Brasília — Um movimento de mulheres executivas nos mais altos cargos de liderança vem chamando atenção no setor elétrico: por meio de alguns grupos (de WhatsApp ou reuniões) e atuação articulada e organizada, elas já presidem oito das maiores entidades do segmento no Brasil — ao todo ocupam 12 postos de liderança, incluindo direção e vice-presidência.

Na visão do setor de energia, a atuação feminina encontra um ambiente propício hoje para cargos executivos no setor, historicamente ocupado por homens, especialmente engenheiros. E vem pedindo cada vez mais espaço, tanto no setor privado quanto no público.

Atualmente, as entidades Abeeólica (energia eólica), Abrage (geração hidrelétrica), Abradee (distribuidoras), Abrate (transmissão), Abragel (geração), Abiogás (biogás e biometano), ABIHV (hidrogênio verde) e Adelat (distribuição de energia na América Latina) são comandadas por mulheres, grande parte egressa do próprio setor. E apenas neste ano, três novas presidentes assumiram essa mais alta função.

Elas vêm articulando presença na diretoria ou presidência-executiva das principais associações da área de energia. E também participam até da indicação de nomes para postos em órgãos públicos como Aneel, Ministério de Minas e Energia, assessorias técnicas no Congresso Nacional, etc.

Em 2018, foi criado um movimento chamado “Sim, Elas Existem”, que organiza listas com nomes de mulheres do setor aptas para ocupar cargos públicos. Nesse ano, o grupo vai entregar sua terceira lista aos presidenciáveis.

Para Agnes Costa, diretora da Aneel, e uma das idealizadoras da iniciativa, sempre existiram mulheres no setor de energia com competência para exercer posições de liderança, mas antes havia um certo medo delas de se engajarem na causa.

“O próprio setor enxerga hoje que as mulheres têm essas competências, porque antes ninguém enxergava e nem falava disso”, disse Costa ao NeoFeed. “Nossa maior contribuição foi colocar isso como uma discussão pública e sem as pessoas terem receio de tratar do assunto”, acrescentou ela, que é gestora pública de carreira e foi assessora econômica de ministérios e órgãos de energia por 18 anos

Segundo Costa, o movimento que deu origem às listas nasceu também de uma inquietação um ministro do governo do ex-presidente Michel Temer declarar que não havia mulheres no ministério à época por falta de quadros competentes. E foi impulsionada, após um curso em Harvard sobre liderança feminina. Mas pondera: “Nem tudo são flores. Em 30 anos de Aneel, eu sou apenas a terceira mulher na diretoria e, atualmente, a única.”

No setor privado, uma das pioneiras foi Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica por 15 anos. Antes, ela trabalhou com a ex-presidente Dilma Rousseff quando esta ainda era ministra de Minas e Energia, e chegou a liderar a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCE).

Ela conta que existe um grupo no WhatsApp, intitulado “Mulheres de Energia”, que reúne mais de 100 mulheres do setor elétrico e promove interações e estimula a presença feminina em posições na iniciativa privada.

“É um movimento de ajuda, um clube. Se a gente vai num evento e só tem homem, a gente critica, pressiona para botar mais mulher e, claro, por sua competência, não só porque é mulher”, ressalta Gannoum.

“A gente sempre discutia que não tinha mulher em associação e sentimos a necessidade de trazê-las para a presidência das entidades. Hoje, as entidades começaram a querer mulheres.”

Apenas em 2026, três novas executivas assumiram a presidência de três entidades do setor. Com 30 anos de experiência na área de energia, sendo uma das fundadoras da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e diretora da CCE e da Abesolar, Talita Porto, presidente-executiva da Abrate, entende que esse cenário de várias executivas na presidência de entidades reflete um amadurecimento do setor.

“Mas essas mulheres também já ocupavam, por muitos anos, postos e acumularam experiência na área regulatória que as habilitou para essas funções”, afirma Porto, que está à frente da associação desde fevereiro.

A executiva é um claro exemplo dos desafios que essas novas lideranças do setor vêm encarando: após um período de investimentos da ordem de R$ 90 bilhões feitos desde 2023 por meio de leilões, o segmento de linhas de transmissão vai demandar mais R$ 148 bilhões na próxima década.

Já Patrícia Audi, que preside a Abradee (distribuidoras de energia elétrica), não é egressa do setor elétrico, mas teve grande experiência em liderança no setor financeiro (Santander) e também setor público (INSS, CGU), além da área internacional (OIT).

Ela avalia que hoje o setor de energia demanda mais esse perfil executivo, com trânsito no Congresso Nacional, poder público e foco em inovação e modernização do setor, além de relacionamento institucional.

"Um perfil mais executivo e menos técnico. E todas essas mulheres que vêm ocupando os cargos de liderança no setor [de energia] têm esse perfil”, afirma Audi, que está no cargo há três meses.

Os grupos de mulheres no segmento de energia vêm avançando tanto que já há inclusive iniciativas que estimulam a capacitação, mentoria para lideranças e até conselho consultivo. É o caso das “Mulheres do Biogás”, um grupo de mensagens que reúne mais de 300 profissionais desse setor.

“Hoje já temos alguns movimentos para impulsionar mais a presença das mulheres no setor elétrico. As próprias mudanças do mercado, transição energética, acabaram abrindo oportunidades para cargos multidisciplinares e essas lideranças”, analisa Josiane Napolitano, presidente-executiva da Abiogás, entidade recente.

“Meu papel é fortalecer o meu setor para que ele tenha escala e possa crescer”, acrescenta ela, que disse nunca ter passado por situações de discriminação de gênero no ambiente de trabalho, mas reconhece que já foi a única mulher no começo da trajetória profissional.