Como parte de um cenário macro, interno e externo, que combina desde os juros ainda elevados até a guerra entre Estados Unidos e Irã, muitos grandes grupos brasileiros têm reduzido investimentos e priorizado a venda de ativos na tentativa de reduzir dívidas e reequilibrar suas operações.
Esse não é o caso da Votorantim. Com ativos como Votorantim Cimentos, Motiva, Hypera e Auren no portfólio, a holding do clã Ermírio de Moraes não minimiza os efeitos nesse contexto. Mas também não planeja colocar o pé no freio em 2026.
“Nós terminamos 2025 com quase R$ 8 bilhões no caixa da holding e nenhuma dívida. Nosso balanço está muito forte”, diz João Schmidt, CEO da Votorantim, ao NeoFeed. “Então, temos flexibilidade para seguir investindo e apoiando tanto as empresas do portfólio como olhar para novas oportunidades.”
Além de uma alavancagem de 1,01 vez, contra 1,09 vez, um ano antes, o grupo fechou o ano com um caixa consolidado recorde – levando-se em conta a soma de todas as operações sob o seu guarda-chuva – de R$ 15 bilhões. E um lucro líquido de R$ 4,8 bilhões, um salto de 482% sobre 2024.
Outros dois números do balanço, no entanto, são destacados por Schmidt como os principais indicativos de como a Votorantim está preparada para atravessar as prováveis turbulências do ano. E, em paralelo, seguir movimentando seu portfólio com novos investimentos.
Já sob a métrica econômica, que considera o desempenho proporcional às fatias detidas em cada empresa do portfólio, a receita líquida de R$ 58,8 bilhões e o Ebitda de R$ 13,8 bilhões também foram recordes, com crescimentos em base anual, respectivamente, de 11% e 10%.
A partir desses indicadores, Schmidt detalha como a holding planeja balancear seus investimentos nesse ano. E sinaliza qual vertente deverá ter, a princípio, mais peso nessa estratégia.
“Historicamente, olhamos bastante para dentro de casa”, afirma, referindo-se aos investimentos reservados para as empresas que já estão sob o guarda-chuva da Votorantim. “Então, a maior parte dos recursos irá para o próprio portfólio, que já gera muita oportunidade de investimentos para o grupo.”
Ele recorre a alguns números para reforçar esse discurso. O primeiro deles, o fato de que, nos últimos quatro anos, essas empresas investiram, juntas, R$ 53 bilhões. Ao mesmo tempo, o CEO chama a atenção para o leque de oportunidades em um portfólio que passou por uma série de transformações.
“Nos últimos cinco anos, temos cinco novas empresas no portfólio”, afirma, citando, nesse pacote, a Motiva, de infraestrutura; a Auren, de energia; a Autren, de ativos imobiliários no Brasil e nos EUA; a 23S Capital, gestora fruto de uma joint venture com a Temasek; e a Hypera Pharma.
Fruto de uma diversificação que resultou na sua estreia em saúde, o grupo começou a montar posição na Hypera, por exemplo, em 2023. E, desde então, ampliou essa fatia, o que culminou na participação no aumento de capital de R$ 1,5 bilhão aprovado pelo board da farmacêutica nesta semana.
Em outra frente, que também abre uma janela para novas injeções de recursos da holding, Schmidt destacou a Votorantim Cimentos, o maior ativo desse portfólio, que tem um plano de investimentos de R$ 5 bilhões em cinco anos. Dos quais, R$ 2,7 bilhões já foram aplicados.
Ele não comenta, porém, os rumores de que a Votorantim Cimentos seria uma das interessadas na compra da CSN Cimentos, na esteira de uma estratégia de redução de endividamento do conglomerado de Benjamin Steinbruch. Mas, conforme apurou o NeoFeed, a empresa está, de fato, nesse páreo.
Schmidt não titubeia, porém, quando questionado sobre os setores no radar dos novos investimentos da holding. “Seguimos gostando muito de commodities e do setor de infraestrutura como um todo. E estamos bem animados com o tema de longevidade e suas implicações para o setor de saúde”, diz.
Já na ponta dos desinvestimentos, o grupo também tem se mexido. O exemplo mais recente nessa direção foi a venda, em janeiro, da fatia detida na CBA, para a chinesa Chinalco e a Rio Tinto, por R$ 4,68 bilhões. Aqui, no entanto, o apetite não é o mesmo que no plano dos investimentos.
“Diferentemente de outros grupos, não temos nenhuma necessidade de desinvestir”, afirma Schmidt. “Aqui, o nosso racional não é financeiro, de pagar dívida. Nós estamos muito líquidos. E sim, estratégico, pensando no que é melhor para cada negócio.”
Um exemplo que se encaixa nessa tese foi a entrada, em dezembro, da PSP Investments no quadro de acionistas da Citrosuco, outra investida da holding. No novo arranjo, o fundo de pensão canadense passou a deter uma posição minoritária na operação, assim como a Votorantim e o Grupo Fischer.
“Para nós, é sempre uma questão de como fazer movimentações que vão deixar esse portfólio, de um lado, mais resiliente, e também mais flexível financeiramente, dado que nossa capacidade de prever o futuro é baixa.”
Nesse contexto, no que diz respeito aos componentes que estão fora do controle da holding, ele conclui afirmando que, à parte de alguns elementos, o cenário macro atual é muito similar ao de um ano atrás, quando o tarifaço de Donald Trump começou a mostrar suas garras. Mas faz uma ressalva.
“Esse ano temos preço do petróleo, dinâmicas de guerra e muitas incertezas que, certamente, vão nos impactar”, diz. “Mas, assim como há um ano, é preciso ter cuidado para não super interpretar o que está acontecendo no momento. Só com o benefício do tempo saberemos quais os reais impactos.”