Em um cenário de juros altos e empresas alavancadas, a diversificação pode ser a palavra-chave para viabilizar uma agenda de R$ 1,2 trilhão no saneamento. Esse é o volume de capital que o setor terá que mobilizar para universalizar os serviços no País, segundo estudo do Itaú BBA em parceria com a consultoria Inter.B.

A distância entre os investimentos previstos e os necessários dimensiona o desafio, mas também a oportunidade para investidores. O levantamento estima que seriam necessários R$ 95,2 bilhões por ano para cumprir as metas de universalização até 2033, mais do que o dobro da média anual prevista no pipeline atual: R$ 40,3 bilhões.

O Marco Legal do Saneamento estabelece como objetivo atender, até lá, 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.

Para o Itaú BBA, a regulação criou um ambiente mais favorável aos investimentos em um setor marcado por demanda resiliente, contratos de longo prazo e previsibilidade de receitas. Esse avanço já aparece nos números: o pipeline contratado e anunciado soma R$ 201,5 bilhões entre 2026 e 2030, com pico de R$ 44,2 bilhões em 2027.

A expansão também tem atraído novos investidores nos últimos anos, entre eles players financeiros, como Patria e Perfin, além de grupos estrangeiros, caso da espanhola Acciona. Os executivos do Itaú BBA avaliam que há espaço para ampliar essa base.

"Vemos apetite e, pelo menos, conversas de possíveis novos entrantes, assim como observamos no setor de rodovias nos últimos anos", diz Eduardo Corsetti, co-head da diretoria de Infraestrutura & Energia do Itaú BBA, ao NeoFeed.

A expansão desse leque ganha importância em um momento em que grandes players que protagonizaram leilões anteriores, como Aegea e Iguá, já têm compromissos relevantes de investimento que ocupam espaço em seus balanços, em um ambiente macroeconômico desafiador.

"O cenário de juros altos acaba impactando o nível de alavancagem das companhias que entraram em vários novos projetos. É natural no primeiro momento, por todo o capex realizado, e depois vão desalavancando ao longo do tempo", afirma Corsetti.

A necessidade de diversificação convive com dificuldades para tirar novos projetos do papel e atrair competição. Apesar da expectativa inicial de um ano movimentado, apenas dois leilões foram realizados em 2026: as parcerias público-privadas (PPPs) da Paraíba e do Ceará, ambas com apenas um concorrente.

Na disputa cearense, quatro blocos ficaram sem interessados. Já o projeto da Saneamento de Goiás (Saneago) foi adiado, sem nova data. O próximo certame previsto é o da PPP de Rondônia, em 29 de setembro.

Para Rogério Yamashita, responsável pela área de infraestrutura em project finance no Itaú BBA, a baixa competição nos leilões recentes passa mais pela estruturação dos projetos do que pela disponibilidade de capital. "Até hoje não vi nenhum projeto bom ficar sem ter um sponsor ou financiadores", afirma.

O executivo pondera que uma carteira recorrente de projetos é fundamental para atrair empresas internacionais e permitir que esses grupos ganhem escala no País. A modelagem também deve se adaptar às particularidades de cada região, como renda, cobertura dos serviços e inadimplência.

"Não existe solução única. Podemos falar em privatização, concessão, PPP. Cada desafio tem uma solução própria", diz Yamashita.

A dimensão da agenda se reflete ainda no potencial impacto sobre a economia. O estudo estima que a expansão do saneamento pode elevar o PIB potencial brasileiro entre 0,36 e 0,46 ponto porcentual no médio e longo prazo, com ganhos associados à expansão do capital físico, à saúde e à educação.

Todas as fontes na mesa

A diversificação também passa pelas fontes de financiamento. Para Corsetti e Yamashita, o tamanho da agenda exigirá combinar recursos do mercado de capitais, de bancos comerciais e de instituições de fomento.

"Tem tanta necessidade de investimento que a gente não pode prescindir de nenhuma fonte. Não dá para recusar nada", afirma Yamashita.

As debêntures de infraestrutura já ganharam peso nesse cardápio. De 2020 para cá, o saneamento registrou cerca de R$ 67 bilhões em emissões, segundo levantamento do banco. Antes do Marco Legal, a participação do setor nesse mercado era praticamente inexistente.

Os bancos comerciais também começam a ampliar sua atuação. O próprio Itaú BBA, que operava de forma tímida no Saneamento para Todos, passou a aprovar limites de longo prazo para a linha, com financiamentos de até 20 anos, segundo Corsetti.

2033 ainda é possível?

Apesar da aceleração dos investimentos desde a aprovação do Marco Legal, Claudio Frischtak, sócio-fundador da Inter.B Consultoria, não acredita que o Brasil conseguirá alcançar a universalização em 2033.

Para ele, cumprir esse objetivo até 2043 já seria um "desempenho espetacular", diante do esforço necessário de financiadores, empresas e governos.

Independentemente do prazo, os ganhos da universalização vão além dos investimentos em infraestrutura. A melhoria dos serviços reduz a incidência de doenças de veiculação hídrica e o absenteísmo, além de favorecer o aprendizado e a produtividade, segundo o estudo.

"O saneamento básico é um dos investimentos com maior impacto no capital humano que o país pode fazer. De modo mais geral, a taxa social de retorno nesse setor é uma das mais elevadas entre todos os investimentos em infraestrutura", afirma Frischtak.