Os dias que antecederam o balanço do segundo trimestre deste ano da Vale foram marcados por uma mescla de expectativas. Em 22 de julho, o grupo deu uma prévia do que viria ao anunciar uma produção de 84,25 milhões de toneladas de minério de ferro entre abril e junho, seu maior volume no período desde 2018.
Ao mesmo tempo, havia uma preocupação crescente entre investidores e analistas em relação à extensão dos impactos da alta do petróleo - na trilha dos conflitos do Oriente Médio - nos custos da companhia e, por consequência, nesses avanços sinalizados em seu desempenho operacional.
Essas questões foram respondidas na noite da quinta-feira, 30 de julho, após o fechamento do pregão na B3, quando a Vale divulgou os números finais do período. E, na visão da companhia, o saldo foi positivo.
“Em resumo, foi um trimestre turbulento no mundo externo”, disse Marcelo Bacci, CFO da Vale, em conversa com jornalistas. “Mas nós entregamos resultados muito satisfatórios e, até agora, estamos tendo um feedback bastante positivo do mercado”.
Para referendar esse discurso, o executivo destacou, por exemplo, o Ebtida ajustado do grupo, que avançou 9%, em base anual, para US$ 3,67 bilhões. Já no Ebitda Proforma, que exclui as despesas relacionadas a Brumadinho e itens não recorrentes, a alta foi de 19%, para US$ 4 bilhões.
Em outra linha ressaltada por Bacci, a Vale reportou um fluxo de caixa livre de US$ 1,5 bilhão, o que representou um crescimento de 49% sobre o número reportado pela companhia nesse mesmo indicador em igual período, um ano antes.
Esse desempenho permitiu que a empresa reduzisse sua dívida líquida expandida, que inclui compromissos ligados às reparações de Brumadinho e Mariana, em 4%, para US$ 16,6 bilhões, no trimestre.
Em contrapartida, a Vale encerrou o segundo trimestre com um lucro líquido de US$ 1,37 bilhão, o que representou uma retração de 35% sobre a cifra registrada na última linha do seu balanço no mesmo intervalo de 2025. E veio abaixo das projeções compiladas pela Bloomberg, de US$ 1,95 bilhão.
De acordo com a companhia, o indicador foi pressionado por fatores como uma perda de US$ 798 milhões na marcação a mercado de derivativos e uma provisão em despesas não recorrentes. Aqui, porém, Bacci fez uma ressalva.
“No nosso mercado, o lucro líquido não é uma boa medida de performance, pois ele está sujeito a uma série de efeitos não recorrentes e a questões de variação cambial”, disse o CFO. “É por isso que o foco dos nossos investidores está sempre muito mais no Ebitda e na geração de caixa”.
Já em relação aos custos, a outra linha sob os holofotes do mercado, a Vale reportou que, no minério de ferro, principal ponto de atenção, o custo caixa C1 (da mina ao porto) cresceu 9%, enquanto os custos all-in tiveram uma expansão de 18% entre abril e junho.
Nessa trilha, sob a expectativa de um real mais forte e de preços mais elevados do petróleo, o grupo anunciou a revisão do guidance nessas duas frentes para 2026. No caso do custo caixa C1, da faixa de US$ 20 a US$ 21,50 para US$ 22,50 a US$ 23,50. E no all-in, de US$ 52 a US$ 56 para US$ 58 a US$ 62.
“Para esse novo guidance, nós assumimos um preço médio do petróleo de US$ 85 por barril e um câmbio médio de US$ 5,13 para o segundo semestre”, disse Bacci. “E não esperamos novas revisões, a não ser que ocorra uma variação muito grande nesses patamares”.
A companhia também revisou as estimativas dos custos all-in do cobre e do níquel para 2026. Nesse caso, porém, para baixo. No cobre, da faixa de US$ 1 mil a US$ 1,5 mil por tonelada para US$ 500. E, no níquel, de US$ 12 mil a US$ 13,5 mil por tonelada para US$ 10 mil a US$ 11,5 mil.
“Diferentemente do minério de ferro, o petróleo não tem um efeito relevante no cobre e no níquel”, disse Bacci. “O que pesou nessas revisões foi o preço de venda de subprodutos como ouro e, no caso do cobre, e o próprio cobre, no caso do níquel, que estão maiores do que tínhamos previsto”.
Já no que diz respeito à produção, o novo guidance aponta para uma estimativa de 360 mil a 380 mil toneladas de cobre, contra a faixa anterior de 350 mil a 380 mil, e de 185 mil a 200 mil toneladas de níquel. Nesse ponto, a projeção anterior era de 175 mil a 200 mil toneladas.
Temores exagerados?
Em outros números do trimestre, a receita líquida da mineradora cresceu 19%, para US$ 10,49 bilhões. Houve crescimento nas vendas de todos os segmentos. Em minério de ferro, a evolução foi de 3%; em cobre, de 10%; e, em níquel, de 7%.
Nesse contexto, a Vale anunciou a distribuição de R$ 8,64 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, a serem pagos em setembro, além de um novo programa para a recompra de até 100 milhões de ações, no prazo de 18 meses.
Em relatório, o Itaú BBA diz que a Vale reportou um resultado positivo e acima do esperado, apesar do fraco desempenho em custos na divisão de minério de ferro, como já era esperado. Um dos destaques foi o Ebitda Proforma, que veio cerca de 5% acima das projeções do banco e do consenso.
Com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 95 para a ação, o banco também ressaltou que a receita maior em minério de ferro compensou o aumento de custos. Além de destacar o desempenho da divisão de metais básicos, a geração de fluxo de caixa livre e a redução da dívida líquida expandida.
Na mesma linha, o BTG Pactual apontou que o balanço veio melhor do que o previsto, com a superação das estimativas em linhas como o Ebitda, apesar de um trimestre mais desafiador em termos de custos – o banco também questionou se os temores em relação a essa frente não foram exagerados.
“A gestão segue apresentando um desempenho operacional mais forte, alocação de capital disciplinada e maior consistência na execução”, escreveu o BTG, que ressaltou o fato de o pipeline de reestruturação e de crescimento da divisão de metais básicos seguir subestimado pelo mercado.
“A Vale prevê ultrapassar a capacidade de produção de cobre para cerca de 500 mil toneladas até 2030, com potencial para atingir cerca de 700 mil toneladas até 2035, o que a colocaria entre as maiores produtoras de cobre do mundo. Em nossa opinião, isso ainda está longe de se refletir na avaliação da empresa”, afirmaram os analistas do BTG, que acrescentaram:
“Mesmo assim, as ações continuam sendo negociadas como uma empresa focada exclusivamente em minério de ferro, com um múltiplo de 4,2 vezes o EV/EBITDA de 2026, oferecendo um retorno atrativo de 8 a 9% para os acionistas.”
As ações da Vale registravam ligeira alta de 0,76% por volta das 14h30, cotadas a R$ 76,67 e avaliando a empresa em R$ 326,3 bilhões. No ano, os papéis acumulam uma valorização de 6,5%.