Negócios

Na Movida, cash is king. E ele está entrando

Depois de digitalizar seu processo de venda de carros seminovos, criar outras modalidades de aluguel e ajustar a operação, a empresa passou a gerar R$ 100 milhões de caixa por mês e já se prepara para a nova onda do setor

 

Renato Franklin, CEO da Movida

Há poucos dias, a locadora de carros Movida vinha testando o projeto-piloto de um novo serviço nas suas lojas dirigidas a motoristas de aplicativos em São Paulo. Um sistema de oxi-sanitização, que utiliza o gás ozônio, para eliminar odores, fungos, bactérias e vírus nos carros. O motorista estaciona o carro e depois de 15 minutos o veículo está “limpo” por até 72 horas.

Com o crescimento da demanda e o aumento da locação de carros por motoristas de aplicativos, uma alta de 6% em junho em comparação a maio, a empresa resolveu lançar o serviço, por enquanto gratuito, de vez. Na manhã de hoje, ele começa a funcionar e, em breve, partirá para Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Nas mesmas lojas, os motoristas também encontrarão uma película de PVC, que divide o carro entre os bancos da frente e o de trás, que poderá ser locada por R$ 20 a mais na mensalidade. “São medidas que estamos adotando para o motorista de aplicativo, que representa 10% da receita da companhia”, diz Renato Franklin, CEO da Movida.

Essas são as medidas mais recentes. Mas, nos últimos três meses, diante dos desafios impostos pela Covid-19, a empresa, que faturou R$ 1 bilhão no primeiro trimestre de 2020, precisou acelerar processos e criar novas fontes de receita para enfrentar a pandemia e evitar a queima de caixa – o temor de dez entre dez empresas nos dias de hoje.

Aí estão incluídos, por exemplo, os carros por assinatura anual e aluguel de carro compartilhado. “Até duas pessoas podem alugar o mesmo carro. Imagina dois vizinhos dividindo a conta, é isso o que estamos fazendo”, diz Franklin, complementando que duas pessoas ficam titulares pelo contrato.

Evidentemente, as medidas ainda não fizeram a empresa recuperar a mesma receita que tinha antes de a crise começar. “Agora, com a pandemia, perdemos 30% do faturamento”, diz Franklin. Mas elas têm ajudado na travessia e preparado a companhia para um novo ciclo. “Acelerou o nosso processo de digitalização”, afirma o executivo.

Virou quase um clichê no mundo corporativo dizer que a Covid-19 acelerou os processos digitais. No caso da Movida, isso pode ser comprovado em números, principalmente, na venda de seminovos. A locadora passou a vender seus carros de forma totalmente digital e fazer a entrega na casa do cliente.

“O mercado de seminovos no Brasil caiu 80% em abril. No nosso caso, a queda foi de apenas 20%”, diz Franklin. Vale ressaltar que, no primeiro trimestre, a companhia vendeu 14 mil carros.

Das suas 250 lojas espalhadas pelo Brasil, 70 são voltadas às vendas de carros usados da frota da companhia. E a Movida se preparava para abrir entre cinco e dez novas lojas por ano, num investimento médio de R$ 600 mil por loja, mas já está revendo o plano.

Película de PVC que passará a ser alugada para motoristas que trabalham com aplicativos de locomoção

Franklin afirma que as vendas online já suprirão o espaço que seria ocupado por essas lojas. E cada revenda comercializa uma média de 50 carros por mês. Somado a isso, reduziu os gastos com marketing, renegociou contratos com fornecedores e fechou mais de 15 lojas.

O resultado desse esforço já está aparecendo. No início da pandemia, a Movida contava com um caixa de R$ 1,1 bilhão. Desde então, em vez de queimar, tem gerado uma média de R$ 100 milhões por mês. “Temos vendido mais carros do que temos comprado. A nossa meta é reforçar o caixa”, diz Franklin.

“A Movida surpreendeu positivamente na transformação digital no canal de seminovos, com expectativa de vender 60% do volume regular de carros (acima de seus pares)”, escreveu em relatório o analista do BTG Pactual Lucas Marquiori.

Ele ainda ressalta que os papéis da empresa estão baratos sendo negociados a um múltiplo de 12,2 vezes na relação preço/lucro, enquanto os de concorrentes como a Unidas está em 18,8 vezes e a Localiza a 30,1 vezes. Desde o início da crise do coronavírus, as ações da Movida caíram 21,94%. Saíram de R$ 18, em 28 de fevereiro, para a cotação de R$ 14,05 na quinta-feira, 2 de julho.

Parte do ceticismo do mercado com as empresas de locação de carros deriva do setor em que atuam. Com a crise no turismo e nas viagens corporativas, as companhias acabam perdendo muita receita. Mas as empresas brasileiras tendem a se sair melhor do que as americanas Avis e Hertz, esta última que está à beira da falência nos Estados Unidos.

De acordo com a agência de classificação de riscos Moody’s, grande parte do faturamento das empresas estrangeiras vem de locações pontuais realizadas em aeroportos. Por aqui, as empresas contam com um faturamento mais diversificado.

A Movida, que faturou R$ 4 bilhões em 2019, tem uma frota de 110 mil carros. Deste total, 40 mil estão atrelados a contratos corporativos, 60 mil a diárias, aluguéis anuais e motoristas de aplicativos. Os 10 mil restantes estão em estoque. No que diz respeito ao comportamento de consumo das pessoas, Franklin, o CEO da empresa, acredita que o horizonte é bom.

“Tem acontecido em outros lugares do mundo e o que deve acontecer aqui é a migração das pessoas de transportes de massa para Uber ou aluguel de carro”, diz ele. Ele acredita que as viagens de turismo serão mais curtas e, em vez de ir de ônibus, as pessoas vão alugar carros. Outro ponto ressaltado pelo executivo é o de que muitos venderão seus carros para fazer caixa e deverão alugar.

O que preocupa é a situação econômica do País quando o auxílio emergencial de R$ 600 mensais, que está sendo pago pelo governo, acabar. Também ainda não se sabe qual será o saldo de mortalidade de empresas. É difícil ainda arriscar os reais efeitos, mas o executivo aposta em tendências no longo prazo.

“Acredito que, em dez anos, dez milhões de carros serão alugados no País”, diz Franklin. As pessoas, afirma ele, olharão o carro mais como um serviço. Isso abrirá espaço para a entrada de novos players. Franklin diz que já está em conversas com uma empresa de tecnologia que pode usar o serviço da Movida como um white label.

Pelo aplicativo dessa companhia, o usuário poderia alugar um carro. Mas, por trás, todos os carros, gestão de frota e a inteligência de mercado seriam da Movida. Neste caso, a companhia de tecnologia ganharia uma porcentagem em cima dos aluguéis. “E tudo isso vai acontecer rapidamente. Esse será o futuro”, afirma.

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