José Galló está angustiado. Não tanto com a situação do varejo, setor em que trabalhou por mais de 30 anos, sendo 27 deles como CEO da Renner, período em que transformou a rede gaúcha em um dos maiores nomes da moda do País, atualmente avaliada em R$ 15 bilhões.

Suas preocupações estão voltadas para o macro. No caso, o rumo que o País está tomando, na política e na economia, por conta da visão de curto prazo da classe política.

“O que realmente me preocupa é o país que estamos construindo”, diz Galló, em entrevista ao NeoFeed. “Hoje, está todo mundo pensando em eleição.”

Galló, 74 anos, entende que os políticos deixaram de pensar no País, assumindo pautas prejudiciais à economia, que, por sua vez, terão consequências nefastas para a sociedade.

Uma de suas principais críticas é em relação à produtividade. Ou melhor, à perda de produtividade. Para ele, pautas como o fim da escala 6x1 e os baixos investimentos em educação demonstram uma desconexão dos políticos com a realidade brasileira, legando ao futuro um país despreparado para competir com o mundo.

“Muitos políticos nunca trabalharam no setor privado e não têm dimensão das consequências que determinadas decisões provocam na economia e na vida das pessoas”, afirma Galló.

Essa falta de visão tem reflexos sobre o varejo. Além dos efeitos do fim da escala 6x1, o executivo destaca as consequências do fim da “taxa das blusinhas”, reduzindo a isonomia competitiva para varejistas menores, e das bets, que prejudicam o poder de compra da população.

“Você vê pessoas tentando resolver o próprio endividamento apostando em bets, acreditando que vão conseguir dinheiro para pagar prestações. Como é possível uma coisa dessas?”, questiona.

Para Galló, os empresários precisam voltar a se articular e cobrar Brasília por decisões prejudiciais ao Brasil, mas ele destaca que o cenário político está muito diferente.

“O Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado, ficou muito mais individualizado, com cada parlamentar pensando mais em si mesmo. Como consequência, tornou-se muito mais difícil reunir pessoas, discutir e encontrar soluções que sejam boas para o País”, afirma.

Desde que deixou a Renner, em 2024, Galló tem se dedicado aos investimentos em uma série de empresas e startups por meio da gestora Quartz, que fundou em parceria com o filho, Christiano, e outros sócios. O portfólio reúne cerca de 16 investimentos em áreas como cosméticos, serviços financeiros, suplementos e saúde.

Além de aconselhar algumas das investidas da Quartz, Galló é membro do conselho editorial da RBS e do conselho de administração da Agência de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (Invest/RS).

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Vivemos um momento bem inusitado no varejo, com impactos de bets, juros e taxa das blusinhas. Como o senhor vê o segmento e sua situação?
O varejo tradicional, analógico, começou a conviver com o surgimento das ferramentas digitais. Com isso, tornou-se mandatória uma transformação, porque a internet e os smartphones mudaram tudo. As empresas tiveram de se adaptar, permitir que o cliente compre onde quiser. Mas a moda não vende apenas produtos; vende experiências. É um setor que é um misto de varejo e lazer. Ir ao ponto de venda tornou-se uma forma de entretenimento. O online continua importante, mas as grandes empresas de moda também estão indo bem. Acabou aquela história de crescer 15% ao ano, mas ainda é possível crescer 2%, 3% ou 4% acima da inflação.

O senhor entende, então, que é justamente esse modelo de experiência que permite competir com as plataformas asiáticas, muitas vezes acusadas de praticar preços muito abaixo do mercado? Esse é o caminho para o varejo?
Eu acho que algumas plataformas asiáticas não praticam uma concorrência leal. No vestuário, especificamente, basta lembrar da chamada "taxa das blusinhas". É um absurdo permitir que produtos entrem no País com praticamente nenhuma carga tributária, enquanto o varejo arca com algo entre 80% e 90% do custo para colocar um produto no mercado. As grandes empresas nacionais conseguem oferecer mais qualidade. Quem sofre são os pequenos, os médios e os informais. Aliás, muitos informais foram substituídos por plataformas que, em muitos casos, operam na informalidade.

E, no caso das bets, como o senhor vê o impacto delas no varejo de moda? O setor de alimentos já relata perda de consumo.
As bets afetam todos os segmentos, inclusive o vestuário. Acontecem barbaridades. Você vê pessoas tentando resolver o próprio endividamento apostando em bets, acreditando que vão conseguir dinheiro para pagar prestações. Como é possível uma coisa dessas? Que país nós estamos construindo? Esse é um problema muito mais grave do que uma questão específica do varejo. O que realmente me preocupa é o país que estamos construindo. Quando você soma bets, incentivos a plataformas informais — e não estou dizendo que todas sejam informais — e toda essa permissividade, muitas vezes motivada por interesses eleitorais, a preocupação aumenta muito.

Aproveitando essa reflexão sobre o país, queria falar um pouco de política econômica. Estamos em um momento de eleições. O senhor tem acompanhado as discussões dos candidatos? O que espera ver em relação aos principais problemas do país?
Antes mesmo de falar dos candidatos, eu gostaria de falar de um problema que considero fundamental: o analfabetismo. Normalmente pensamos nas pessoas que não sabem ler ou escrever. Mas existe um outro tipo de analfabetismo, que é o analfabetismo funcional. Na minha percepção, ele atinge uma parcela ainda maior da população. Esse analfabetismo funcional é terrível para o país. Prejudica as pessoas, que entram no mercado de trabalho com enormes dificuldades. Isso reduz a produtividade. Essa é uma das razões de termos uma produtividade tão baixa no Brasil.

"Estamos aumentando o endividamento enquanto competimos com países que apresentam produtividade muito superior à nossa"

Olhando para a economia e para o varejo, como o senhor avalia as discussões? Os principais problemas estão sendo tratados no debate político? Quais são, na sua opinião, as prioridades?
Hoje existe a questão dos juros, que realmente é insuportável. Mas por que temos juros tão altos? Porque existe um Banco Central tentando moderar o consumo para controlar a inflação. Temos uma expansão permanente de benefícios sociais e programas de transferência de renda associados ao calendário eleitoral. Isso prejudica o País. Nosso maior problema continua sendo a produtividade, mas estamos discutindo reduzir horas trabalhadas, quando ainda temos um nível educacional baixo da força de trabalho. Sem educação, não conseguiremos elevar a produtividade. E, sem produtividade, o Brasil continuará sendo o país do futuro que nunca chega.

A respeito do ponto da produtividade, como avalia a proposta do fim da escala 6x1?
Muitos políticos nunca trabalharam no setor privado e não têm dimensão das consequências que determinadas decisões provocam na economia e na vida das pessoas. E depois que a mudança é aprovada, muitas vezes não há mais como voltar. Existem outras formas de discutir produtividade, mercado de trabalho e liberdade econômica. Hoje discutimos jornadas menores de trabalho, enquanto países como a China praticam rotinas mais intensas. Vejo muitos projetos sendo aprovados sem que se pense em quem pagará essa conta no futuro. Estamos aumentando o endividamento enquanto competimos com países que apresentam produtividade muito superior à nossa.

Qual a principal questão envolvendo o setor político?
Hoje, está todo mundo pensando em eleição. Tenho a impressão de que os líderes partidários já não controlam mais seus próprios partidos. O Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado, ficou muito mais individualizado, com cada parlamentar pensando mais em si mesmo. Como consequência, tornou-se muito mais difícil reunir pessoas, discutir e encontrar soluções que sejam boas para o país.

Como o senhor vê o posicionamento da classe empresarial nesse cenário de polarização?
Eu acho que agora, diante de alguns descalabros que estão sendo propostos, a situação está começando a incomodar mais. Nos últimos anos, houve uma desarticulação de diversos movimentos empresariais. Eu participei de várias entidades representativas. Anos atrás, quando surgiam propostas que poderiam prejudicar significativamente o país, os empresários se reuniam, iam a Brasília e dialogavam com os políticos. Havia muito mais espaço para discussão e negociação.

Qual a opinião do senhor a respeito da IA? Ela é realmente transformacional?
A IA é inevitável. Ela é uma tecnologia e, como toda tecnologia, é um meio, não um fim. Foi assim com os computadores, com a internet. Não adianta ter medo. Pesquisas com executivos mostram que uma das maiores preocupações hoje é justamente como a IA vai transformar suas empresas. Mas só existe uma forma de enfrentar essa preocupação: começar a entender a tecnologia, conhecê-la, envolver a equipe, implementar soluções e fazer a transformação acontecer. Daqui a cinco anos, provavelmente não estaremos mais falando sobre IA, porque ela já estará incorporada ao dia a dia das empresas.

Quais os efeitos da IA para o varejo?
Praticamente todas as empresas estão procurando fazer alguma coisa nessa área. Por enquanto, a maioria está resolvendo questões mais básicas, e não mudanças estruturais. Isso é natural. As empresas estão experimentando. O grande desafio é fazer com que novas tecnologias sejam incorporadas por toda a organização. Não adianta implantá-las apenas em um departamento. As áreas funcionam de maneira integrada. O grande desafio da liderança é garantir que todas elas participem desse processo. Caso contrário, você cria ilhas isoladas, feudos, e a tecnologia perde grande parte da sua eficácia.