Guerra da Ucrânia causará crise alimentar, acredita CEO de gigante de fertilizantes

A previsão é de Svein Tore Holsether, CEO da Yara International, uma das maiores produtoras de fertilizantes do mundo. Para ele, “é uma questão de saber o quão grande será”

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Svein Tore Holsether, CEO da Yara International

Tragédia humanitária, a guerra na Ucrânia não terá seus desastrosos efeitos restritos apenas ao território invadido pelas tropas comandadas pelo presidente russo Vladimir Putin. As sanções econômicas sofridas pela Rússia devem elevar o preço de alguns produtos. Entre eles, os fertilizantes. E isso pode ser um grave problema.

“Vamos ter uma crise alimentar”, afirmou Svein Tore Holsether, CEO da Yara International, uma das maiores produtoras de fertilizantes no mundo, em entrevista ao jornal americano The Wall Street Journal. “É uma questão de saber o quão grande ela será.”

Com sede na Noruega, a Yara International produz de fertilizantes nitrogenados, mas também nitratos, amônia, ureia e outros produtos químicos à base de nitrogênio. Seu negócio tem sido afetado pelo conflito na Ucrânia. Mas de forma positiva.

Na última semana, suas ações negociadas na bolsa norueguesa subiram quase 8%, fazendo a companhia atingir valor de mercado de US$ 13,1 bilhões. Em relação a receita, a empresa registrou alta de 46% no ano passado para um faturamento de US$ 1,9 bilhão.

Na sexta-feira, 18 de março, quando os comentários do executivo foram publicados, o Índice de Preços de Fertilizantes da Bloomberg Green Markets North America saltou quase 10%, atingindo uma alta histórica.

Responsável por quase um quinto das exportações de fertilizantes prontos em 2021, de acordo com dados do Trade Data Monitor e do Green Markets, da Bloomberg, a Rússia é também um dos grandes exportadores dos ingredientes-chave para a fabricação dos fertilizantes, como ureia, amônia e, principalmente, potássio.

Com as sanções aplicadas pela União Europeia e por outros mercados contra a Rússia como forma de retaliação pela invasão ao país vizinho, há uma oferta menor dos nutrientes agrícolas no mercado, o que naturalmente ocasiona no encarecimento dos preços.

Mesmo antes da guerra, vale lembrar, os produtores de fertilizantes europeus já haviam cortado a produção por conta do aumento no preço do gás, essencial para a fabricação dos produtos. De um ano pra cá, o preço de fertilizantes mais do que dobrou no índice referente aos mercados da América do Norte.

Reflexos no Brasil

O Brasil está longe da possibilidade de escapar ileso do problema. Cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no País são importados. E 95% do potássio utilizado por aqui também vem do exterior, sendo que metade é fornecido pela Rússia e pela Belarus, país aliado do presidente russo no conflito com a Ucrânia.

Em fevereiro deste ano, pouco antes da guerra começar, o presidente Jair Bolsonaro esteve reunido com Putin, no Kremlin, para discutir o fornecimento de fertilizantes ao agronegócio brasileiro. Na ocasião, Bolsonaro garantiu que os fertilizantes seriam entregues ao Brasil.

Ainda assim, o governo federal está se movimentando em outras frentes. Os países árabes podem ser uma alternativa ao mercado russo. Segundo dados da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), a região foi responsável por 26% das negociações de fertilizantes com o Brasil em 2021, movimentando US$ 4,2 bilhões.

Para efeito de comparação, a Rússia foi responsável por US$ 3,5 bilhões em exportações de fertilizantes prontos e propriedades químicas como potássio, amônia e ureia para o Brasil em 2021.

A produção nacional também não está descartada. No dia 11 de março, o governo lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), coordenado pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas, com a meta de reduzir a importação dos produtos de 85% para 45% até 2050.

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