O atraso histórico do Brasil no saneamento básico representa, ao mesmo tempo, um enorme desafio social e uma avenida de oportunidades para os investidores. Atualmente, 84,1% da população tem acesso à água tratada, mas cerca de 90 milhões de brasileiros ainda vivem sem coleta de esgoto. E apenas 51,8% do esgoto gerado no País recebe tratamento.
Em entrevista ao Janela de Mercado, Cristina Tamaso, gestora dos fundos de infraestrutura da Valora Investimentos, disse que esse déficit, aliado às mudanças regulatórias dos últimos anos, colocou o setor no radar do mercado financeiro.
O ponto de virada foi o novo Marco Legal do Saneamento, sancionado em 2020. A legislação estabeleceu regras mais claras, fortaleceu o papel regulatório da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e ampliou a participação da iniciativa privada. Também fixou a meta de oferecer água potável a 99% da população e coleta e tratamento de esgoto a 90% até 2033.
Chegar lá exigirá investimentos de pelo menos R$ 50 bilhões por ano, segundo Cristina. Isso significa novas concessões, projetos de expansão e grandes desembolsos de capital por parte das empresas.
Para o investidor, porém, não basta identificar o tamanho da demanda. É necessário avaliar se a companhia responsável possui capacidade financeira, experiência e condições para executar as obras. “O maior desafio do setor hoje é o de execução”, afirma a gestora.
Segundo Cristina, o saneamento reúne características vantajosas no longo prazo, como receitas de baixa oscilação e proteção contra a inflação, pelos modelos de contratos.
Cristina aponta três caminhos para acessar esse mercado: a compra de ações de companhias listadas, como Sanepar (SAPR11), Copasa (CSMG3) e Sabesp (SBSP3); as debêntures incentivadas emitidas por empresas do setor; ou ainda fundos de infraestrutura, que oferecem uma carteira diversificada e delegam ao gestor a análise dos projetos e operadores.