Maior empresa privada de saneamento do Brasil, a Aegea anunciou na terça-feira, 7 de julho, por meio de fato relevante, a convocação de seus acionistas para uma Assembleia Geral Extraordinária, marcada para 28 de julho, com o objetivo de deliberar sobre um aumento de capital social de até R$ 2,1 bilhões visando o fortalecimento da estrutura financeira da companhia.

A operação será realizada por meio da emissão de até 37.979.634 ações ordinárias, com preço unitário de aproximadamente R$ 55,29. Uma hora após o anúncio, a Itaúsa - terceiro maior acionista da Aegea – informou que, a depender de como os demais acionistas exercerem seus respectivos direitos, poderá subscrever, dentro do prazo de 30 dias, um montante entre aproximadamente R$ 730 milhões e R$ 1,5 bilhão na operação.

A Itaúsa detém 10,91% do capital votante e 13,27% do capital total da Aegea. Isso lhe confere poder de influência, mas não de controle, já que a empresa é controlada pela Equipav (68,69% dos votos) e tem o GIC (20,40%) como segundo maior acionista.

Os anúncios ocorrem num momento em que a Agea - presente em 15 estados e 893 municípios, atendendo mais de 39 milhões de pessoas – vive uma combinação de crescimento robusto e pressão significativa após uma série de más notícias recentes.

Em 2025, a empresa registrou receita de aproximadamente R$ 18,3 bilhões, um avanço superior a 20% em relação ao ano anterior. O Ebitda também cresceu, alcançando R$ 10,3 bilhões, refletindo a maturação gradual das concessões.

Apesar disso, o lucro líquido caiu para R$ 856 milhões, uma redução de 31%, evidenciando o impacto do aumento das despesas financeiras e dos ajustes contábeis recentes.

O endividamento é hoje o maior ponto de atenção: a dívida líquida atingiu R$ 47 bilhões, com alavancagem de 4,5 vezes o Ebitda, nível considerado elevado para o setor de infraestrutura.

Em abril, o mercado recebeu com cautela a divulgação do balanço anual da Aegea, após uma sequência de atrasos provocada por uma revisão contábil abrangente nas demonstrações financeiras da companhia, que revelaram um rombo de cerca de R$ 5 bilhões no patrimônio líquido, obrigando a empresa a reclassificar resultados de anos anteriores e reduzindo o lucro reportado de 2024.

As agências de rating reagiram rapidamente: S&P e Fitch rebaixaram a nota de crédito da Aegea para grau especulativo, elevando o custo de captação e pressionando ainda mais a estrutura de capital.

Maré negativa

Além das questões financeiras, a empresa enfrenta danos reputacionais decorrentes de um acordo de leniência firmado após a admissão de pagamento de R$ 63 milhões em propina em seis estados e 20 municípios entre 2024 e 2025. O acordo prevê o pagamento de R$ 439 milhões à União, reforçando a necessidade de governança mais rígida e transparência.

Mais recentemente, no início de junho, a Aegea amargou outro golpe, ao perder a disputa pela privatização da estatal de saneamento mineira Copasa para a Equatorial - definida como sua acionista de referência, depois de se comprometer a injetar até R$ 7,9 bilhões na empresa mineira.

A Equatorial, que faz parte do bloco de acionistas de referência da Sabesp, foi a única concorrente na fase final da privatização, depois que a Aegea Saneamento e seus acionistas optaram por não apresentar uma nova proposta.

Mesmo com esses desafios, a Aegea continua sendo um ator central na transformação do saneamento brasileiro. Seu portfólio ainda está em fase de maturação — cerca de 80% das concessões foram assumidas nos últimos anos — e a empresa aposta que, com capitalização adicional e ajustes de gestão, poderá retomar o ritmo de expansão.

Nesse contexto, o IPO da empresa, antes previsto para 2026, foi adiado para 2027, refletindo o momento de reestruturação interna.