O “yeah-yeah” do Enjoei chega a um novo modelo de negócios

O brechó online está plugando 60 lojas em seu marketplace (e negocia com outras dezenas), acrescentando pela primeira vez produtos oficiais à sua plataforma. São marcas como Disney, Puket e Imaginarium. O cofundador Tiê Lima explica a estratégia ao NeoFeed

0
142
Leia em 5 min

Tiê Lima, cofundadore e CEO do Enjoei

Em março deste ano, o brechó online Enjoei escreveu um poema no documento que apresentava os resultado do quarto trimestre de 2020 aos investidores. A ação inusitada gerou algum ruído no mercado, mas mostrou que a companhia, que havia aberto o capital em novembro e captado quase R$ 1 bilhão, tinha uma “cultura” diferente. Tanto que por lá não existe curtidas ou corações – típicas das redes sociais. O símbolo é uma mão “rock and roll” e as famosas curtidas são chamadas de “yeah-yeah”.

Fundado em 2009, pelo casal Ana Luiza McLaren e Tiê Lima como um blog, o Enjoei cresceu e ganhou fama com a venda de produtos usados e de boa qualidade, atraindo milhares de consumidores preocupados com sustentabilidade e o reuso de itens que vão de moda a eletroeletrônicos. Agora, o “yeah-yeah” do Enjoei está chegando a um novo modelo de negócios: produtos novos de lojas oficiais.

O Enjoei está discretamente plugando ao seu marketplace, que sempre foi de vendas direta entre consumidores, lojas oficiais para vender seus produtos em um modelo de negócios B2C. Até agora, são 60 lojas. E dezenas delas devem ser integradas à plataforma em breve. São marcas como Disney, Puket, Imaginarium, Darling, Lucy in the Sky, Cícero Papelaria, Livo, Baw Clothing, Ava Intimates, Sidewalk, Clube Marisol, Mormaii, Michael Kors, entre outras.

“A nossa expectativa é que ao longo do tempo esse canal vá ganhando representatividade e possa representar entre 10% e 15% da nossa venda”, diz Tiê Lima, cofundador e CEO do Enjoei, ao NeoFeed. “Queremos mostrar que na nossa plataforma tem do novo ao vintage.”

O novo canal do Enjoei, batizado, por enquanto, de “reais oficiais” (tudo em caixa baixa mesmo, no estilo informal do site) já conta com milhares de produtos cadastrados, que incluem desde coleções novas até passadas, além de promoções exclusivas para a plataforma. Assim como em outras áreas, o consumidor poderá fazer ofertas e “barganhar” o preço dos itens – um recurso que existe na negociação dos produtos usados.

As empresas que estão sendo plugadas ao marketplace do Enjoei terão tarifas e taxas semelhantes aos dos consumidores. Lima diz que a negociação da comissão é caso a caso. No primeiro trimestre de 2021, ela ficou, em média, em 16,4%, uma queda em comparação com o trimestre anterior, quando foi de 18,7%.

“O Enjoei chamou muita atenção e criou um espaço interessante por embarcar nessa onda da economia circular, da sustentabilidade e do reuso. É algo que conecta muito bem com o público mais jovem, que tem menos apego pelas coisas”, diz Alberto Serrentino, sócio da consultoria Varese Retail. “Mas essa estratégia de produtos novos leva a um risco de fragilizar o posicionamento da marca e a proposta de valor.”

Apesar de começar a vender produtos novos de lojas oficiais, o Enjoei não “enjoou” dos produtos usados. Lima diz que segue buscando atrair cada vez mais clientes que criem suas próprias lojas para vender produtos na plataforma. Até porque, segundo as estatísticas do brechó online, 60% do GMV da plataforma vêm de pessoas que vendem e compram.

No primeiro trimestre de 2021, o número de novos vendedores atingiu 225 mil, uma alta de 118% em comparação com o mesmo período do ano passado. Os novos compradores chegaram a 202 mil, uma expansão de 107%. Já o GMV somou R$ 172 milhões, um crescimento de 104%.

No período, o número de produtos vendidos no site alcançou 3,8 milhões, aumento de 82%. O prejuízo foi de R$ 31 milhões – um ano antes, era de apenas R$ 1 milhão.

Um dos planos, de acordo com Lima, é aumentar os parceiros logísticos. O Enjoei já tem parceria com os Correios e acabou de fechar acordo com a JadLog. “Quero ter pontos de coletas perto das casas dos consumidores”, diz o CEO do Enjoei. Nas cidades em que os novos parceiros logísticos foram implementados, o custo de envio teve uma redução de 12%.

O EnjuPro está também se expandido e atingiu 73 mil usuários, um crescimento de 133% nos três primeiros meses de 2021. Isso foi reflexo da abertura das categorias feminina e kids para todo o território nacional. Nesta operação, o Enjoei coleta as peças na casa do cliente, tira as fotografias e faz o envio. Pelo serviço completo, cobra uma comissão de 50%.

O mercado de segunda mão é uma das grandes tendências do setor de moda. Dados da empresa americana thredUp mostram que esse setor deverá saltar de um movimento global anual de US$ 24 bilhões, em 2019, para US$ 64 bilhões em 2024.

Não há dados sobre o Brasil. Mas as empresas de moda estão se mexendo para não ficar de fora dessa festa. A Arezzo, por exemplo, comprou a Troc, startup que atua no segmento de economia circular, vendendo roupas premium usadas.

No mundo, grandes varejistas também estão fazendo suas apostas nessa área. A loja sueca de segunda mão Sellpy, controlada pela gigante da moda H&M, está abrindo filiais em mais 20 países europeus, em uma aposta que a demanda por moda sustentável seguirá crescendo.

“A natureza inexplorada e pouco penetrada do mercado de segunda mão e do comércio eletrônico de vestuário do Brasil cria uma grande oportunidade, à medida que o Enjoei acelera os investimentos em marketing, melhora os níveis de serviço e constrói uma marca mais forte”, escreveram Luiz Guanais e Victor Rogatis, analistas do BTG Pactual, sobre a empresa.

O mercado, no entanto, parece que está esperando para ver a estratégia do Enjoei decolar. Depois de atingirem R$ 20,90, em 4 de fevereiro, as ações da empresa fecharam cotadas a R$ 10,37 no pregão da quinta-feira, 1º de julho. Elas voltaram a praticamente o mesmo patamar do IPO: R$ 10,25. O valor de mercado do brechó online é de R$ 2 bilhões.

Leia também