Hoje, símbolo da literatura para crianças, Contos maravilhosos infantis e domésticos não nasceu como um livro para os pequenos. Publicada em dois volumes, entre 1812 e 1815, sem ilustrações e repleta de notas e comentários, a coletânea era, antes de tudo, um projeto acadêmico dos irmãos Grimm.

Em meio às transformações provocadas pelas guerras napoleônicas, pela industrialização e pela modernização da Europa, Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) temiam o desaparecimento das histórias transmitidas oralmente de geração em geração nos territórios de língua alemã.

O trabalho, no entanto, se tornou um clássico infantil  e, como tal, uma das obras mais influentes de todos os tempos. Traduzida para cerca de 170 idiomas, em 2005, foi reconhecida pela Unesco como patrimônio documental da “memória do mundo”.

A fama planetária dos contos acabou por obscurecer a vida e os feitos de seus criadores. E é essa história que a pesquisadora americana Ann Schmiesing conta em Irmãos Grimm: Uma biografia.

Professora no departamento de estudos germânicos e escandinavos da Universidade do Colorado em Boulder, ela se valeu de uma extensa pesquisa arquivística e do vasto conjunto de estudos já produzidos sobre os Grimm para reconstruir a trajetória dos dois intelectuais.

Jacob, por exemplo, formulou a Lei de Grimm, um marco dos estudos linguísticos. Com a Gramática Alemã, ele ajudou a estabelecer a linguística histórica como ciência.

Seu trabalho, lembra a autora, chegou a influenciar inclusive a criação do conceito de “folclore”. Em 1846, o inglês William John Thoms propôs o termo “folk-lore” (“saber do povo”), desejando para as Ilhas Britânicas “um ‘James Grimm’ que fizesse [...] o que Jacob havia feito pelas terras falantes da língua alemã”.

Se o irmão mais velho ajudou a construir a base científica e metodológica para os estudos da cultura popular, o mais novo teve papel decisivo na edição, organização e elaboração literária das histórias, ajudando a dar forma artística aos contos de fadas modernos.

Os Grimm também se dedicaram a criar o ambicioso Dicionário Alemão. Iniciado em 1838, mais do que reunir definições, o projeto buscava registrar a origem e a evolução das palavras.

Para eles, a herança cultural alemã não estava apenas nas histórias populares, mas na própria língua. Tão vasto, o trabalho só seria concluído em 1961.

Uso político

Com a unificação da Alemanha, em 1871, o universo das lendas e mitologias preservadas pelos dois passou a ser usado para fortalecer a identidade do novo império, lembra Schmiesing.

Um exemplo é o Memorial de Kyffhäuser, na cidade de Bad Frankenhausen. Construído em homenagem a Guilherme I, o monumento associa o imperador ao personagem de Barbarossa — segundo a lenda, o Barba Ruiva permaneceria adormecido nas profundezas de uma montanha, à espera do momento de retornar para restaurar a grandeza da Alemanha.

Da mesma forma, a Bela Adormecida tornou-se metáfora do "despertar" da nação germânica depois de séculos de fragmentação política.

O imaginário mantido vivo pelos Grimm também influenciou o romantismo alemão do fim do século XIX, marcado pelo interesse por tradições populares e por uma visão idealizada do passado germânico. O Castelo de Neuschwanstein, construído entre 1869 e 1886 pelo rei Luís II da Baviera, expressa esse fascínio — o mesmo que alimentou as óperas de Richard Wagner.

A autora Ann Schmiesing é professora no departamento de estudos germânicos e escandinavos da Universidade do Colorado (Foto: colorado.edu)

Com 400 páginas, o livro custa R$ 148 (Foto: Amarilys Editora)

Primeira biografia dos irmãos depois de cerca de cinco décadas, o livro de Schmiesing procura desfazer equívocos sobre os contos que se perpetuaram ao longo do tempo.

Um dos mal-entendidos mais frequentes é o de que os irmãos teriam criado essas histórias do nada ou simplesmente reproduzido palavra por palavra as narrativas contadas por camponeses analfabetos.

Na realidade, a maior parte das narrativas foi transmitida por “jovens mulheres cultas” e passou por sucessivas revisões antes da publicação.

Muitos contos já possuíam registros literários anteriores — A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela, por exemplo, foram publicados mais de um século antes pelo escritor francês Charles Perrault. Mas, ligado ao ambiente intelectual e aristocrático da França de Luís XIV, ele transformou antigas narrativas em literatura refinada para os salões da época.

Em Cinderela, o francês faz com que as irmãs sejam perdoadas. Na primeira versão da coletânea dos Grimm, mais fiel aos relatos da tradição oral, elas mutilam os próprios pés para tentar calçar o sapatinho de cristal e, ao final, têm os olhos bicados por pombas como castigo por sua ambição.

Menos violência e mais recato

Entre 1812 e 1857, a cada nova edição, Contos maravilhosos infantis e domésticos se afastava de seu caráter documental e se aproximava cada vez mais dos leitores comuns. As alterações nos enredos acompanhavam mudanças mais profundas da sociedade.

O século XIX consolidou a ideia de que a infância deveria ser moldada por disciplina e ensinamentos morais.

Assim, até a sétima e última versão do livro, Wilhelm revisou a linguagem, eliminou referências consideradas inadequadas, ajustando os contos aos valores da família burguesa da época.

Se no folclore a vilã era tradicionalmente representada pelas mães biológicas, esse papel passou a ser desempenhado pelas madrastas — uma forma de proteger a figura materna. As referências sexuais e as passagens mais brutais dos contos também desapareceram, enquanto proliferaram as menções a Deus e os conceitos de pecado, culpa e punição.

As heroínas continuaram belas, mas se tornaram recatadas — dedicadas aos afazeres domésticos.

Para se ter ideia, na edição de 1812, Rapunzel engravida em uma das visitas do príncipe à torre. “Diga-me, senhora Gothel, por que minhas roupas estão ficando tão apertadas? Já não cabem em mim”, pergunta a mocinha ingenuamente à feiticeira.

Como mostra a história, os contos de fadas nunca foram narrativas estáticas. Ao levar a tradição oral para a literatura, os irmãos Grimm inevitavelmente também a transformaram.

Mais de dois séculos depois, escritores e artistas continuam a revisitar esses enredos, criando versões que refletem novas formas de compreender a infância, a família e os papéis atribuídos aos personagens na sociedade — especialmente às mulheres.