&Stok, e a SPX Capital, que desde 2021, quando assumiu a operação do fundo Carlyle no Brasil, detinha 60% da operação.
Essas expectativas não se confirmaram, já que o clã se opôs fortemente à fusão e deu início a uma disputa pelo controle do grupo, o que, entre outros capítulos, resultou em uma oferta pública de aquisição pelo clã, no início de 2025, que foi rejeitada pelo board da companhia.
Em paralelo a esses e outros imbróglios, as sinergias esperadas entre as operações da Tok&Stok e a Mobly não foram capazes de escrever um roteiro de recuperação dos indicadores do Grupo Toky, que, desde então, vêm mostrando dificuldade para mostrar ao que veio.
Nesse cenário, o grupo observa que seguiu adotando medidas para reestruturar seus passivos. Mas apontou que viu sua situação se agravar ainda mais com o bloqueio de R$ 77 milhões em recebíveis de cartão de crédito pela SRM Bank, uma instituição de pagamentos.
Na petição, a companhia ressalta que o montante em questão é “extremante superior aos débitos vencidos”, que seriam de aproximadamente R$ 1,3 milhão. E que contestou, por diversas vezes e canais, o valor junto à SRM. Mas que essas medidas não surtiram efeito até o momento.
De acordo com o grupo, os riscos nesse cenário são “absolutamente evidentes”, uma vez que o bloqueio dos recebíveis – principal fonte de capital de giro de suas operações – compromete diretamente o fluxo de caixa necessário para cumprir obrigações básicas.
Essas obrigações envolveriam fornecedores, parceiros e trabalhadores, cujo pagamento de salário estava previsto para a próxima sexta-feira, 15 de maio. Além das operações de logística, das lojas físicas, centros de distribuição e canais digitais.
“O gravíssimo dano é agravado pelo caráter continuado da medida, pois, a cada dia, ampliam-se os impactos financeiros e operacionais dos bloqueios, elevando substancialmente o risco de colapso do fluxo de caixa e de paralisação das atividades empresariais das Requerentes”, escreve a empresa.
O grupo também frisa que diversos contratos firmados por ela contêm cláusulas de insolvência, que permitiram aos credores deflagrarem os vencimentos antecipados desses acordos, o que acarretaria a exigibilidade imediata de todo o seu passivo e, na prática, tornaria impraticável a sua recuperação.
Nessa direção, entre outros pontos, a empresa pede, com urgência, à Justiça a suspensão dessas cláusulas de insolvência e a liberação imediata dos recebíveis bloqueados pela SRM Bank, sob pena de inviabilizar totalmente as alternativas que a recuperação judicial busca preservar.