Quando o Ozempic, caneta emagrecedora à base de semaglutida da Novo Nordisk, se tornou um blockbuster no Brasil, em 2022, a partir da enxurrada de depoimentos de influenciadores nas redes sociais, a presidente da companhia no País era Isabella Wanderley.
Agora, quatro anos depois, ela retorna a este mercado, como entrante e concorrente, para tentar capturar uma parte deste setor que ela mesmo ajudou a criar. Hoje presidente da Sandoz no Brasil, a executiva se prepara para lançar a Owozy, que chega às farmácias em um mês, no meio de outubro.
Para ela, os momentos são bem diferentes. Nos quatro anos que separam a explosão do Ozempic no país e a chegada da caneta da Sandoz, as principais diferenças estão no aumento do acesso, a partir do fim da patente da semaglutida, em março, e do amplo conhecimento do resultado das canetas. Hoje, o GLP-1 é o segmento que mais vende nas farmácias no Brasil.
“Quando a gente trabalha com produto com patente, o desafio é fazer com que os médicos conheçam melhor o produto. Agora, a molécula já é muito conhecida e a gente quer buscar mais acesso para o paciente”, diz Wanderley, em entrevista ao NeoFeed.
Ela completa: “A expansão do GLP-1 traz para os brasileiros opções seguras e aprovadas, sem risco à saúde. Na gestão de uma empresa, muda muito, porque estamos em mercado competitivo, olhando os concorrentes, e focando em perfis diferentes de pacientes, que agora podem ter acesso ao produto.”
O registro do Owozy foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no fim de julho, junto com mais quatro canetas. A primeira que foi aprovada no país foi a Ozivy, da EMS, no fim de maio, e que chegou às farmácias em junho.
Para a CEO da Sandoz, o fato de a caneta da empresa chegar ao mercado cerca de quatro meses depois da entrada do produto da farmacêutica da família Sanchez não é um problema. Na visão dela, o mercado ainda está em formação e, portanto, há espaço para ocupar espaço nas drogarias.
“Nós ainda vamos ver muitas marcas chegando. E isso não é diferente em outros segmentos do setor farmacêutico. A gente entra em um momento que o mercado ainda está se formando, com as ferramentas necessárias para competir bem. Quem ganha é o paciente. Há muita gente ainda sem acesso”, afirma Wanderley.
No começo de setembro, a Hypera, que também teve seu registro aprovado, lançou nas farmácias a caneta Semavy, com a marca Mantecorp.
O desafio de transformar o Owozy em mais um blockbuster em sua carreira, no entanto, não será uma missão fácil. O mercado formal de GLP-1 no Brasil está perto de R$ 19 bilhões, só que a maior fatia está na venda da tirzepatida, com o Mounjaro.
Sozinho, o medicamento da americana Eli Lilly representa cerca de 65% de todas as canetas vendidas no Brasil. O Wegovy, outra semaglutida da Novo Nordisk, está em segundo, seguido pelo Ozempic. A tarefa é justamente conquistar o espaço de quem está chegando a este mercado, impulsionado pela queda significativa do preço do produto.
De qualquer forma, Wanderley reconhece que, a partir do momento em que todos os registros que estão em análise na Anvisa (hoje ainda há 14 na fila) forem concluídos e boa parte deles já estiver no mercado, vai surgir um desafio logístico grande, principalmente para o varejo farmacêutico.
Como esta categoria de produtos precisa ser guardada em geladeira e ser transportado em ambiente refrigerado, as empresas vão precisar aumentar seus investimentos em espaços que garantam a temperatura necessária para que a caneta mantenha sua eficácia.
No caso da Owozy, o produto pode ser armazenado por cerca de 40 dias em temperatura ambiente, mas só depois que a caixa é aberta. Antes, também precisa ficar guardado em geladeira.
Com o lançamento no Brasil, a Sandoz, que é uma farmacêutica suíça, realiza, pela primeira vez, um lançamento global no país, antes de outros mercados. A tendência é que o Owozy passe a ser distribuído em outros países pela companhia, a partir do desempenho no mercado brasileiro.
“Ter um lançamento aqui antes da Europa ou Estados Unidos mostra a força do Brasil. É um momento de aprendizado para a organização, dada a evolução do mercado nacional”, explica.
O Brasil está entre os principais mercados da Sandoz no segmento internacional (excluindo Europa e Estados Unidos). Nesta fatia, o mercado brasileiro ocupa o top 3, junto com Japão e Austrália.
No ano passado, a Sandoz registrou US$ 269,4 milhões em vendas, o que impactou, segundo a empresa, nove milhões de pacientes. Agora, com a semaglutida, a empresa cria uma nova unidade de negócios, para se somar aos segmentos de genéricos e biossimilares.
A caneta da Sandoz será produzida na fábrica da farmacêutica Adalvo, no Canadá, com insumos da China. Agora, a companhia começa a preparar a transferência da titularidade do registro no Brasil, que foi feito pela Ávita Care. A ideia, com isso, é agilizar qualquer tipo de comunicação com a agência reguladora.
A CEO da Sandoz entende que, dado o avanço expressivo e inevitável do segmento de GLP-1, já chegou o momento de a semaglutida ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) e fazer parte da cesta de medicamentos oferecidos pelo governo. Mesmo que seja, em um primeiro momento, para um público mais seletivo.
Ela ainda estava na Novo Nordisk quando o Ministério da Saúde vetou, pela primeira vez, o pedido da empresa dinamarquesa para incorporar o produto, sob a alegação do enorme impacto orçamentário. Agora, há um novo pedido, ainda em análise.
“Se a gente trabalha com estratégia de acesso, não dá para não olhar para o mercado público. Caso seja possível chegar a uma boa combinação de modelo de acesso e preço, será algo bem interessante. Hoje há 16 milhões de pacientes com diabetes. Por que não olhar para este paciente?”, indaga a executiva. “Pessoalmente, acho que deveria ser incorporado. Os benefícios já estão comprovados.”
“Caneta do médico”
Se a Sandoz é a responsável pela produção e a chegada da Owozy no Brasil, a promoção e a distribuição ficarão a cargo da farmacêutica brasileira Biolab, dada a grande presença da empresa junto à classe médica.
Hoje, a companhia realiza cerca de 35 mil visitações médicas ao mês, e, a partir de agora, a caneta emagrecedora terá “prioridade da grade” entre os representantes da Biolab. O plano é de estar mais próximo aos médicos para garantir a prescrição do produto, já que o GLP-1 precisa de receita médica.
“O papel do médico é preservar e orientar o paciente. Vamos dar foco total para isso e dar esse conforto na hora deste profissional receitar o remédio. Queremos ser um player importante nesse setor e ser reconhecidos como a caneta do médico”, diz Fábio Amorosino, presidente da Biolab, ao NeoFeed.
A estratégia também envolve oferecer em conjunto uma cesta de produtos da companhia relacionados ao tratamento, como o suplemento Sarcoplex, para manutenção de massa magra, e o Vonau, para combater enjoo, um dos principais efeitos colaterais a quem usa a semaglutida.
Segundo o executivo, o produto virá ao mercado com um “preço competitivo” em relação aos medicamentos que hoje estão disponíveis. O Ozivy, por exemplo, pode ser encontrado a R$ 450.
O plano é de lançar um pacote para tratamento de três meses, além da possível indicação, com desconto, para os outros medicamentos da Biolab. Ele não revela o preço. De qualquer forma, Amorosino afirma que o valor final do produto não é o único ponto, na visão dele, que deverá ser levado em conta pelo paciente.
“A competitividade não será sustentada apenas pela pressão do preço. Também vai ser sustentada pela força da nossa entrega e pelo valor percebido pela classe médica. E nós temos um grande relacionamento com os médicos. Seremos bastante competitivos, mas sem entrar na guerra de preços”, afirma Amorosino.