Com os carros chineses caindo cada vez mais nas graças do consumidor global, os hedge funds estão aproveitando a oportunidade e estão shorteando contra dívidas e ações das principais montadoras da Europa.
Os fundos aumentaram neste ano suas apostas contra títulos de dívida de longo prazo e perpétuos de Stellantis, Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, enquanto as ações dessas companhias estão entre os principais alvos de posições vendidas no mercado europeu, segundo reportagem do jornal Financial Times (FT).
A Stellantis é um dos principais alvos dos fundos. Um título de dívida emitido pela dona de marcas como Jeep, Fiat e Citroën era o título corporativo de grau de investimento mais vendido a descoberto da Europa, segundo o Bank of America (BofA) no fim de maio.
Mais de 18% do título de € 800 milhões com vencimento em 2035 estava emprestado (um indicador de venda a descoberto) em 12 de junho, acima dos 14% registrados no início do ano, segundo dados da S&P Global Market Intelligence citados pelo FT.
Os fundos de hedge também mantêm posições vendidas equivalentes a 7,2% de um título da Stellantis de € 500 milhões com vencimento em 2036 e a 9,7% de um título perpétuo de € 1,8 bilhão emitido em março.
A situação também se repete no mercado de ações. O short interest dos papéis da Stellantis subiu de 1% ao final de dezembro para 5,8%, de acordo com o FT.
A Stellantis não está sozinha. A Volkswagen ocupava a terceira posição entre os títulos mais vendidos a descoberto da Europa no final de maio, segundo o BofA. Os títulos perpétuos da empresa, considerados mais arriscados, têm sido particularmente visados. As posições vendidas contra uma emissão subordinada de € 750 milhões saltaram de menos de 9% no início do ano para 16,2% em junho.
Os fundos também mantêm posições vendidas em um título da BMW de € 750 milhões com vencimento em 2035 e em dois títulos de € 500 milhões com vencimentos em 2032 e 2033, segundo o FT.
As apostas contra um título de € 300 milhões com vencimento em 2030 emitido pela Mercedes-Benz aumentaram de 5,5% para 9,2% desde o início do ano.
As montadoras europeias vêm sofrendo nos últimos anos com a chegada dos concorrentes chineses, que entraram no mercado com uma oferta de carros elétricos e híbridos mais moderna e preços competitivos.
Nos primeiros quatro meses do ano, fabricantes chineses, incluindo BYD e Geely, conquistaram 8,5% do mercado da União Europeia (UE), contra 6% no mesmo período do ano anterior, segundo a Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (ACEA).
A culpa não é apenas dos chineses. As montadoras europeias também enfrentam uma demanda mais fraca no Velho Continente e ainda sentem os efeitos das tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos.
Esses fatores reforçaram a percepção de que a situação da indústria europeia não é circunstancial, mas estrutural, com as montadoras tendo ficado para trás em relação aos concorrentes.
Em meio à dificuldade de competir com os chineses, as empresas decidiram recorrer ao protecionismo. Neste mês, Stellantis, Volkswagen e Renault defenderam a criação de metas “Made in EU” [feito na União Europeia], que recompensariam fabricantes que mantêm a produção dentro do bloco europeu.
Ao mesmo tempo, os europeus estão firmando parcerias com os chineses para aproveitar os menores custos e as tecnologias avançadas do país, buscando atualizar seus produtos e processos.
Já o apetite das montadoras chinesas pelo mercado europeu segue firme, em um momento em que elas começam a enfrentar sinais de saturação no mercado doméstico. Nesta semana, a BYD anunciou planos de investir quase € 2 bilhões até o final de 2027 para desenvolver na Europa a infraestrutura necessária para sua tecnologia de recarga ultrarrápida de cinco minutos.