O alvoroço em torno da inteligência artificial (IA) tem sido alimentado pelo enorme potencial que essa tecnologia tem de escancarar novas portas e transformar empresas e negócios, de todos os setores. O que também vale – e já está se mostrando verdade - para um segmento, em particular: o cibercrime.
“Os crimes de roubo de identidade têm escalado e se sofisticado”, afirmou Evandro Ernani, head de engenharia do IDCloud da startup brasileira de identidade digital Unico, em painel realizado nesta quinta-feira, 13 de agosto, no SP2B, evento que está sendo realizado nesta semana em São Paulo.
O executivo deu a senha por trás desse “avanço” nos ataques. “A tecnologia de IA está cada vez mais acessível e com ela, está ficando mais barato para os fraudadores unirem roubo de dados e deep fakes para tentarem se passar por uma pessoa, em diferentes lugares”.
Um levantamento da Unico dá uma dimensão dessa democratização a partir da escalada da IA. De acordo com o estudo, o custo de um ataque sofisticado caiu mais de 100 vezes a partir de 2023, de R$ 5 mil em hardware para menos de R$ 30 por mês.
Segundo a startup, 23% dos ataques globais já são de alta sofisticação, envolvendo táticas como as deepfakes. Na América Latina, o índice é mais alarmante e chega a 50%. No Brasil, São Paulo responde por 22% desses incidentes.
Em outro dado que reforça esse panorama crítico, especialmente no que diz respeito às extensões para as empresas, a Unico ressalta que um único perfil fraudulento foi associado a 949 identidades diferentes e atacou 30 empresas distintas no Brasil.
Gerente-geral da Kaspersky, empresa russa de segurança digital, no Brasil, Roberto Rebouças também reforçou o avanço dos roubos de credenciais como usuário e senha a partir dessas técnicas mais sofisticadas. Mas realçou que, seja qual for a tática, o ponto fraco segue sendo o mesmo: as pessoas.
“No Brasil, todo mundo usa muito as redes sociais e publica coisas que não deveria”, disse Rebouças. “E nós levamos muito dessa insegurança da pessoa física para a pessoa jurídica, porque, a partir do momento que o atacante consegue essas credenciais, ele consegue invadir as empresas”.
Segundo os executivos, com o volume de informações – de imagens a dados pessoais - disponíveis hoje digitalmente, a sofisticação dos ataques está se manifestando, por exemplo, em cibercriminosos que, a partir de deep fakes, estão conseguindo participar e avançar em processos de seleção nas empresas.
“Não é que isso pode acontecer. Já está acontecendo”, alertou Ernani. “E, nesse ponto, eu vejo que muitas empresas estão delegando 100% do trabalho para a IA e é onde eu acredito que as grandes falhas vão ocorrer”.
Em paralelo à tecnologia, a dupla ressaltou que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também trouxe a necessidade de as empresas modificarem a resposta a eventuais incidentes, já que, curiosamente, ela também está sendo usada em uma nova camada de ameaças.
“Antes, a empresa sofria um ataque, desligava tudo, formatava as máquinas, levantava o backup e, no dia seguinte, voltava sua operação”, disse Rebouças. “Hoje, o criminoso coleta os dados criptografa e vem com uma segunda demanda: me pague o resgate ou você vai ter que se explicar para o governo”.
Além das multas cabíveis nesses incidentes, ele destacou questões como os danos que podem se estender de danos à reputação à perda de participação de mercado no caso de um vazamento de dados. E acrescentou:
“Hoje, uma empresa não pode trabalhar com a assunção do passado. Não é se ela vai ser invadida, mas quando”, afirmou Rebouças. “A pergunta que temos que fazer é se elas vão ou não sobreviver. No caso de empresas de pequeno e médio porte, muitas delas podem não sair do outro lado”.