Miami - O Nubank anunciou nesta quinta-feira, 10 de setembro, o início de sua operação nos Estados Unidos e o lançamento de um produto financeiro global. O anúncio, guardado a sete chaves até a última hora, foi feito pelos fundadores David Vélez e Cristina Junqueira no Nu Stadium, casa do Inter Miami de Lionel Messi, em Miami, e reuniu mais de 250 pessoas entre analistas, investidores e jornalistas da América Latina, Estados Unidos e Europa.
O anúncio é a materialização de um plano que a companhia vinha desenhando havia pelo menos um ano e meio e, na call do resultado do quarto trimestre de 2024, Velez tornou pública a “Estratégia de Três Atos”. Primeiro, a consolidação na América Latina; segundo, a expansão para outras verticais dentro dos mercados já atendidos; e o terceiro, chegar a “um modelo global de banco digital impulsionado por IA”.
O NeoFeed questionou, em coletiva de imprensa, se o lançamento hoje marcava o início desse último ato — o que foi confirmado por Vélez. “Está começando hoje, sim [...] a gente toma hoje o passo de basicamente ir de uma fintech brasileira ou de uma fintech da América Latina a uma empresa de [serviços] financeiros globais, que é a nossa ambição.”
Nos Estados Unidos, a operação nasce batizada de Nu US, oferecendo uma conta com rendimento de 3,5% ao ano sobre o saldo, cartão de débito de metal e transferências gratuitas para qualquer conta do Nubank do Brasil, México e Colômbia. O Nubank também oferecerá um cartão de crédito sem anuidade em parceria com Mastercard e com 1,5% de cashback ilimitado em compras.
Ainda sem a licença de banco nos Estados Unidos, a operação será feita em parceria com o Lead Bank, uma instituição financeira americana que já custodia depósitos de outras fintechs estrangeiras nos EUA, incluindo a Revolut.
O Nubank pediu uma licença bancária nacional (national bank charter) ao regulador americano OCC em setembro de 2025 e recebeu aprovação condicional em janeiro deste ano. Mas, segundo Vélez, a expectativa é operar como banco pleno nos Estados Unidos apenas a partir do ano que vem.
Entrar nos Estados Unidos é o sonho de qualquer banco digital com ambições globais. A britânica Revolut está nos EUA desde 2020 via banco parceiro — o mesmo Lead Bank — e só obteve aprovação condicional do OCC para sua própria carta bancária na semana passada, seis meses depois de ter protocolado o pedido. O Inter, que opera no país desde 2021, quando comprou a fintech Usend, só neste ano conseguiu evoluir para uma estrutura bancária própria no país.
Embora a população americana seja 50% maior que a brasileira, onde o Nu é líder em número de contas, a ambição pelos Estados Unidos está na qualidade do cliente e não na quantidade. Pelas estimativas da casa, cada cliente americano vale cerca de 10 vezes um brasileiro, devido aos efeitos do câmbio e diferencial de renda entre os dois países.
“Ter 10 milhões de clientes nos Estados Unidos têm um valor parecido a 100 milhões de clientes no Brasil”, disse Cristina Junqueira, cofundadora e CEO do Nu US. Nessas condições, ter 15% do mercado americano, segundo ela, teria potencial de triplicar o valuation do Nubank.
Atualmente, o Nubank vale cerca de US$ 73 bilhões em bolsa. Desde fevereiro de 2025 — mês em que Vélez apresentou a Estratégia de Três Atos —, a ação avançou cerca de 40%, negociada hoje a US$ 15,03. Na comparação com o fim de 2022, quando valia US$ 4,07, o papel praticamente quadruplicou de valor, um avanço de quase 270%. Neste ano, porém, a ação ainda opera em cerca de 10% de queda.
O desempenho da ação do Nubank em 2026 reflete preocupações que o próprio mercado já vinha sinalizando com a qualidade de crédito da carteira e o ceticismo sobre a real capacidade de um banco digital latino-americano competir de igual para igual nos Estados Unidos.
Vélez, porém, argumenta que a vantagem competitiva do Nubank nos Estados Unidos é ainda maior do que a que a empresa teve na América Latina. Segundo ele, os incumbentes brasileiros somam 100 milhões de clientes e 100 mil funcionários, enquanto os americanos, 80 milhões de clientes e 400 mil funcionários – uma estrutura de custo, diz, “muito mais cara”.
“Hoje, a gente gasta mais ou menos um dólar para servir os nossos clientes, na média. Você pega um bancão aqui nos Estados Unidos, divide o custo dele de operar, provavelmente é mais de US$ 20”, afirma.
Vélez também minimizou a rivalidade com outras fintechs, como Revolut. “O concorrente ainda são os grandes bancos incumbentes ao redor do mundo, que têm 95% do mercado”, disse. “Se os bancos dos Estados Unidos pagassem a taxa livre de risco do Treasury, hoje em 4,5%, seriam mais ou menos 600 bilhões de dólares que iriam dos bancos para os clientes.”
Esse dinheiro fica hoje retido nos bancos tradicionais, na avaliação do executivo, para financiar a estrutura de agências e funcionários que o Nubank promete não precisar replicar.
Na conta Nu Global, que o Nubank também lançou nesta quinta-feira, os clientes terão acesso a uma conta digital multimoeda e disponível de imediato em mais de 35 países — incluindo Chile, Peru e França.
Diferentemente da Nu US, o produto não depende de licença bancária local, já que os depósitos são convertidos em stablecoins — dólar digital (USDC) ou euro digital (EURC) —, com rendimento diário de 3,5% e 2,2% ao ano, respectivamente, além de um cartão virtual Mastercard para gastos internacionais sem tarifa.
“O que a stablecoin viabiliza é a facilidade de, efetivamente, abrir uma conta em dólares, em euros, ganhar uma rentabilidade alta — hoje já acima de 90% do que os bancos europeus oferecem”, disse Vélez. “É uma tecnologia que acelera o plano do Nubank de expansão.”
O início do que Vélez chama de “último ato” vem embalado por um trimestre recorde na América Latina. O Nubank encerrou o segundo trimestre de 2026 com mais de 140 milhões de clientes, lucro líquido acima de US$ 1 bilhão e retorno sobre patrimônio líquido (ROE) de 33%.
No Brasil, a companhia já é a maior instituição financeira privada em número de clientes, com cerca de 118 milhões correntistas, enquanto chegou a 16 milhões de clientes no México, se tornando o maior banco digital do país.
Na Colômbia, terra natal de seu fundador, o Nu superou a marca de 5 milhões de clientes, é a quarta maior instituição financeira do país em depósitos e lidera em emissão de novos cartões de crédito.