Do discurso à prática, o capital disponível para a economia verde – dos investimentos climáticos às soluções baseadas na natureza (SbN), começa a ganhar tração no Brasil. Assim como os projetos capazes de receber esses recursos. É o que indica um levantamento da Capital for Climate e da Deloitte.
Segundo o estudo, que ouviu 34 alocadores de capital, a previsão de investimento nessas frentes no País é de pelo menos US$ 10,4 bilhões até 2027, mais que o dobro da projeção inicial de US$ 5 bilhões. E, na outra ponta, levando-se em conta 32 iniciativas, já existe uma capacidade de absorção de US$ 6 bilhões.
Um outro relatório interno da Capital for Climate reforça esse termômetro aquecido. Oito dos 34 participantes desse levantamento declararam que, apenas em 2025, investiram US$ 1,5 bilhão nessas áreas no País.
Apesar dos avanços ressaltados nessas amostras, ainda há um bom caminho a percorrer para que esse pipeline promissor se traduza em realidade. E o principal desafio é justamente fazer o “match” perfeito entre cada um dos atores nesse roteiro.
“Capital não é tudo igual e projeto não é tudo igual. Quem busca um retorno X, num prazo Y precisa encontrar um projeto com essas características”, diz Anna Lúcia Horta, diretora-executiva da Capital for Climate no Brasil, ao NeoFeed.
“Então, temos que colocar o capital certo na iniciativa certa. E no timing adequado”, complementa.
Horta observa que, além de entender as necessidades específicas em cada uma das duas pontas – do retorno buscado aos tíquetes mínimos, médios e máximos necessários para cada projeto, essa conexão passa por filtros como solução e maturidade de cada iniciativa.
No que diz respeito à maturidade, outro desafio, especialmente em vertentes menos desenvolvidas, como as SbNs, é lidar com a oferta ainda incipiente de seguros específicos e instrumentos de garantia, que possam mitigar os riscos, atrair os investidores e destravar os financiamentos dos projetos.
“Eu faço uma analogia com o setor de infraestrutura, onde eu ponho o dinheiro, o retorno é de longo prazo, mas os riscos são conhecidos e os instrumentos de mitigação já foram desenvolvidos”, diz Horta. “Aqui, nós temos que fazer as duas coisas ao mesmo tempo.”
Fundadora da Converge Capital, gestora de investimentos de impacto, Marina Cançado destaca que houve avanços recentes como o Eco Invest, programa federal que oferece recursos subsidiados e ajuda a reduzir os riscos de volatilidade e impactos do câmbio. Mas alerta que é preciso mais.
“Todas essas soluções vão precisar de novas regulamentações e de reorganização das cadeias”, afirma. “São muitas peças que precisam acontecer para que essas áreas virem setores relevantes da economia e não uma série de projetos isolados.”
Cançado também frisa que o desenvolvimento de alternativas específicas de redução de risco é fundamental para atrair os recursos estrangeiros, um capital que, em boa parte dos casos, já é mais maduro nessas teses. Mas ressalta o papel que investidores brasileiros podem desempenhar.
“O mais urgente é o capital catalítico, que topa tomar mais risco”, afirma. “E isso pode vir de famílias que construíram negócios, mas também são investidores. É a visão de pegar 1%, 2% do portfólio e investir em cadeias que vão ser o futuro do Brasil. Precisamos desse capital mais livre e flexível.”
Horta reforça esse coro, acrescentando que há uma desigualdade no direcionamento dos recursos nos diversos estágios de evolução dos projetos. “O capital que mais falta é o capital de risco necessário, principalmente, no momento inicial, para implementar os projetos”, diz. “Esse é um dos gargalos.”
Esses e outros temas estarão em discussão nesta semana na Brasil Climate Investment Week, organizada pela Converge Capital e pela Capital for Climate, em São Paulo. O evento incluirá ainda uma programação específica para conectar justamente os investidores e desenvolvedores de projetos.
Para aprofundar essa relação e fazer esse match, a agenda em questão vai envolver quatro dias de visitas a campo de iniciativas relacionadas às SbNs, em diferentes biomas brasileiros.
Inevitável
Se a evolução no capital disponível para áreas de impacto ainda tem sido marcada pelo descasamento entre investidores e desenvolvedores de projeto, os investimentos globais nessas frentes também têm disparidades na distribuição dos recursos, apesar dos avanços nos cheques.
Dados do Climate Policy Initiative mostram que os investimentos em soluções climáticas no mundo triplicaram nos últimos três anos, alcançando a marca de US$ 2 trilhões. Dos quais, 60% já têm origem no capital privado.
A parcela da América Latina nesse bolo ainda é pequena – de cerca de US$ 200 bilhões. Mas a dupla entende que, em meio ao cenário geopolítico atual, há uma oportunidade para que a região e, em particular, o Brasil, ampliem sua relevância nesse mapa. Mesmo diante de tantos desafios.
“Os países estão dando conta que, cada vez mais, precisam diversificar, desde a matriz energética até seus parceiros comerciais”, diz Cançado. “E isso abre uma janela para a região, que tem recursos para suprir todos os setores, dos minerais críticos aos alimentos, de uma forma mais sustentável.”
Horta recorta para algumas das diversas vantagens competitivas do Brasil, especialmente na área das SbNs. Uma delas, o clima tropical, que favorece os projetos com uma absorção de carbono maior. Outro campo é o agronegócio, setor que pode ter bastante protagonismo em iniciativas regenerativas.
“Tenho plena convicção que o Brasil vai ser a referência mundial em SbNs, assim como a China é em energia solar. É inevitável”, diz. “A questão é timing. O planeta não pode esperar os 20 anos que esperou para a energia solar ser o que é hoje. Precisamos acelerar esse movimento inevitável.”
Nesse balanço entre o curto e o longo prazo, Cançado ressalta que a maior parte das escolhas que o Brasil precisa fazer agora, com urgência, vão definis os próximos 50 anos. Uma dessas discussões envolve a questão dos minerais críticos.
“Temos uma oportunidade gigantesca, porque só 30% do nosso território foi mapeado e, mesmo assim, estamos entre os cinco principais países com potencial de produção de vários desses minerais”, diz. “E o Brasil já tem práticas de mineração muito mais sustentáveis, comparado ao resto do mundo”.
Em contrapartida, ela destaca alguns movimentos essenciais nesse caminho. A começar pela necessidade de se ter uma base mínima de conhecimento para o debate público a respeito desse tema. E, a partir disso, criar consensos sobre como o País pode se inserir nessa cadeia global.
“Há toda uma estratégia de país a ser desenvolvida. O Brasil vai fazer refino ou vai vender como a Vale vende o minério puro?”, questiona. “Um risco é essas decisões serem feitas num congresso totalmente descolado dessas conversas ou em que os lobbies predominem, e não se pense no que é, de fato, melhor para o País.”