Inovação

O voo de Jorge Ben Jor ao som da guitarra elétrica

Escrito pela jornalista Kamille Viola, o livro “Um dia Jorge Ben voou para toda a gente ver” parte do álbum África Brasil, de 1976, para traçar um perfil do músico, o impacto que suas letras causaram na época e o legado duradouro de seu estilo

 

Jorge Ben na década de 1970: criações que inspiraram gerações

Em 1976, Jorge Ben Jor, na época conhecido apenas como Jorge Ben, trocou o violão de náilon, instrumento que havia marcado sua sonoridade por 13 anos, pela guitarra elétrica. A mudança foi radical. Seu som ficou mais agressivo e urgente, surpreendendo os fãs e estabelecendo um legado duradouro.

O primeiro trabalho dessa nova fase, África Brasil, é o ponto central do recém-lançado livro “Um dia Jorge Ben voou para toda a gente ver”, da jornalista e pesquisadora Kamille Viola. “África Brasil é um trabalho muito marcante. Mudou completamente o som dele”, diz a autora, estudiosa da obra de Jorge há anos.

Além da mistura de elementos da música brasileira, algo que Jorge já fazia à sua maneira, ele passou a incorporar elementos do funk e do soul americanos. “Era algo que os artistas da época estavam fazendo”, diz Kamille.

Para dar corpo a um de seus trabalhos musicalmente mais complexos, Jorge montou uma banda de apoio, a Admiral Jorge V, com alguns dos maiores talentos da época. Faziam parte da formação o saxofonista Oberdan Magalhães (1945-1984), da Banda Black Rio, e o baterista Wilson das Neves (1936-2017).

A diferença pode ser ouvida – e sentida – logo na primeira faixa, “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, e na versão definitiva de “Taj Mahal”. Nas letras, África Brasil apresenta ainda um apanhado de temas com que ele estava envolvido na época: alquimia, amor, futebol, paternidade e, principalmente, negritude.

“Hoje se fala muito de representatividade. Jorge cantava sobre pessoas negras e sobre como ele era uma pessoa negra. Isso é muito especial”, diz Kamille. O rapper Mano Brown, dos Racionais MC’s, fala sobre essa identificação. Ele conta que gostava do som dos artistas americanos, mas não entendia as letras. “Eu entendia o que Jorge falava”.

A negritude é o tema central de dois dos maiores sucessos de África Brasil: “Zumbi” e “Xica da Silva”. O trabalho influenciou uma geração de músicos que vieram depois, tanto em termos de sonoridade quanto de letras.
É citado por artistas da década de 1990, como Jorge du Peixe, da Nação Zumbi, e BNegão, que integrou o grupo Planet Hemp. “O canto falado de Jorge marcou o rap e o manguebeat”, diz Kamille.

Mais do que a história de África Brasil, o livro passa pela carreira do músico

O livro, no entanto, não fala apenas de África Brasil. O plano original de Kamille era escrever uma biografia de Jorge, mas o projeto acabou arquivado. Neste trabalho, ela parte do LP para apresentar a trajetória do músico, que apareceu na cena musical no início dos anos 1960 com “Mas que nada”, um dos maiores sucessos da história da nossa música.

Notoriamente avesso a entrevistas, ele abriu exceções para a jornalista, que revela detalhes de sua vida pessoal e curiosidades saborosas sobre sua carreira. Kamille conta, por exemplo, que Domingas e Tereza, protagonistas de diversas canções de Jorge, são, na realidade, a mesma pessoa: Maria Tereza Domingas, sua parceira de vida que nunca dá entrevistas e vive praticamente no anonimato.

“Um dia jorge Ben voou para toda a gente ver” é o terceiro volume de uma coleção do Sesc focada em discos históricos da música brasileira. Os outros dois volumes são dedicados a Da lama ao caos, de Chico Science & Nação Zumbi, por José Teles, e Acabou chorare, dos Novos Baianos, de autoria de Marcio Gaspar. A pandemia atrapalhou os planos de lançar as versões físicas, mas todos podem ser encontrados em e-book.

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