Depois de meses avaliando alternativas para reorganizar sua estrutura de capital, a Braskem entrou na fase decisiva da sua crise financeira. A petroquímica trabalha para obter apoio dos credores a uma recuperação extrajudicial que permitirá alongar vencimentos e aliviar a pressão sobre o caixa.

Fontes a par da negociação disseram ao NeoFeed que a complexidade aumentou nas últimas semanas com a entrada de alguns dos investidores mais agressivos do mercado global de crédito.

Fundos distressed, como Elliott Investment Management e Strategic Value Partners (SVP), passaram a comprar posições relevantes na dívida da Braskem.

A entrada de investidores conhecidos como fundos abutres ocorre justamente quando a petroquímica busca convencer credores a aceitar mudanças relevantes em sua estrutura de dívida.

Segundo informações publicadas pelo Broadcast e confirmadas pelo NeoFeed, a proposta discutida prevê o alongamento dos vencimentos em cinco anos, uma redução de 2 pontos percentuais no cupom (juro) dos títulos e a postergação do pagamento de parte desses cupons.

Ao fim do primeiro trimestre de 2026, a companhia acumulava uma dívida bruta de US$ 9,4 bilhões - cerca de R$ 48,6 bilhões.

Desse total, 91% está denominado em moeda estrangeira, o que concentra nos investidores internacionais o poder de aprovar ou enterrar qualquer plano de reestruturação.

No balanço do primeiro trimestre, do endividamento bruto de R$ 62,4 bilhões, cerca de 17% vencem até o fim de 2027.

Entre os bonds internacionais mais sensíveis estão US$ 1,25 bilhão com cupom de 6,45%, vencendo em 2028; US$ 750 milhões a 5,875%, em 2030; e US$ 500 milhões a 4,5%, em 2032.

Só em juros desses instrumentos, a companhia tem cerca de US$ 150 milhões a desembolsar entre julho e setembro deste ano.

A posição de caixa consolidada ao fim de março era de R$ 12,7 bilhões - o equivalente a apenas 0,9 vez o curto prazo da dívida, uma folga estreita para qualquer imprevisto.

O problema é que os principais credores da companhia não têm enxergado incentivos suficientes para aceitar os termos propostos pela Braskem. "Pediram tudo e não deram nada para os bondholders", disse um investidor envolvido nas negociações.

Enquanto os bancos representam uma parcela minoritária da estrutura de capital, os investidores internacionais carregam a maior fatia dos passivos da companhia, que tem uma alavancagem de 17x (cerca de 75% da dívida corporativa da Braskem está nas mãos de bondholders internacionais).

“A negociação com os bancos é a parte mais fácil. Eles detêm entre 10% e 15% da dívida, mas dificilmente essas condições vão ser aceitas pelos bondholders”, diz uma outra fonte.

“Quem fala que [o acordo] está fechado é só uma forma para tentar pressionar outros passivos a aceitar as condições”, complementa.

Embora a companhia precise de adesão inicial limitada para protocolar o pedido de recuperação extrajudicial, a homologação exige apoio majoritário dentro das classes de credores atingidas.

Na prática, isso significa que uma oposição organizada dos principais bondholders pode dificultar significativamente a aprovação do plano.

Cresce no mercado a avaliação de que a Braskem pode recorrer a uma medida cautelar para suspender temporariamente o pagamento de suas obrigações enquanto negocia - a companhia deu o prazo de 5 de julho para evitar a recuperação judicial.

O movimento sinalizaria aos credores que o risco de um default formal está mais próximo do que o discurso oficial da empresa sugere. Por esse motivo, os bondholders não estão apenas comprando posição.

Apuração do NeoFeed confirma que credores já articularam a formação de um comitê ad hoc para coordenar sua posição nas negociações, reunindo gestoras de grande porte como Capital Group e AllianceBernstein.

A organização dos bondholders, que tem Elliott e SVP, dois fundos que construíram reputação global atuando em reestruturações complexas e negociações duras com empresas em dificuldades financeiras, eleva o poder de barganha e sinaliza que a Braskem dificilmente conseguirá aprovar um plano sem concessões relevantes.

“Por enquanto é uma proposta extremamente desproporcional, com todo o benefício para o acionista e todo o custo para os debtholders”, diz outra fonte.

Condições de mercado

A preocupação dos credores aumentou à medida que o cenário operacional da Braskem se deteriorou. A companhia vinha apostando em uma recuperação das margens petroquímicas impulsionada por um ambiente internacional mais favorável - a empresa estava “comprada” no prolongamento da guerra EUA-Irã e a alta do preço do petróleo e seus derivados.

Mas a normalização dos mercados de energia e o enfraquecimento dos spreads comprimiram novamente a rentabilidade do setor. Ao mesmo tempo, a necessidade de preservar liquidez ganhou importância diante dos compromissos financeiros previstos para os próximos meses.

Os sinais de estresse também aparecem no mercado secundário. Os bonds da companhia passaram a negociar em níveis tipicamente associados a processos de reestruturação, refletindo a percepção de risco crescente entre investidores especializados.

Essa deterioração criou uma divergência entre os mercados de crédito e de ações. Enquanto parte dos investidores da bolsa continua apostando em uma recuperação operacional da Braskem, o mercado de dívida já precifica um cenário muito mais desafiador.

Com valor de mercado de R$ 5,6 bilhões, a ação BRKM5 vem sendo negociada perto de R$ 7,50. No ano, o papel recua 2%. Em 12 meses, a queda é de 21,6%.

Nas próximas semanas, a principal questão para a companhia talvez não seja mais a necessidade de uma recuperação extrajudicial, que é cada vez mais inevitável. Mas o que os bondholders querem para o futuro da empresa.