Nova York — “No dia 11 de setembro de 2001, aconteceu uma 'grande emergência' em Nova York, na qual muita gente se machucou e sentiu medo. Outros foram heróis ao ajudar as pessoas e trabalhar juntos para apoiar e servir suas comunidades.”

É dessa forma que um material didático feito para professores americanos de crianças de 4 a 8 anos, do jardim de infância à 2ª série , orienta a abordagem sobre os ataques suicidas às Torres Gêmeas — o evento mais televisionado do mundo, que deixou, em uma manhã, quase 3 mil vítimas fatais, e o recorde nacional de 343 bombeiros mortos.

Nas torres, perderam a vida 372 estrangeiros de cerca de 90 nacionalidades, incluindo três brasileiros: Ivan Kyrillos, Anne Marie Ferreira e Sandra Fajardo Smith.

“Usar as palavras 'aniversário', 'emergência', 'herói', 'memória' e 'serviço'", lê-se no material, preparado pela organização não-governamental NaliniKIDS em conjunto com a Fundação Nacional dos Bombeiros Falecidos. “Não use 'ataque', 'terror', 'batida', 'colapso' ou 'fogo'."

Vinte e cinco anos após os atentados, este guia faz parte da seleção que o Departamento de Educação de Nova York agregou. Ele foi criado para dar um norte aos professores de todas as séries escolares que desejam incluir o assunto em Estudos Sociais. O tema não é obrigatório, assim como a data não é feriado nacional nem estadual. Em 11 de setembro, as escolas nova-iorquinas funcionam normalmente.

A lista de recursos aos docentes reúne, além de 16 livros, cerca de 20 links para páginas de museus, sites de imprensa, ideias para atividades, documentários, textos que ensinam como lidar com crianças vítimas de traumas.

E ainda inclui um parágrafo que diz: “Ensinar sobre os ataques de 11 de setembro pode ser um desafio. Para aqueles que se lembram daquele dia, revisitar essas memórias pode despertar sentimentos de luto e dor; para aqueles que não vivenciaram o acontecimento, pode ser difícil compreender e explicar a dimensão de seu impacto”.

O primeiro avião atingiu a Torre Norte às 8h46; o segundo, a Torre Sul às 9h03, no horário de Nova York (Foto: Reprodução Youtube)

Retratos no museu do 11 de Setembro preservam a memória das vítimas dos ataques (Foto: 911memorial.org)

Os dois espelhos d’água ocupam o lugar das Torres Gêmeas e homenageiam as vítimas dos ataques (Foto: 911memorial.org)

O nome das quase 3 mil vítimas dos ataques terroristas estão gravados nas bordas dos espelhos d'água (Foto: 911memorial.org)

O Squad 1, grupo de bombeiros que registrou o maior número de perdas, homenageia seus 12 mortos, mas não aborda a tragédia durante as visitas regulares de crianças à unidade (Foto: Tania Menai)

De fato, o impacto é imensurável. Após o colapso das torres, o fogo continuou queimando por 99 dias. As botas dos bombeiros derretiam, enquanto eles buscavam por corpos — uma atividade que durou quase um ano.

O canal de televisão CNN deixou uma webcam ao vivo por oito meses, retratando a limpeza dos escombros. Muitos dos trabalhadores que fizeram esta tarefa passaram, ao longo das últimas duas décadas, a sofrer problemas respiratórios, câncer e outras doenças, devido à falta de qualidade do ar — assunto levantado esta semana pelo prefeito Zohan Mamdani, ao tornar público documentos até então ocultados por outros governos.

Nesta semana, o jornal digital Chalkbeat, especializado em educação, publicou um questionário para saber de que forma os professores estão abordando o tema neste ano. O desafio é ainda maior porque as aulas começaram em 10 de setembro. “Muitos dos professores estavam lecionando em sala de aula no dia 11 de setembro de 2001. Outros eram estudantes”, diz o texto.

Apesar dos recursos disponíveis para o ensino da tragédia, há uma distância emocional significativa dos nascidos nas últimas décadas.

Ouvidos pelo NeoFeed, seis alunos do Brooklyn, hoje com 16 anos e cursando a 11ª série em diferentes escolas públicas, relatam experiências diversas: alguns passaram pelo tema superficialmente na 8ª série. Outros, aprenderam de maneira mais aprofundada, com direito a apostila. Há quem nunca tenha se debruçado sobre o assunto, mas aprenderam com os pais. E nenhum deles visitou o local com a escola.

Não é por falta de incentivos, apenas, talvez, de estômago: inaugurado em 2014, o 9/11 Memorial & Museum oferece tours gratuitos para estudantes entre a 3ª e 12ª séries matriculados em escolas de Nova York, Nova Jersey e Connecticut.

Ali estão 83 mil artefatos que recontam a história dos atentados. No vídeo de divulgação do projeto, Jennifer Lagasse, diretora de educação do museu, explica que a visita dá tanta importância ao 11 quanto ao 12 de setembro, símbolo do mundo transformado pelos ataques. “Esta geração herdou uma nova realidade”, diz Jennifer.

O museu fica no complexo onde as torres existiam. Famílias de falecidos lutaram para que não fossem erguidos prédios no espaço. O novo World Trade Center, batizado de Freedom Tower, fica a poucas quadras dos originais.

No lugar ocupado por cada uma das torres, dois grandes espelhos d’água homenageiam as vítimas cujos nomes estão gravados em mármore nas bordas. Ainda há uma árvore para cada um dos mortos.

“O fato de eu ter nascido e crescido em Nova York, me conectou com os eventos de 11 de setembro mais do que pessoas da minha idade que não cresceram na cidade”, diz ao NeoFeed Gabriela Chiavenato, de 25 anos, filha de um casal de paulistanos. “Meu namorado é de Kentucky e sabe bem menos sobre os eventos do que eu.”

Ao contrário de muitas escolas, Gabriela foi exposta ao assunto por professores durante a adolescência. “No Ensino Fundamental II e no Ensino Médio fiz pesquisas e apresentações sobre o tema, e visitei o 9/11 Memorial & Museum com a escola", afirma. "No entanto, minha conexão com o evento foi mais factual do que emocional.”

”Só hoje consigo me conectar com os relatos de quem viveu aquele dia: várias pessoas tinham a minha idade, e fico imaginando o que eu faria no lugar delas”, conta Gabriela. “Também não posso imaginar como os aeroportos não tinham o TSA", acrescenta, referindo-se à agência americana de segurança dos transportes, criada em novembro de 2001.

Se Gabriela não viveu o 11 de setembro, cresceu em um mundo em que os atentados se tornaram mais frequentes: entre 2002 e 2011, o número de ataques terroristas mais que quadruplicou ao redor do planeta, segundo o Instituto para Economia e Paz. “Isso me faz mais alerta ao ir a concertos de música e lugares públicos em geral”, conta ela.

Ao mesmo tempo, o Squad 1, unidade de bombeiros no Brooklyn que registrou o maior número de perdas entre as demais, lembra do evento com o nome e foto de cada um dos 12 mortos colocados na fachada do prédio.

Inseridos na comunidade do bairro Park Slope, eles recebem crianças de jardim de infância das escolas públicas locais para ensinarem sobre os perigos do fogo, e mostrarem como eles se vestem para que elas não se assustem caso um dia tenham de ser socorridas por algum deles.

Falam sobre salvar vidas. Mas não sobre o 11 de setembro.