Se a eliminação precoce da seleção brasileira frustrou os torcedores na Copa do Mundo FIFA 2026, realizada nos meses de junho e julho, em outra categoria ligada ao torneio, as cervejas, as vendas desapontaram o mercado.

Esse parece ser, ao menos, o caso da Ambev, que divulgou seu balanço do segundo trimestre na quinta-feira, 30 de julho. Embora o CEO do Grupo, Carlos Lisboa, defenda o desempenho do seu time no período.

“Os números vieram muito em linha com as nossas expectativas”, afirmou Lisboa, em call com analistas na tarde de hoje. “A Copa é uma plataforma de seis meses de ativação e quase todas as nossas geografias trouxeram resultados muito interessantes, não só em volume, mas também em equity de marca”.

Nesse contexto, ele observou que o torneio gerou uma demanda incremental em diferentes canais e regiões. Mas ressaltou que esses impulsos foram parcialmente compensados por condições climáticas adversas, com as temperaturas médias mais amenas que em 2025 e muito abaixo dos níveis de 2024.

No balanço entre esses dois fatores, o segmento de cervejas da Ambev registrou um crescimento de 5% entre abril e junho, para 21,03 milhões de hectolitros, o que o grupo atribuiu principalmente à força do seu portfólio premium.

Mesmo com essa expansão, o volume reportado veio aquém das expectativas do mercado e foi um fator destacado em relatórios por bancos de investimentos e analistas. Esse foi o caso da XP, que reforçou justamente um dos pontos citados por Lisboa.

“Apesar do crescimento de volume de 5% ano contra ano, sustentado pela forte execução comercial da companhia em relação aos pares, o impacto positivo do clima ficou abaixo do esperado, gerando alguma decepção frente ao consenso, que projetava expansão próxima de 7%”, escreveu a XP.

Os analistas da casa disseram esperar uma reação negativa das ações, uma vez que o otimismo vinha se acumulando ao longo do trimestre, mas acabou não se refletindo nos números reportados.

Nessa linha, as ações abriram o pregão de hoje com queda de mais de 3% e, durante a manhã, a retração variou de 1,5% a mais de 2%. Por volta das 15h25, no entanto, o recuo estava em 0,19%, avaliando a empresa em R$ 245,2 bilhões. No ano, o papel tem alta acumulada de 14,5%

Quem também reforçou essa “frustração” foi o BTG Pactual. Apesar de frisar que a Ambev reportou um resultado bom, o banco destacou que o salto no volume de cervejas no Brasil ficou 1,6% abaixo das suas estimativas, embora o grupo tenha ganho participação no segmento premium.

“Não foi um trimestre memorável, nem um período que acreditamos que vá gerar revisões substanciais para cima das estimativas de lucro. No entanto, a empresa mantém as qualidades que sustentam a nossa tese de investimento”, observou o BTG, com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 20 para a ação.

Já o Itaú BBA, que tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 17 para o papel, afirmou que a Ambev reportou resultados fracos, com receita abaixo do previsto em toda a operação. No período, a receita líquida total da companhia teve um ligeiro avanço, em base anual, de 0,3%, para R$ 20,14 bilhões.

Para o banco, o desempenho da categoria de cervejas no Brasil foi o principal ponto de desvio em relação às suas estimativas para o trimestre, tanto em volume quanto em preços, mesmo contando com a compensação de outras receitas operacionais acima do habitual.

“Em nossa visão, o mercado já havia precificado um impulso significativo decorrente do consumo relacionado à Copa do Mundo da FIFA, enquanto os números reportados sugerem um benefício mais limitado do que o antecipado”, escreveram os analistas do Itaú BBA, que acrescentaram:

“Embora a gestão tenha atribuído parte do desempenho ao impulso da Copa do Mundo de 2026, esperamos que os investidores questionem em que medida o evento efetivamente sustentará os resultados anuais da Ambev”.

Ao falar sobre perspectivas, Lisboa voltou a citar as condições climáticas. Ele mencionou os impactos positivos desses eventos nos números de 2024, e, em contrapartida, os efeitos negativos em 2025, especialmente a partir do segundo semestre, quando a queda nas temperaturas médias se acentuou.

“É sempre bom ter em mente que em 2025 nós tivemos dois anos diferentes dentro do mesmo ano”, disse o CEO. “O que significa que acabamos de completar o pior ciclo de base comparativa que já tivemos”.

Nesse ponto, o executivo ressaltou que, ao iniciar essa nova etapa, e com base nas informações que a empresa tem em mãos, a partir de diferentes previsões de institutos sobre o clima, não há nenhuma indicação de um cenário com tantos impactos como ocorreu em 2025.

“O clima é capcioso e eu não sou meteorologista, mas as previsões atuais não indicam grandes variações de temperatura”, afirmou. “Mas tivemos vários aprendizados nesses dois anos e estamos trabalhando muito próximos dos produtores e fornecedores para podermos enfrentar juntos qualquer cenário”.

Outros números

Em outros números do balanço do segundo trimestre, a Ambev registrou um lucro líquido de R$ 3,47 bilhões, o que representou um crescimento de 24,5% sobre o desempenho reportado nessa mesma linha em igual período, um ano antes.

Nessa mesma base de comparação, o Ebitda ajustado cresceu 3,6%, para R$ 6,37 bilhões, enquanto a margem Ebitda registrou uma expansão de 100 pontos-base, para 31,6%. No trimestre, a empresa reportou uma expansão de 1,4% nos volumes consolidados.

Em outra prateleira além das cervejas, a Ambev divulgou uma queda de 4,4% nos volumes do segmento de bebidas não alcoólicas no mercado brasileiro, para 7,61 milhões de hectolitros.

Segundo a empresa, o recuo no segmento refletiu a forte base de comparação com o mesmo período de 2025 e a decisão de descontinuar os volumes de um canal de mais baixo retorno.

O grupo também informou que encerrou o trimestre com um caixa líquido de R$ 15,39 bilhões, cifra que representou uma retração em relação ao montante de R$ 16,93 bilhões reportado em 31 de dezembro de 2025.

Com o balanço, a Ambev anunciou ainda a aprovação de uma nova distribuição de juros sobre capital próprio, de cerca de R$ 1,1 bilhão, a serem pagos até dezembro de 2026, além do pagamento, em 6 de outubro, da terceira e última parcela dos juros sobre capital próprio aprovados em dezembro de 2025.