O boom da inteligência artificial abriu um desnível inédito no setor de tecnologia, deslocando a criação de valor para a infraestrutura física que sustenta os modelos de IA e pressionando empresas de software — inclusive as de SaaS — a reavaliarem seus modelos de negócio. Esse fosso se reflete no desempenho no mercado acionário dos papéis das empresas de tecnologia que atuam nessas duas frentes.

É o que aponta levantamento da Morningstar, plataforma de dados e investimentos online, revelando que ações de principais empresas que fornecem os insumos para a infraestrutura — principalmente as de semicondutores e memória — tiveram aumento médio de 90% este ano. Enquanto isso, das empresas de software, cujos modelos de negócios e vantagens competitivas são vistos como ameaçados pela IA, estão registrando perdas que chegam a 40%.

“Essencialmente, a tese do mercado é que a inteligência artificial tende a abalar o modelo de negócio do software de forma bastante significativa”, afirma Dave Sekera, estrategista-chefe de mercado dos EUA da Morningstar. “Na verdade, muitas pessoas temem que a inteligência artificial acabe substituindo completamente muitas plataformas de software”, acrescenta ele, embora considere exagerado o pessimismo atual.

Antes da era da IA generativa, o software dominava o investimento em tecnologia, já que as empresas dependiam de produtos baseados em assinatura para gerenciar tudo, desde vendas e recursos humanos até previsões e TI.

Esses fornecedores de software geravam receita recorrente e altos lucros, tornando o software como serviço — ou SaaS, modelo de distribuição em que aplicativos sob assinatura são disponibilizados pela internet — um dos modelos de negócios mais valorizados de Wall Street.

O avanço da inteligência artificial está remodelando essa hierarquia, movimento captado pela Moningstar. Até 13 de maio, a diferença entre os 10% melhores e os 10% piores retornos em tecnologia chegou a 133 pontos percentuais — a maior dispersão em anos.

No topo do ranking estão quase exclusivamente empresas de hardware. A Sandisk acumula 511,4% de valorização no ano, seguida pela Intel, com mais de 225%. Em média, ações de hardware subiram 92,5%, enquanto semicondutores avançaram 76,6%.

Enquanto isso, os 10% piores do setor de tecnologia caíram 39,3% em média, registrando seu pior desempenho desde 2022. Das 10 ações de tecnologia com os piores retornos em 2026, oito pertencem ao setor de software. Entre elas  a HubSpot, empresa de marketing e vendas de software, com queda de aproximadamente 50% em seu retornos desde o início de 2026.

Gargalo estrutural

Para especialistas, o movimento reflete um gargalo estrutural: a IA generativa exige volumes massivos de processamento, memória e armazenamento, e a oferta desses insumos cresce mais lentamente que a demanda.

A captura de valor, portanto, migrou para a base da pirâmide tecnológica — chips, servidores, módulos de memória — e não para as camadas de software que historicamente lideraram o setor.

Para o britânico James Anderson – gestor de fundos famoso por identificar o potencial de gigantes da tecnologia e inovação muito antes de Wall Street, liderando aportes precoces em empresas como Amazon, Tesla, Alibaba, ASML, Spotify e Nvidia -, o ciclo atual marca o fim da era em que plataformas de software e internet dominaram o mercado.

Para ele, os investimentos trilionários em IA feitos por gigantes como Google, Meta, Amazon e Microsoft estão “implodindo” seus fluxos de caixa e transferindo valor de forma duradoura para um pequeno grupo de fornecedores de hardware.

“A quase certeza do domínio de 20 anos das plataformas exponenciais acabou”, escreveu Anderson em carta anual aos investidores da Lingotto Innovation Strategy, advertindo que não há mais “um caminho óbvio de volta para baixo investimento inicial e alto fluxo de caixa”.

Analistas do Morgan Stanley estimam que os donos de data centers gastarão cerca de US$ 2 trilhões entre 2024 e 2027 para expandir sua estrutura voltados à IA, um volume que tende a beneficiar empresas como Nvidia, TSMC e ASML, todas citadas por Anderson como vencedoras estruturais do novo ciclo.

É nesse contexto que o software perde espaço. A correção não decorre apenas de medo irracional, mas de três pressões simultâneas. A primeira é a compressão da vantagem competitiva: modelos de IA reduzem barreiras de entrada em categorias inteiras de software, substituindo diferenciais antes baseados em automação, analytics ou experiência do usuário por soluções nativas de IA integradas diretamente aos sistemas operacionais e às plataformas de nuvem.

A segunda é a pressão sobre o modelo SaaS. Como a IA desloca valor para a infraestrutura, clientes corporativos passaram a questionar por que manter múltiplas assinaturas se modelos generativos conseguem executar tarefas antes distribuídas entre vários softwares. A terceira é o custo de adaptação: incorporar IA exige investimentos pesados em computação e engenharia, pressionando margens que historicamente eram elevadas no setor.

Apesar disso, há sinais de que o mercado pode ter ido longe demais na penalização. A Microsoft, mesmo com queda de 15,5% no ano, superou expectativas de receita impulsionada por IA, indicando que empresas de software capazes de integrar modelos generativos de forma nativa podem preservar — e até ampliar — sua relevância.

Para analistas, o setor não está sendo substituído, mas atravessa uma transição que exige reposicionamento estratégico e novos modelos de monetização.

A leitura predominante entre especialistas e investidores como Anderson é que o investidor precisará ser mais seletivo do que em ciclos anteriores. O desafio, agora, é identificar quais empresas de software conseguirão se reinventar antes que a nova lógica de mercado se consolide.