A HMC Capital anunciou uma parceria com a Neuberger para distribuir os fundos da gestora americana no Brasil. O acordo inclui a linha completa de produtos da Neuberger, dos líquidos aos dedicados a ativos ilíquidos, como private equity.
Com cerca de US$ 567 bilhões sob gestão e presença em 26 países, a Neuberger é uma das maiores gestoras independentes do mundo. Fundada em 1939, a firma administra carteiras de ações, renda fixa, mercados privados, imobiliário e multimercado para instituições globais, consultores e pessoas físicas.
A parceria no Brasil é uma extensão de uma relação que já existia em outros países da América Latina, como Chile, Colômbia e México, onde a HMC distribui os fundos da Neuberger há pelo menos uma década. Agora, a chegada ao mercado brasileiro reflete uma decisão da própria gestora americana de passar a cobrir o País de forma mais ativa.
“A parceria com a HMC marca um compromisso estruturado com o mercado — combinando a plataforma global de investimentos da Neuberger com o conhecimento local e as relações institucionais da HMC”, disse Carolina Collia, gerente de relacionamento da Neuberger.
Presente em oito países, a HMC Capital atua no Brasil como consultora e estruturadora de veículos de acesso para gestores internacionais por meio de sua subsidiária Gama Investimentos. No Brasil, a HMC representa mais de 20 gestoras, entre elas Bridgewater, Oaktree, Schroders e MAN.
O foco inicial da parceria são os investidores institucionais — fundos de pensão de empresas públicas e privadas (EFPCs) e regimes próprios de previdência (RPPS) —, além de family offices, gestores de patrimônio, bancos e plataformas de investimento.
Embora a parceria abranja toda a grade da Neuberger, os esforços iniciais da HMC estarão concentrados em três estratégias: um fundo de ações e dois de crédito global. A escolha reflete tanto o perfil dos investidores-alvo quanto o momento do mercado — com o crédito privado internacional ganhando espaço crescente nas carteiras dos institucionais brasileiros.
A expansão da parceria ocorre em um momento de maior interesse dos fundos de pensão por investimentos offshore. Segundo dados da ANBIMA referentes a abril, a soma do montante alocado em fundos offshore por EFPCs de empresas públicas e privadas e RPPS saiu de zero para R$ 164 milhões em um ano.
Para Rodrigo Aloy, sócio e head de estratégia e pesquisa da HMC Capital, esse movimento deve se aprofundar. “O grande interesse das fundações, pelo menos nos últimos 12, eu diria até 24 meses, tem sido por crédito global”, disse. “E a gente não vê esse movimento parando, pelo menos, nos próximos 6, 12 meses.”
A lógica é reforçada pelo diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Para o investidor que acessa via veículo local com hedge cambial — estrutura que a HMC pretende montar para EFPCs e RPPS —, o retorno se eleva automaticamente pelo custo do hedge, que incorpora o diferencial entre a taxa básica brasileira e a americana.
A maior aposta da HMC para atender à demanda por crédito é o fundo da Neuberger Global Flexible Income, voltado ao mercado internacional de high yield. O fundo tem rodado acima de 7% ao ano em dólar, chegando próximo de CDI+2% e CDI+3%, se hedgeado.
Aloy conta que, num contexto em que os juros globais eram baixos e as bolsas americanas entregavam retornos muito superiores aos locais, a exposição internacional dos fundos de pensão brasileiros foi construída quase exclusivamente em ações globais. Mas o ciclo de alta de juros iniciado em 2022 mudou a equação.
Com taxas básicas nos países desenvolvidos acima de 5% e spreads elevados, o crédito global passou a oferecer carrego compatível com as expectativas de retorno dos investidores de mercados emergentes — e, hedgeado, tornou-se competitivo frente ao CDI.
“O internacional não pode ser tratado como ações. Ele tem que ter um equilíbrio — algo que proteja o investidor de um drawdown, que consiga acrescentar resultado, que seja mais ajustado do ponto de vista de risco-retorno”, afirma Aloy.
Um dos argumentos da Neuberger para atrair os institucionais brasileiros é sua estrutura de capital. Sem controladora nem acionistas externos, a gestora diz tomar decisões com base exclusivamente nos resultados dos clientes. “Para fundos de pensão que administram passivos de longo prazo, esse tipo de estabilidade é extremamente importante”, diz Collia.
Na distribuição para wealth management e family offices, a HMC pretende dar maior visibilidade ao fundo de dívida de mercados emergentes em moeda forte da Neuberger, com peso relevante na Ásia.
Para Aloy, o brasileiro tende a preterir a dívida emergente por já ter concentração em papel local e a estratégia pode ser complementar. “A dinâmica Brasil-Latam é muito diferente do Leste Europeu, que é muito diferente da Ásia. O brasileiro sempre tratou esse universo como homogêneo, mas ele é extremamente heterogêneo.”
No segmento de ações, o fundo priorizado é o Global Equity Megatrend, que, apesar do nome, não segue tendências de curto prazo. A estratégia carrega teses estruturais identificadas pelo time de investimento ao longo do tempo, com filosofia GARP — Growth at a Reasonable Price —, buscando empresas com potencial de crescimento sem pagar múltiplos elevados. O foco de sua distribuição serão o canal institucional, os bancos e as plataformas.