O Tesouro Nacional pagará R$ 258,6 bilhões em NTN-Bs na segunda-feira, 17 de agosto. É o maior vencimento de títulos públicos atrelados à inflação do cronograma da dívida pública entre 2026 e 2030, segundo dados do Banco Central.

Somando o pagamento de cupons que acompanha o resgate, o volume total de liquidez que entra em circulação sobe para cerca de R$ 288 bilhões, segundo estimativas de mercado - o equivalente a 12,4% de todo o estoque de Tesouro IPCA+ em circulação hoje.

Excluindo os R$ 30 bilhões em cupons, pessoas físicas que compraram os papéis via Tesouro Direto vão receber R$ 12,88 bilhões. O restante está nas mãos de investidores institucionais, como fundos, seguradoras e gestoras de previdência. E é justamente pela realocação desse "caminhão de dinheiro" que o mercado de crédito privado está armando a sua rede.

"O pipeline de emissões [privadas] voltou a ficar um pouco mais forte. Isso também adiciona pressão, como se fosse uma concorrência em relação aos títulos do governo em termos de captação e demanda”, diz Huang Seen, head de renda fixa da Tivio Capital.

Um relatório da XP sobre as possíveis destinações dos recursos liberados coloca o crédito privado incentivado entre as principais alternativas de reinvestimento, ao lado de novas NTN-Bs e de ativos pós-fixados.

"Diante das incertezas fiscais e da volatilidade nas taxas de longo prazo, parte das gestoras deve utilizar os títulos pós-fixados (atrelados à Selic) como um 'estacionamento temporário' de liquidez enquanto aguardam pontos de entrada mais claros no mercado corporativo", escreveu a XP aos seus clientes.

O timing dessa concorrência é fundamental. O crédito privado incentivado vem de um ano de vaivém nos spreads, que voltaram a abrir ao longo do primeiro semestre num movimento predominantemente técnico.

Em relatório recente, o Itaú BBA sinalizou que esse reajuste é uma janela: “Os níveis atuais de spread nas debêntures incentivadas podem oferecer um ponto de entrada relativamente mais atrativo para determinados perfis de investidor”.

Desinteresse pela NTN-B

A atratividade do crédito privado ganha ainda mais força porque a "concorrência" está enfraquecida. O megavencimento do Tesouro ocorre em um momento em que a demanda por NTN-B vem murchando.

Segundo o histórico oficial de leilões, o volume financeiro vendido saiu de um pico de R$ 23,3 bilhões em fevereiro para apenas R$ 2,6 bilhões em julho — uma queda de quase 90%. O percentual do que é ofertado e efetivamente vendido também encolheu (de 93% para 72,7%), num sinal claro da resistência do mercado em absorver os papéis públicos.

André Shiokawa, gestor de renda fixa e moedas da Asset1, avalia que o Tesouro deverá manter o pé no freio nas emissões de NTN-Bs devido à baixa demanda estrutural.

"Se por um lado seguradoras e fundos de pensão já estão bem servidos de títulos atrelados à inflação, por outro, a deterioração fiscal pressiona a percepção de risco. Soma-se a isso a competição com os ativos incentivados [crédito privado]", diz Shiokawa.

Ainda assim, há uma parcela desse dinheiro que voltará obrigatoriamente para o governo. “É normal que tenha um aumento de demanda por NTN-Bs semanas antes do vencimento, porque os fundos que seguem índices como IMA-B precisam repor a posição”, complementa o gestor da Asset1.

Para atender essa demanda extraordinária e sazonal, o Tesouro triplicou o volume ofertado no leilão de NTN-B de terça-feira, 11 de agosto, saltando de 50 mil para 150 mil títulos por vencimento nos papéis de 2029, 2033 e 2055.

O pano de fundo de toda essa movimentação é uma meta oficial do governo. O Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026 estabelece que os títulos indexados à inflação devem representar entre 23% e 27% da dívida pública federal. Tirando os R$ 258,6 bilhões que vencem nesta segunda, o estoque cairia para R$ 2,14 trilhões, e a fatia da inflação na dívida encostaria em 23,1%, colado no piso da meta do PAF.

É nesse contexto desafiador para o Tesouro que os bilhões chegam às contas dos investidores na segunda-feira. Uma fatia migrando para o crédito privado incentivado representaria justamente o tipo de demanda técnica que, segundo o próprio Itaú BBA, foi o principal motor da compressão de spreads nos anos mais fortes do mercado de debêntures.