O Vision Fund, do Softbank, registrou ganho anual de US$ 46 bilhões, quase todo puxado pela dona do ChatGPT. Agora, o mercado questiona o tamanho da aposta, que pode passar de US$ 60 bilhões e já levou a S&P a revisar a perspectiva de crédito do grupo para negativa.

A OpenAI colocou o Softbank no centro da corrida global por tecnologia novamente. Depois de anos em que o Vision Fund foi associado a perdas bilionárias e apostas malsucedidas, o grupo encerrou o ano fiscal com lucro líquido recorde de ¥ 5 trilhões (US$ 31,7 bilhões), bem acima dos ¥ 1,15 trilhão (US$ 7,29 bilhões) do ano anterior, impulsionado principalmente pela valorização da dona do ChatGPT.

O braço de investimentos do grupo japonês registrou ganho anual de US$ 46 bilhões, quase todo explicado pela OpenAI. Só a participação na companhia gerou ganhos de US$ 45 bilhões no ano encerrado em março.

No quarto trimestre fiscal, a concentração ficou ainda mais evidente. O Vision Fund teve ganho de cerca de US$ 20 bilhões nos três meses até março, praticamente todo vindo da OpenAI. O avanço compensou perdas em outras empresas da carteira, como Coupang, DiDi Global e Klarna.

A virada é simbólica para o Softbank. Criado para ser uma das maiores plataformas de investimento em tecnologia do mundo, o Vision Fund passou os últimos anos pressionado pela queda de valuations, pela alta dos juros e por apostas que se tornaram emblemáticas dos excessos do ciclo anterior, como a WeWork.

Agora, a OpenAI recoloca Masayoshi Son, CEO da companhia, na posição que ele sempre buscou ocupar: a de investidor disposto a fazer cheques gigantes em uma tese que acredita poder redefinir a economia global.

Tamanho da aposta é preocupação

O Softbank já investiu mais de US$ 30 bilhões na OpenAI e assumiu o compromisso de investir mais de US$ 60 bilhões na companhia, o que lhe daria cerca de 13% de participação. A rodada fechada em março, coliderada pelo grupo japonês, avaliou a empresa em centenas de bilhões de dólares, mesmo em meio à competição crescente de rivais como Google, Anthropic e outros desenvolvedores de grandes modelos de linguagem.

E isso gera um certo incômodo. De um lado, a OpenAI transformou o balanço do Softbank e deu novo fôlego à narrativa de Son. De outro, boa parte desse ganho ainda é contábil, derivado da marcação a valor justo de uma empresa privada, sem liquidez imediata.

A preocupação já chegou às agências de rating. Em março, a S&P Global Ratings revisou a perspectiva de crédito do Softbank de “estável” para “negativa”. Segundo a CNBC, a agência afirmou que a liquidez dos ativos, a qualidade do portfólio e a capacidade financeira do grupo poderiam se deteriorar por causa do novo investimento bilionário na OpenAI.

Para financiar a aposta, o Softbank vem vendendo participações em empresas como T-Mobile e Nvidia, além de recorrer a dívida e empréstimos. No ano fiscal, o grupo registrou ganhos de ¥ 218,1 bilhões (US$ 1,38 bilhão) com essas vendas e outros investimentos. Mas, excluindo o Vision Fund, o resultado de investimentos foi negativo em ¥ 472,1 bilhões (US$ 2,99 bilhões), depois de efeitos como câmbio e despesas.

Na teleconferência de resultados, o CFO Yoshimitsu Goto tentou reforçar a mensagem de disciplina financeira. Ele destacou que o Softbank tinha uma posição de caixa de ¥ 3,5 trilhões (US$ 22,2 bilhões), suficiente para cobrir mais de dois anos de vencimentos de bonds.

Em março, o grupo contratou uma linha de empréstimo ponte de US$ 40 bilhões. Em abril, US$ 20 bilhões haviam sido sacados, principalmente para financiar o investimento na OpenAI, e US$ 2,5 bilhões já tinham sido pagos.

Goto também disse que o Softbank poderia usar sua participação na Arm — uma das principais joias do portfólio — para levantar recursos via margin loan. E levantou até a possibilidade de usar os próprios ativos ligados à OpenAI como garantia para financiamento.

A defesa do Softbank é que a competição em inteligência artificial amplia o mercado. Questionado sobre rivais como Gemini, do Google, e Claude, da Anthropic, Goto disse que é positivo para a indústria ver concorrentes refinando modelos de negócios e oferecendo novos serviços a novos usuários.

A OpenAI, porém, é apenas a peça mais visível de uma estratégia mais ampla. O Softbank tenta se posicionar no centro do boom de inteligência artificial com investimentos em empresas de IA, chips e robótica.

Além da participação na OpenAI, o grupo tem a Arm como ativo estratégico, registrou ganho de ¥ 278,6 bilhões (US$ 1,77 bilhão) com a Intel e fechou a compra da unidade de robótica da suíça ABB por US$ 5,4 bilhões.

O movimento mostra que Son quer construir uma plataforma que vá além dos modelos generativos, conectando IA, semicondutores, infraestrutura e robótica. Mas, no curto prazo, é a OpenAI que concentra a maior parte da narrativa, e do risco.

Por isso, para o CEO do Softbank, a OpenAI é a validação de uma nova era. Mas para o mercado, ainda falta saber quanto desse ganho bilionário vai virar caixa e quanto depende da próxima rodada da corrida global por inteligência artificial.