O Patria está promovendo uma remarcação nos valores de dois de seus fundos de private equity na América Latina, em meio a um ciclo global prolongado de juros e inflação altos, menor liquidez, queda na captação e uma revisão estrutural das premissas de crescimento das empresas investidas por conta desse cenário.
O ajuste, que será refletido nas cotas do segundo trimestre deste ano, afeta os veículos buyout, nos quais o fundo comprava mais de 50% de participação de uma empresa e buscava a consolidação do mercado. Essa estratégia conta com aproximadamente R$ 50 bilhões sob gestão na América Latina. Atualmente, o Patria administra R$ 309 bilhões em ativos, dos quais R$ 130 bilhões estão na área de private equity.
“O mercado basicamente tem uma sensibilidade altíssima ao ciclo de juros global”, afirma Daniel Sorrentino, sócio e head global de clientes do Patria Investimentos, em entrevista ao NeoFeed. “A realidade se mostrou muito diferente do que se esperava no pós‑pandemia.”
O Fundo 4, lançado em 2011, terá a maior remarcação. Após discussões com investidores, o Patria decidiu liquidar o veículo e acelerar a venda de todas as empresas do portfólio. “O fundo deve ser liquidado o mais breve possível”, diz Sorrentino.
O MOIC (Multiple on Invested Capital) cai de 0,8 no primeiro trimestre deste ano para 0,3 neste trimestre. O valor da cota será reduzido em 57%. Na prática, quem investiu R$ 1 milhão no fundo receberia agora R$ 300 mil – antes da remarcação, R$ 800 mil.
O portfólio do Fundo 4 inclui a empresa de logísticas refrigeradas SuperFrio, a empresa de autosserviço de café e bebidas quentes Gran Coffee e a empresa de próteses médicas Víncula. Todas serão vendidas e já contam com bancos com mandatos para buscar compradores.
O maior ativo deste fundo é a Elfa, que atua na distribuição de medicamentos e materiais hospitalares. Ela também será vendida, mas a gestora acredita que será necessário um período de 12 a 18 meses para reforçar a estrutura de capital antes da saída.
“A Elfa operacionalmente é muito boa e tem rentabilidade, mas tem um desafio de capital como resultado do aumento da taxa de juros”, afirma Luís Felipe Cruz,sócio e co-CEO de Private Equity Buyout Latam do Patria Investimentos, ao NeoFeed.
Deste portfólio, o Patria já vendeu a empresa de açaí Frooty. O negócio aconteceu em junho deste ano, mas não havia sido divulgado até agora. O comprador, segundo a gestora, é um investidor financeiro – o nome não foi revelado.
O Fundo 5 também passa por ajustes, embora a perspectiva seja diferente. O Patria, neste caso, está remarcando o MOIC de 2,5 para 1,6, com impacto de 45% na cota. O portfólio inclui dois ativos principais.
Um deles é o hospital e clínica oftalmológica Opty, que acaba de passar por uma transação. O grupo chinês de saúde ocular Aier Eye assumiu o controle da empresa. O fundo do Patria manteve uma posição minoritária. “O objetivo dessa operação foi capitalizar a empresa, reduzir sua alavancagem e permitir que ela volte a crescer de forma sustentável”, afirma Cruz.
Outro ativo relevante do portfólio deste fundo é a Athena, grupo verticalizado de saúde que, segundo o Patria, vem crescendo em vidas, faturamento e rentabilidade. “É um esforço de melhorar as companhias, buscar desalavancagem e crescimento”, afirma Sorrentino, resumindo a estratégia do fundo 5, que já fez desinvestimento da rede de academias Smart Fit e da rede de revendas agrícolas Lavoro.
Os fundos 6 e 7, que são vintages pós-pandemia, portanto mais recentes, não passam por ajustes no valor da cota. No Fundo 6, o MOIC, no entanto, sairá de 1,4 no primeiro trimestre de 2026 para 1,2 no segundo trimestre deste ano.
O veículo já fez todos os investimentos, mas ainda conta com capital para fazer capitalizações nas empresas do portfólio. Um dos ativos é a rede de supermercados regional Plurix.
No Fundo 7, que tem 70% do capital chamado, os principais ativos são a rede Atakarejo, a Delly’s, empresa de distribuição de alimentos para o food service, e Banmédica, rede hospitalar do Chile e Colômbia, comprada da UnitedHealth no ano passado. Neste veículo, ainda há espaço para novos investimentos.
De acordo com Sorrentino, o ambiente global explica boa parte do movimento. A inflação persistente, os choques geopolíticos, as tarifas comerciais, os déficits fiscais e o mercado de trabalho aquecido prolongaram o ciclo de juros elevados. “Hoje temos juros globais em patamares mais altos do que a média dos últimos anos e uma inflação persistente”, diz o sócio do Patria.
O efeito direto desse cenário é uma queda relevante na captação global de private equity. De acordo com dados da KPMG, o pico foi em 2021, quando atingiu US$ 2,5 trilhões. No ano passado, atingiu US$ 2,1 trilhões, um recuperação depois de anos de seca. Apesar disso, o número de operações caiu para 19 mil em 2025, o menor patamar em cinco anos.
Ao mesmo tempo, o prazo médio de retorno de capital aos investidores aumentou. “Se antes eu esperava cinco anos, agora espero nove. Muda a minha visão de como aloco capital.”
Outro fator citado por Sorrentino é o envelhecimento dos portfólios globais. “Hoje, 40% a 50% das empresas investidas de private equity foram investimentos feitos antes da pandemia”, afirma.
Esses ativos atravessaram a pandemia, o ciclo de juros baixos e depois a rápida alta das taxas. O resultado é uma pressão sobre balanços, margens e capacidade de desalavancagem. “As companhias tiveram que se alavancar. O juro estava 2%. E o juro está 15%. Gastam sete vezes mais”, diz Sorrentino.
Recentemente, um relatório da SnowCap, short seller americana, questionou os valuations de ativos do Patria, acusando a gestora de inflar preços e adiar reconhecimento de perdas, especialmente em empresas como Elfa e Athena. O documento levantou dúvidas sobre práticas de financiamento fora do balanço e sobre a qualidade das saídas de investimentos da gestora.
Questionado sobre esse tema, Sorrentino rebateu. “Somos uma empresa listada, auditada, sujeita à SEC e ao escrutínio dos nossos investidores. O nível de diligência dos investidores institucionais que aplicam centenas de milhões por mais de uma década é brutal. Confiamos nos nossos números e na visão de longo prazo que estamos construindo.”
De acordo com Sorrentino, o processo de remarcações da carteira é dinâmico e acontece com frequência. E, mesmo com esse cenário adverso por conta dos juros altos e da inflação, o Patria segue movimentando sua máquina de captação de forma consistente.
No ano passado, segundo Sorrentino, o Patria captou US$ 7,7 bilhões para diversas estratégias, um crescimento de 40%. Neste ano, no primeiro trimestre, a captação já somou US$ 2,2 bilhões. “Temos uma boa perspectiva de seguir captando bastante”, diz o sócio do Patria.
Ele reforça que private equity é uma classe de risco e que ciclos adversos fazem parte da dinâmica. “Os maiores investidores dos nossos fundos somos nós mesmos. Quem sofre primeiro com o skin in the game somos nós”, diz Sorrentino.
Apesar do ciclo adverso na América Latina, o Patria observa desempenho mais favorável em suas estratégias internacionais, em especial naquelas voltadas para adquirir fatias secundárias de outros fundos de private equity.
A gestora acaba de captar um fundo secundário, voltado para Europa e Estados Unidos, que investe em participações outros fundos de private equity, aproveitando a menor liquidez do mercado e a necessidade de investidores globais de reciclar capital. “Saímos para captar US$ 500 milhões e estamos fechando com US$ 676 milhões”, afirma Sorrentino.