Implementado no Brasil há três anos, o sistema free flow de cobrança de pedágio, realizado por um pórtico e sem a necessidade de cabines, é a principal avenida de crescimento da Sem Parar, companhia que lidera o mercado de pagamentos eletrônicos em estradas no Brasil.

O plano da empresa, controlada pela americana Corpay, é investir R$ 150 milhões em 2026 em plataformas de tecnologia, expansão dos pontos de atendimento e aquisição de mais serviços, como em postos de gasolina e estacionamentos.

O objetivo, com essas ações, é que, até 2029, a companhia passe do volume atual de 8 milhões de tags instaladas nos veículos, para o patamar de 15 milhões, quase dobrando de tamanho.

A Corpay, que comprou a Sem Parar por US$ 1 bilhão em 2016, alcançou faturamento global de US$ 4,5 bilhões em 2025. A operação brasileira responde pela fatia de 15% a 17% do total, o que equivale a pouco mais de US$ 700 milhões.

"O free flow é uma grande avenida positiva para nós, porque ela gera uma demanda crescente pelo serviço de pagamento automático. Somente 15% dos veículos hoje no Brasil aderiram ao modelo de pagamento eletrônico. O mercado ainda é subpenetrado", diz Carlos Gazaffi, CEO da Sem Parar, em entrevista ao NeoFeed.

O executivo baseia-se nos números da Associação Brasileira de Empresas de Pagamento Automático para Mobilidade (Abepam), que mostra que há hoje no Brasil cerca de 15 milhões de tags, levando em conta todas as companhias do setor.

Isso para uma frota de pouco mais de 100 milhões de veículos – 60 milhões de automóveis e 40 milhões de veículos pesados, como ônibus e caminhões. A perspectiva é que o avanço do free flow também dobre o volume de adesivos de pagamento automático em três anos e ultrapasse a marca de 30 milhões.

O primeiro modelo de free flow foi implementado em março de 2023, na Rodovia Rio-Santos, mas, até aqui, tem avançado em um ritmo mais lento. Hoje o sistema opera em 15 concessões, com 77 pórticos ativos e cinco mil quilômetros em rodovias em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Rondônia.

A expectativa é que, até o fim do ano, existam 156 pórticos de cobrança direta de pedágio, sem necessidade de cancelamentos de cobrança, em 26 operadoras das rodovias no Brasil. Os novos projetos de concessão já devem nascer com free flow implementado.

Em agosto, o modelo começa a operar no Sistema Anchieta-Imigrantes, administrado pela Ecovias e que liga a capital paulista ao litoral. As duas estradas cobram hoje o pedágio mais caro do Brasil, de R$ 38,70, com pagamento somente na descida.

A partir da mudança, o valor será fragmentado, sendo cobrada a metade, R$ 19,35, em cada via de direção. Para Gazaffi, isso não deve afetar a receita da companhia, que está associada à cobrança da mensalidade. O que deve ocorrer é a diluição dos repasses às concessionárias.

"O que vai existir é que as transações vão ter tíquetes menores, com uma quantidade maior, quando a gente compara com as praças tradicionais de pedágio. Mas não há nenhuma mudança de risco", afirma. A Sem Parar hoje recebe cerca de 800 mil passagens por mês na rodovia que vai para o litoral.

Mesmo com a previsão de crescimento do modelo para este ano nas estradas, Gazaffi reconhece que ainda faltam mais esclarecimentos à população, principalmente sobre as formas de pagamento para quem não aderiu a companhias que oferecem tags.

Neste sentido, ele entende que foi acertada a decisão do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) de suspender, até dia 16 de novembro deste ano, o pagamento de 3,4 milhões de multas no free flow.

"Este sistema é um caminho sem volta. Havia o desafio da leitura em alta velocidade, e isso foi resolvido. A inadimplência, que hoje é de cerca de 4%, também não se tornou um problema. Mas a comunicação e o processo de educação precisam de mais tempo", afirma Gazaffi.

“Ainda tem gente que sequer sabe que uma tag pode ser usada no free flow. E, para quem já tem, não muda nada. Recebe a cobrança normalmente no aplicativo. Para quem não tem, precisa se lembrar de pagar e procurar os canais de pagamento. O brasileiro quer pagar. Mas precisa ser bem explicado”, complementa.

Hoje a companhia tem cerca de 200 lojas no Brasil e 15 mil pontos de varejo para compra de tags da Sem Parar. O sistema opera em cerca de 8 mil pontos, como estacionamentos e postos de combustíveis, em 150 municípios.

A companhia também tem parcerias com as principais montadoras do país e, segundo o CEO, a Sem Parar tem expandido este número, principalmente em relação às fabricantes chinesas de carros elétricos. “De 10 carros que são produzidos, nove hoje já saem com a nossa tag da fábrica”, afirma. Segundo ele, a empresa já oferece mapas de eletropostos para recargas de automóveis.

Novas avenidas

Para o CEO da Sem Parar, a estratégia também é usar o aumento do volume das tags nos carros como porta de entrada para outros serviços oferecidos pela empresa no país. Segundo o executivo, os novos planos, além do serviço core da empresa, já respondem por 30% da receita anual.

Neste segmento, a companhia opera em três avenidas de crescimento. Um dos caminhos desta expansão tem sido no plano de seguros, setor em que a empresa já conta com quatro milhões de apólices.

O foco tem sido em oferecer serviços como martelinho de ouro ou cobertura por 24 horas de incidentes no trajeto da rodovia, a partir do momento em que o motorista passa pela primeira praça de pedágio.

A segunda porta é o mercado de pagamento de tarifas associadas a veículos, como multas, impostos e licenciamentos. A empresa avançou neste caminho a partir da aquisição do aplicativo Gringo, por R$ 1 bilhão, em janeiro de 2025. No ano anterior, a empresa já tinha comprado a fintech Zapay.

"Essas duas plataformas nos permitem acessar um mercado endereçável de cerca de R$ 120 milhões por ano. Elas têm conectividade com 100% dos Detrans no Brasil e hoje estão integradas à plataforma da Sem Parar", explica.

O terceiro serviço é o Sem Parar Mais, que oferece um cartão de crédito integrado ao serviço da tag. No começo deste ano, a companhia internalizou este serviço, que até então era feito em parceria com o banco Afinz. “É um produto para quem gasta com mobilidade e quer ter um pacote de benefícios”, diz.

Segundo o CEO, a Sem Parar tem hoje 150 mil cartões de crédito emitidos e o plano é de chegar a um milhão de cartões emitidos em até três anos.

"Quando a gente soma estas três verticais novas, a gente triplica de tamanho levando em conta os últimos cinco anos. Só no ano passado, estas verticais avançaram 26%. Elas vão seguir crescendo, mas devem seguir neste patamar, porque o nosso core business , que são as tags, tem muito para crescer", explica Gazaffi.

No acumulado de 2026, as ações da dona da Sem Parar registraram alta de 14,7% na NYSE. A Corpay tem valor de mercado de US$ 22,5 bilhões.