Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho foi, indiscutivelmente, um dos principais líderes empresariais que tivemos à frente de uma entidade de classe no Brasil. Isso se deveu não apenas à sua capacidade como empresário, mas também à tradição da família Vidigal na história econômica, social e política do país.
Sua capacidade de mobilização foi decisiva para fortalecer a liderança da Fiesp, a maior entidade representativa da indústria brasileira. Pela diversidade dos setores que reúne e pela relevância de sua atuação, a Fiesp exerceu, durante sua gestão, enorme influência sobre a comunidade empresarial de todo o país.
Em uma entidade como a Fiesp, a liderança depende não apenas do cargo ocupado, mas também da trajetória empresarial, da credibilidade e da capacidade de diálogo de quem a representa. Luis Eulálio reunia essas qualidades, o que foi fundamental para o sucesso de sua gestão.
Naquele período, ainda sob o regime militar, sua liderança foi importante para a articulação do chamado Manifesto dos Oito, um documento em defesa da redemocratização do país. O grupo reuniu alguns dos principais empresários brasileiros, entre eles Antônio Ermírio de Moraes (Grupo Votorantim), José Mindlin (Metal Leve), Cláudio Bardella (Grupo Bardella), Severo Gomes (Santista Têxtil e ex-ministro), Paulo Villares (Indústrias Villares), Laerte Setúbal Filho (Duratex) e Paulo Vellinho (Arno). Tive o privilégio de participar dessa iniciativa.
O documento representou um marco importante ao expressar a posição de um grupo de líderes empresariais em favor da retomada do regime democrático. Depois da etapa iniciada em 1964, tornou-se necessário recolocar o país no caminho da democracia. E esse grupo teve papel relevante ao defender essa transição.
A liderança de Luis Eulálio foi decisiva para mobilizar os principais nomes do empresariado brasileiro em torno desse objetivo. Sua autoridade como presidente da Fiesp, somada à sua trajetória empresarial e ao respeito que inspirava, deu legitimidade ao movimento.
Ao analisar o Brasil de hoje, vejo que continuamos enfrentando um atraso importante na realização de reformas estruturais. Talvez fosse necessária uma articulação semelhante à que tivemos na época da redemocratização, reunindo novamente um grupo de grandes líderes empresariais para defender mudanças essenciais ao país.
A reforma tributária é um bom exemplo. Ela demorou muito mais do que em outros países e nos mantém presos em uma estrutura baseada na cumulatividade dos impostos. Basta lembrar que a França modernizou seu modelo poucos anos depois da criação do nosso ICM [Imposto sobre Circulação de Mercadorias, de 1965].
"Ao assumir a presidência da Fiesp, Luis Eulálio rompeu um longo ciclo de continuidade na entidade e abriu espaço para uma nova forma de atuação do empresariado"
Ao assumir a presidência da Fiesp, em 1980, Luis Eulálio rompeu um longo ciclo de continuidade na entidade [o candidato Theobaldo De Nigris disputava seu nono mandato consecutivo]. Sua vitória marcou uma renovação na representação da indústria paulista e abriu espaço para uma nova forma de atuação do empresariado.
Diferente da postura predominante na época, ele defendeu o diálogo com os trabalhadores e os movimentos sindicais. Em seu discurso de posse, Luis Eulálio disse que caberia “principalmente a nós, empresários, nos posicionarmos com atitudes firmes em defesa daquilo em que acreditamos, demonstrando que o capitalismo, voltado para o benefício da coletividade, ainda é a melhor solução para o Brasil”.
Logo em seguida, completou: “Se apoiarmos a abertura e não nos preocuparmos em defender a economia de mercado, mantendo um esforço conjunto, planificado, sistemático e permanente em favor da livre empresa, teremos, muito provavelmente, amanhã, em nosso país, uma luta de classes de consequências imprevisíveis”.
Ao mesmo tempo, Luis Eulálio defendeu a modernização da indústria brasileira, a livre iniciativa e uma menor intervenção do Estado na economia. Também ampliou a presença internacional do empresariado nacional, presidindo conselhos de cooperação com países como Estados Unidos, Argentina e Japão.
Na esfera pública, Luis Eulálio participou do Conselho Monetário Nacional, da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais e do Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo.
É nesse contexto que considero tão importante a liderança de Luis Eulálio. Sua trajetória empresarial, sua capacidade de mobilização e sua credibilidade mostraram como o empresariado pode contribuir não apenas para o desenvolvimento econômico, mas também para a retomada da estrutura democrática.
Nós todos temos de ter enorme gratidão por sua atuação e lamentar profundamente seu falecimento [em 29 de junho, aos 87 anos]. Luis Eulálio desempenhou um papel fundamental para São Paulo e para o Brasil. Ao lado dos integrantes do Grupo dos Oito, foi decisivo na construção da história política e empresarial do país.
* Jorge Gerdau é presidente do Conselho Superior do Movimento Brasil Competitivo (MBC) e membro da família que está no bloco de controle da Gerdau.